{"id":658,"date":"2023-11-14T11:02:50","date_gmt":"2023-11-14T14:02:50","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/2023\/11\/14\/brasil-rapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop\/"},"modified":"2023-11-14T11:02:50","modified_gmt":"2023-11-14T14:02:50","slug":"brasil-rapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=658","title":{"rendered":"BRASIL: Rapper Sharylaine luta para abrir caminho para mulheres no hip hop"},"content":{"rendered":"<p>Artista avalia que machismo ainda \u00e9 obst\u00e1culo a ser superado<\/p>\n<div class=\"post-image\"><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-11\/rapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop#\"> <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/_YHfGW6JIzO6tc1tStEVMQh3lpA=\/1170x700\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/03-rapper-sharylaine.png?itok=ymbKjBhX\" alt=\"destaque sharylaine \" id=\"media-358401\" class=\"rounded-lg shadow-sm w-100\" title=\"Arte sobre foto de Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><figcaption class=\"badge badge-pill badge-dark caption pos-absolute-bottom-right m-4 text-white shadow-sm\">\u00a9 Arte sobre foto de Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\"> <span class=\"badge badge-pill badge-warning\">Geral<\/span>&nbsp; <\/a><a href=\"http:\/\/www.linkedin.com\/shareArticle?url=https%3A%2F%2Fagenciabrasil.ebc.com.br%2Fgeral%2Fnoticia%2F2023-11%2Frapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop&amp;summary=Rapper+Sharylaine+luta+para+abrir+caminho+para+mulheres+no+hip+hop+%7C+Ag%C3%AAncia+Brasil\" class=\"social-icons-link click-share\" title=\"Share on Linkedin\"><span class=\"sr-only\">Share on Linkedin<\/span> <\/a><\/p>\n<div class=\"row\">\n<h4 class=\"col-10 offset-1 animated fadeInDown dealy-1100 alt-font font-italic my-2 small text-info text-center\">Publicado em 14\/11\/2023 &#8211; 07:32 Por Daniel Mello &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; S\u00e3o Paulo<\/h4>\n<h4 class=\"alt-font font-italic small text-info text-left\">ouvir:<\/h4>\n<p><audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/212810.mp3\" controls=\"controls\" controlslist=\"nodownload\" id=\"tts-player\"><\/audio>\n<\/div>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/uZd_MTK1w8gMop2E4MNOkt-rO3I=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/testeira_3.png?itok=xtmwgQZ1\" alt=\"testeira 3\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Arte\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo de 38 anos de carreira, a <em>rappe<\/em>r Sharylaine&nbsp;n\u00e3o s\u00f3 lutou para abrir caminho no <em>hip hop<\/em>, mas tamb\u00e9m trabalhou para deixar as portas abertas para as mulheres que vieram depois. Para a artista, mesmo 40 anos ap\u00f3s a chegada dessa cultura ao Brasil, o machismo ainda \u00e9 um obst\u00e1culo a ser superado. \u201c\u00c9 um problema mundial, mas que n\u00f3s mulheres come\u00e7amos em v\u00e1rios lugares, em v\u00e1rios momentos, a trabalhar isso, e trabalhar juntas, porque a gente entende que s\u00f3 juntas n\u00f3s conseguimos alcan\u00e7ar mais, dar mais passos. Acho que esse \u00e9 um processo que n\u00e3o tem fim\u201d, ressalta.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1566185&amp;o=node\" alt=\"\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1566185&amp;o=node\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, h\u00e1 alegria de ver que os diversos projetos constru\u00eddos nessa trajet\u00f3ria t\u00eam tornado o ambiente do <em>hip hop<\/em> mais acolhedor para as mulheres. \u201cMe emociono de ter as meninas hoje em patamares melhores, com acessos melhores, pensando e desenvolvendo sua produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, necessariamente, dependendo de um produtor para dizer o que ela vai ter que fazer\u201d, acrescenta a <em>rapper<\/em> que participou da funda\u00e7\u00e3o, entre outras iniciativas, da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop.<\/p>\n<p>Toda essa hist\u00f3ria come\u00e7ou no centro de S\u00e3o Paulo, na Esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Bento de metr\u00f4, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Al\u00e9m da boa localiza\u00e7\u00e3o, Sharylaine conta que o local foi escolhido por quest\u00f5es pr\u00e1ticas. \u201cO ch\u00e3o \u00e9 bom, voc\u00ea poder dan\u00e7ar, de&nbsp;certa forma, num espa\u00e7o seguro, e tamb\u00e9m tinha acesso \u00e0 energia el\u00e9trica, para n\u00e3o gastar tanto com as pilhas\u201d, conta a pioneira.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/mBPcAN6nvxPVRRL8Bl1DDGXzDr0=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_6585_0.jpg?itok=t5LyTROx\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 10\/11\/2023 - A rapper Sharylaine fala sobre a cultura Hip Hop no Largo de S\u00e3o Bento. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<h6 class=\"meta\">Rapper Sharylaine diz que o machismo ainda \u00e9 um obst\u00e1culo a ser superado na cultura hip hop&nbsp;&#8211; <strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Foi pela dan\u00e7a que a artista chegou ao <em>hip hop<\/em>. Mas&nbsp;logo Sharylaine passou a empunhar o microfone para fazer rimas. \u201cEu pensava assim: \u2018n\u00e3o posso ser uma mulher que fala s\u00f3 sobre a quest\u00e3o da mulher\u2019. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A gente n\u00e3o vive s\u00f3 isso. Pensar mundo mesmo, pensar pol\u00edtica, pensar a hist\u00f3ria do meu povo\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Para a grava\u00e7\u00e3o do programa <em>Caminhos da Reportagem,<\/em> da <strong>TV Brasil<\/strong>, Sharylaine voltou \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 onde a cultura <em>hip hop<\/em> tomou forma, repercutindo em todo o pa\u00eds nos anos seguintes. Foi a partir dos encontros ali que a jovem <em>rapper<\/em>, com 20 anos \u00e0 \u00e9poca, integrou a colet\u00e2nea <em>Consci\u00eancia Black<\/em>, volume 1, ao lado dos Racionais MC\u2019s. \u201cEu nem imaginava que aquilo ia ser t\u00e3o importante para a minha trajet\u00f3ria\u201d, conta.<\/p>\n<p>Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Sharylaine.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Como surgiu a ideia de fazer encontros de <em>hip hop<\/em> aqui na Esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Bento?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong> Foi uma quest\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o da galera do <em>breaking<\/em>, um espa\u00e7o que viabilizava: o ch\u00e3o \u00e9 bom, voc\u00ea poder dan\u00e7ar, de uma certa forma, num espa\u00e7o seguro e tamb\u00e9m tinha acesso \u00e0 energia el\u00e9trica, para n\u00e3o gastar tanto com as pilhas. As pilhas para r\u00e1dio eram muito grandes e muito caras. Voc\u00ea precisava \u00e0s vezes de quatro, seis, oito&nbsp;pilhas para o r\u00e1dio funcionar.&nbsp;Aqui era um palco, que 30 anos atr\u00e1s a gente fez a mostra nacional que se tornou at\u00e9 internacional, pelas pessoas que vieram. N\u00f3s fizemos a mostra de <em>breaking<\/em> com apoio do Geled\u00e9s em parceria tamb\u00e9m com o Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Como voc\u00ea come\u00e7ou como <em>b-girl<\/em>?<br \/> <strong>Sharylaine:&nbsp;<\/strong>Havia uma inten\u00e7\u00e3o de dan\u00e7ar. Eu andava com os meninos do <em>breaking<\/em>, da gangue. Mas, era mais dif\u00edcil pra mim dan\u00e7ar no ch\u00e3o. O que eu aprendi foi <em>smurf dancing<\/em>, que, hoje, a galera chama de dan\u00e7a de rua, que \u00e9 uma dