{"id":615,"date":"2023-10-19T09:35:40","date_gmt":"2023-10-19T12:35:40","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/2023\/10\/19\/mocambique-o-campo-ideologico-das-vozes-em-sina-de-aruanda-de-virgilia-ferrao\/"},"modified":"2023-10-19T09:35:40","modified_gmt":"2023-10-19T12:35:40","slug":"mocambique-o-campo-ideologico-das-vozes-em-sina-de-aruanda-de-virgilia-ferrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=615","title":{"rendered":"MO\u00c7AMBIQUE: O Campo Ideol\u00f3gico das Vozes em Sina de Aruanda, de Virg\u00edlia Ferr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O presente texto tem como objectivo reflectir e analisar as diferentes dimens\u00f5es do campo ideol\u00f3gico que se constr\u00f3i no romance Sina de Aruanda, da escritora Virg\u00edlia Ferr\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"wp-caption\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-large size-large wp-image-109725\" src=\"https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" srcset=\"https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina.jpeg 730w, https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina-300x180.jpeg 300w, https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina-250x150.jpeg 250w, https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina-550x330.jpeg 550w, https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sina-500x300.jpeg 500w\" alt=\"\" width=\"730\" height=\"438\" loading=\"lazy\" \/><figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div>Por: Raquel Miambo<\/div>\n<div>(Graduada em Literatura Mo\u00e7ambicana pela UEM)<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A compreens\u00e3o do que seja o campo ideol\u00f3gico passa, necessariamente, da defini\u00e7\u00e3o de ideologia. Segundo Eagleton (1997), podemos conceber a ideologia sob seis perspectivas, a saber: (1) processo material de produ\u00e7\u00e3o de ideias, cren\u00e7as e valores na vida social; (2) ideias e cren\u00e7as que simbolizam as condi\u00e7\u00f5es e experi\u00eancia de vida de um grupo ou classe espec\u00edfica, socialmente significativo; (3) promo\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o de interesse de grupos sociais opostos; (4) actividades de um poder social dominante; (5) ideias e cren\u00e7as que ajudam na legitima\u00e7\u00e3o dos interesses de um grupo dominante; (6) cren\u00e7as falsas ou ilus\u00f3rias.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Adopt\u00e1mos a primeira e a segunda defini\u00e7\u00f5es que se referem \u00e0 ideologia como um processo de produ\u00e7\u00e3o material de ideias, bem como um conjunto de ideias e cren\u00e7as de um grupo significativo. Ao que se depreende, essas defini\u00e7\u00f5es aproximam a ideologia da ideia de constru\u00e7\u00e3o de certa vis\u00e3o de mundo \u2013 vista por Japiassu &amp; Marcondes (1996) como uma concep\u00e7\u00e3o global, de car\u00e1cter intuitivo e pr\u00e9-te\u00f3rico, que um indiv\u00edduo ou uma comunidade formam de sua \u00e9poca, de seu mundo e vida em geral \u2013, pois pretendemos identificar na obra eme estudo elementos que concorrem para a constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, com aten\u00e7\u00e3o ao discurso. Ora, como assegura Reis (1978:409), o c\u00f3digo ideol\u00f3gico, em estudos liter\u00e1rios, compreende o conjunto de ideias e valores, ligados a uma organiza\u00e7\u00e3o, e que tem, por fim, facultar as rela\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas, integrando-se na din\u00e2mica da comunica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Identific\u00e1mos, na obra Sina de Aruanda, elementos narrativos que concorrem para a produ\u00e7\u00e3o de ideias, cren\u00e7as e valores (1) relativos ao ambientalismo atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o que o Homem estabelece com o meio ambiente; (2) relativos ao Espiritismo, quando evoca a evolu\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, atrav\u00e9s da reencarna\u00e7\u00e3o que \u00e9 a transcend\u00eancia do esp\u00edrito para um outro tempo hist\u00f3rico e a rela\u00e7\u00e3o entre esp\u00edrito e mat\u00e9ria; (3) relativos ao saudosismo, ao recuperar um dado do passado da Hist\u00f3ria de Mo\u00e7ambique e conferir um espa\u00e7o privilegiado na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>(i) Ideologia Esp\u00edrita: Kardec, citado por Carraca (2000:12), define espiritismo como estudo da natureza, origem e destino dos esp\u00edritos, bem como das suas rela\u00e7\u00f5es com o mundo corporal. Neste contexto, designam-se esp\u00edritas os adeptos do Espiritismo, que conhecem os seus princ\u00edpios ou dogmas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Podemos identificar inten\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do Espiritismo a partir do mon\u00f3logo de alguns narradores-personagens, tal o caso de D. Fernando Costa que pensa: \u201c(\u2026) N\u00e3o consegui salvar o meu amigo e, portanto, esta \u00e9 a \u00fanica coisa que posso fazer para tranquilizar o seu esp\u00edrito, perdido por estas terras (Ferr\u00e3o, 2021: 32).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A cren\u00e7a na necessidade de se criarem condi\u00e7\u00f5es para garantir a tranquilidade do esp\u00edrito ap\u00f3s a morte concorre para o que observamos como vis\u00e3o esp\u00edrita. H\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 de f\u00e9, mas tamb\u00e9m de busca pela pr\u00e1tica de algumas ac\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com essa cren\u00e7a.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Sou crist\u00e3o, estou limitado por essa cren\u00e7a, mas juro que, \u00e0s vezes, de noite, quando olho para as estrelas, tenho a impress\u00e3o de ouvir vozes. Pode apenas ser mau tempo, o canto do vento, ou a minha imagina\u00e7\u00e3o, mas, ocasionalmente, penso que, sinceramente, s\u00e3o vozes dos esp\u00edritos desse povo cruzando os c\u00e9us em busca de liberdade (Ferr\u00e3o, 2021:93).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>No mon\u00f3logo deste narrador-personagem, D. Fernando Costa, nota-se um choque entre cren\u00e7as, por um lado da doutrina crist\u00e3 e, por outro, da tradi\u00e7\u00e3o africana. Acreditar na exist\u00eancia de esp\u00edritos que vagueiam aut\u00f3nomos pelo espa\u00e7o e que estes respeitam um processo ou ciclo a fim de encontrar a paz, vai ao encontro dos ideais esp\u00edritas. Esta passagem evoca a cren\u00e7a na exist\u00eancia de uma vida p\u00f3s-morte, cren\u00e7a que atravessa diversos momentos da hist\u00f3ria.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Observ\u00e1mos vantagens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 personagem que serve de \u00e2ncora e consci\u00eancia dos demais, uma vez que \u00e9 a ela que se confia a fun\u00e7\u00e3o de reconhecer a reencarna\u00e7\u00e3o: \u201c\u02d7 Coincid\u00eancia o tanas! N\u00e3o v\u00eas? \u00c9 \u00f3bvio! Ela \u00e9 reencarna\u00e7\u00e3o da dona do prazo! E queria tirar-me do jogo, impedir-me de chegar aqui\u201d (Ferr\u00e3o, 2021:178).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Angelina \u00e9 uma personagem com caracter\u00edsticas especiais, n\u00e3o s\u00f3 por ser reencarna\u00e7\u00e3o de um homem, mas porque possui dons de clarivid\u00eancia. \u00c9 atrav\u00e9s dela que se revela a vida passada dos demais, por meios de vis\u00f5es, sinais e digress\u00f5es orientadas por terapias:<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Num minuto estava ali animada, a conversar com Daniel de Barros, e no minuto a seguir\u2026 Estava a vislumbrar, atrav\u00e9s de ampla janela, um luar prateado, uma noite perfeita e um vasto mar. Sentia que tinha a terra, o tempo e os sonhos a meu favor (Ferr\u00e3o, 2021: 79). (destaque nosso)<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Neste excerto, Angelina visualiza-se na vida passada numa esp\u00e9cie de alucina\u00e7\u00e3o. Diante de um evento do s\u00e9culo XXI, ela revive lembran\u00e7as da sua anterior encarna\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o Aruanda \u00e9 prop\u00edcio para a evolu\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, \u00e9 onde os esp\u00edritos, ap\u00f3s a morte do corpo, avan\u00e7am para a prova de uma nova exist\u00eancia, uma vez n\u00e3o tendo alcan\u00e7ado a perfei\u00e7\u00e3o em vida. Pedro Lucas, \u00e0 beira da morte, consegue visualizar a sua outra vida, que resultar\u00e1 da reencarna\u00e7\u00e3o:<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>H\u00e1 um lampejo dentro de mim. \u00c9 t\u00e3o penetrante e intrusivo que a princ\u00edpio n\u00e3o me permite enxergar. Mas depois compreendo. N\u00e3o \u00e9 a minha casa, n\u00e3o \u00e9 Aruanda, n\u00e3o \u00e9 coisa alguma nem peda\u00e7o de nada. \u00c9 apenas o tempo suspenso, numa part\u00edcula de espa\u00e7o para curar almas (Ferr\u00e3o, 2021: 222).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A escassos minutos da morte, ele consegue visualizar-se num outro espa\u00e7o onde se movimenta, mas tamb\u00e9m num outro espa\u00e7o-corpo onde o esp\u00edrito vai intelectualizar a mat\u00e9ria. \u00c9 a partir de Aruanda que isso acontece, e n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o a Pedro Lucas que consegue visualizar-se s\u00e9culos mais tarde no corpo de Daniel de Barros, como tamb\u00e9m \u00e0s restantes personagens. Ora, atrav\u00e9s dessa prolepse, podemos observar o estado anterior do esp\u00edrito comparado ao actual, numa esp\u00e9cie de mem\u00f3ria do futuro: \u201cDaqui a milh\u00f5es de anos, quem sabe. Espero o dia em que a alma seja s\u00e1bia o suficiente para n\u00e3o temer a solid\u00e3o, nem os fracassos. Quando o mundo sentir mais sinais de liberdade e o ser humano compreender que nunca estar\u00e1 s\u00f3\u201d (Ferr\u00e3o, 2021:222).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Num outro contexto discursivo, Daniel de Barros acrescenta: \u201c(\u2026) tenho estado vivo porque a minha alma apreendeu a ser s\u00e1bia o suficiente para n\u00e3o temer a solid\u00e3o, nem fracassos. Hoje sei que nunca estarei s\u00f3\u201d (Ferr\u00e3o, 2021:239).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00c9 atrav\u00e9s da anacronia que se explicita essa vis\u00e3o esp\u00edrita, \u00e9 onde verificamos o estado anterior do esp\u00edrito comparado ao actual, e vice e versa. Mas tamb\u00e9m o relembrar o passado nos conduz \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>(ii) Ideologia pr\u00f3-ambientalista: De acordo com Rocha (2001:08), ambientalismo \u00e9 uma corrente de pensamentos e movimentos sociais em defesa do meio ambiente, que busca a implementa\u00e7\u00e3o de medidas com foco na protec\u00e7\u00e3o ambiental, impondo mudan\u00e7as no estilo de vida. A rela\u00e7\u00e3o sociedade-natureza \u00e9 complexa ao sermos ao mesmo tempo sua dependente e sua consumidora. Ainda assim, desde os finais do s\u00e9culo XX at\u00e9 \u00e0 actualidade, temos um crescente duelo de for\u00e7as que nos obriga a posicionarmo-nos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de extin\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies sobre o planeta. \u00c9 poss\u00edvel notar esta preocupa\u00e7\u00e3o no romance: \u201c\u02d7 (\u2026) Com os recursos a esgotarem-se na terra, h\u00e1 quem ande a vender parcelas de terreno, em Marte e em outros planetas por descobrir\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 39).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Um discurso de apelo que leva o interlocutor a tomar uma decis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao estado actual do nosso planeta. Neste contexto, Daniel de Barros leva-nos a pensar em ac\u00e7\u00f5es que visam amenizar o impacto da ac\u00e7\u00e3o humana sobre a Terra, ou seja, \u00e9 um discurso atravessado pela causa ambiental:<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u201c \u2013 Portanto, ou cuidamos deste planeta, que \u00e9, por enquanto, a nossa \u00fanica casa natal, ou come\u00e7amos imediatamente a fazer uma grande poupan\u00e7a para poder arrendar espa\u00e7o, em Marte e afins\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 39). (destaque nosso)<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00c9 um discurso ret\u00f3rico, usando estrat\u00e9gia antit\u00e9tica para convencer o audit\u00f3rio a aderir \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o ambientalista, pois, ou tomam conta do meio ambiente ou, caso contr\u00e1rio, ser\u00e1 preciso ter condi\u00e7\u00f5es de ir a Marte, o que seria dispendioso.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Diante de um discurso desta \u00edndole, reflectimos sobre o espa\u00e7o \u201cTerra\u201d e tudo o que este pode significar enquanto espa\u00e7o colectivo e tamb\u00e9m individual onde, dia ap\u00f3s dia, cada um de n\u00f3s se desenvolve e se transforma f\u00edsica e psicologicamente. Trata-se de consciencializar o ser humano sobre ac\u00e7\u00f5es mais acertadas em rela\u00e7\u00e3o ao planeta.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Uma outra refer\u00eancia que \u00e9 aqui assinalada remetendo-nos a um discurso ambientalista d\u00e1-se nos seguintes termos: \u201c- N\u00e3o fica bem deitar lixo na praia\u2026 para al\u00e9m de estarmos a poluir, a degradar a costa, estamos a dar muito trabalho \u00e0s pessoas que depois t\u00eam de limpar\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 85).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Espa\u00e7os sociais como a praia merecem aten\u00e7\u00e3o de todos. Estamos diante de um discurso de censura de ac\u00e7\u00f5es contra a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente e apela a pr\u00e1ticas de sua conserva\u00e7\u00e3o: \u201c\u02d7 \u00c9 lixo que se deve enfiar na sacola, n\u00e3o a vergonha, senhores (\u2026) n\u00e3o custa nada apanhar e deitar esse lixo num local mais apropriado. \u00c9 um favor que fazem a voc\u00eas mesmos, e o planeta agradece\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 85).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>N\u00e3o s\u00f3 no que respeita \u00e0 praia, mas tamb\u00e9m \u00e0 ilha, que \u00e9 um espa\u00e7o importante na obra, se manifestam ideais ambientalistas: \u201c- (\u2026) Aquilo j\u00e1 est\u00e1 em ru\u00ednas, a miss\u00e3o foi esquecida e deixada em estado de degrada\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 esperan\u00e7a de que venha a ser restaurada. Muito em breve!\u201d (Ferr\u00e3o, 2021:51).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A preocupa\u00e7\u00e3o com este espa\u00e7o remoto, a esperan\u00e7a na restaura\u00e7\u00e3o da ilha, remete-nos \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do meio ambiente e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria dos seus habitantes.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>(iii) Ideologia saudosista: Para Maria Rollo (2014:01), saudosismo consubstancia uma vis\u00e3o de mundo que tem por base a saudade, a valoriza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias passadas, resultantes da falta ou aus\u00eancia de algo, algu\u00e9m ou momento, nalguns casos, com um efeito de nostalgia. No que se refere \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do passado e preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, o Prazo de Aruanda, um espa\u00e7o exclusivo de uma certa \u00e9poca hist\u00f3rica, \u00e9, na obra, localizado no s\u00e9culo XIX: \u201cAruanda est\u00e1 muda. (\u2026) O sossego estende-se at\u00e9 ao casar\u00e3o dos senhores do Prazo, capit\u00e3o-mor Bento Noronha e dona Lu\u00edsa, sua esposa\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 19).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O Prazo de Aruanda remete-nos para a hist\u00f3ria de Mo\u00e7ambique, sobre os prazos do vale de Zambeze, que foi uma estrat\u00e9gia de coloniza\u00e7\u00e3o iniciada na segunda metade do s\u00e9culo XVI. Assim, leva-nos a uma escrita que valoriza o passado, a uma express\u00e3o do saudosismo. Al\u00e9m disso, mais do que recuperar um fen\u00f3meno hist\u00f3rico, h\u00e1 uma tentativa de conservar as caracter\u00edsticas emp\u00edricas desse fen\u00f3meno: \u201cNo nosso meio, dentro destas terras empenhadas, t\u00eam crescido chefias tradicionais mistas. Isto acontece, h\u00e1 quase tr\u00eas s\u00e9culos, desde que as terras come\u00e7aram a ser concedidas por El-Rei, andando sempre de filha em filha\u2026 (\u2026)\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 45).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Como j\u00e1 nos t\u00ednhamos referido, o Prazo de Aruanda localiza-se no s\u00e9culo XIX, e o narrador evoca o surgimento dos prazos do Vale do Zambeze, tr\u00eas s\u00e9culos depois, mas tamb\u00e9m nos d\u00e1 a conhecer uma das principais caracter\u00edsticas que \u00e9 a uni\u00e3o entre os nativos das terras e os estrangeiros, portugueses e indianos. Veja-se a fala de um outro narrador-personagem, Daniel de Barros, j\u00e1 no s\u00e9culo XXI: \u201c\u02d7 Aruanda tem uma carga hist\u00f3rica bela e \u00fanica! Certamente voc\u00eas estudaram sobre os Prazos da Coroa, n\u00e3o estudaram?\u201d (Ferr\u00e3o, 2021: 51).<\/div>\n<div>Esta fala convida-nos a um momento did\u00e1ctico, que apela para mem\u00f3ria hist\u00f3rica, complementado com o que foi proferido de seguida:<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u2013 Os prazos eram unidades pol\u00edticas, terras conquistadas pela coroa portuguesa e que eram entregues, por um per\u00edodo de tr\u00eas anos a mercadores portugueses e indianos. A sucess\u00e3o era feita por via feminina; ou seja, as propriet\u00e1rias eram mulheres, as chamadas \u201cdonas\u201d. Uma das \u00faltimas resist\u00eancias majest\u00e1ticas deu-se em Aruanda, na altura um prazo (Ferr\u00e3o, 2021: 51).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Este excerto, intencionalmente did\u00e1ctico, n\u00e3o s\u00f3 recupera um dado da hist\u00f3ria, como tamb\u00e9m explica o fen\u00f3meno dos Prazos, num di\u00e1logo com a hist\u00f3ria de Mo\u00e7ambique. O excerto tamb\u00e9m nos remete para as formas de tratamento pr\u00f3prias desta \u00e9poca hist\u00f3rica, que valorizam a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: termos como Donas, El-Rei, A-chicunda possuem um valor na hierarquia sociopol\u00edtica dos Prazos do Vale do Zambeze.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O campo ideol\u00f3gico que \u00e9 projectado no romance compreende o Espiritismo, o saudosismo e o ambientalismo. No que diz respeito \u00e0 ideologia esp\u00edrita identific\u00e1mos, a partir do discurso dos narradores-personagens, express\u00e3o de cren\u00e7as e ideias que nos remetem para a reencarna\u00e7\u00e3o e cren\u00e7a na evolu\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito ap\u00f3s a morte. No que toca \u00e0 ideologia ambientalista, verific\u00e1mos, no discurso dos narradores-personagens, manifesta\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es e movimentos que visam consciencializar o homem sobre a necessidade de preven\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Finalmente, para a express\u00e3o do saudosismo, recupera-se uma \u00e9poca da hist\u00f3ria de Mo\u00e7ambique, atrav\u00e9s do fen\u00f3meno dos Prazos do Vale de Zambeze e da valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/div>\n<div>CARRACA, Orson Peter. (2003). Das dificuldades do Espiritismo Pr\u00e1tico: Reformador. S\u00e3o Paulo. Junho de 2003. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.espiritualidades.com.br\/Artigos\/C_autores\/CARRARA_Orson_tit_Das_dificuldades_do_Espiritismo_pratico.pdf. Acesso em 03.04.2023<\/div>\n<div>EAGLETON, Terry. (1997). Ideologia: Uma Introdu\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Carlos Vieira. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista.<\/div>\n<div>FERR\u00c3O, Virg\u00edlia. (2021). Sina de Aruanda. Maputo\u201d Funda\u00e7\u00e3o Fernando Leite Couto.<\/div>\n<div>JAPIASSU, Hilton &amp; MARCONDES, Danilo. (1996). Dicion\u00e1rio B\u00e1sico de Filosofia. 3.\u00aa ed. Rio de Janeiro: Zahar.<\/div>\n<div>REIS, Carlos. (1978). T\u00e9cnicas de An\u00e1lise Textual. 2.\u00aaed. Coimbra: Almedina.<\/div>\n<div>ROCHA, Ernesto Diaz. (2001). Ambientalismo, Ecologia, Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e Universidade: O \u00e1rduo mas poss\u00edvel caminho da institucionaliza\u00e7\u00e3o da interdisciplinaridade ambiental no Brasil. Rio de Janeiro: Universidade Federal Rural Rio de Janeiro (Tese de doutoramento).<\/div>\n<div>\u00a0ROLLO, Maria Fernanda. (2014). Dicion\u00e1rio de hist\u00f3ria da I Rep\u00fablica e do Republicanismo. Lisboa: Assembleia da Rep\u00fablica-Divis\u00e3o de Edi\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>fonte: <a href=\"https:\/\/opais.co.mz\/o-campo-ideologico-das-vozes-em-sina-de-aruanda-de-virgilia-ferrao\/\">https:\/\/opais.co.mz\/o-campo-ideologico-das-vozes-em-sina-de-aruanda-de-virgilia-ferrao\/<\/a><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_615\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"615\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 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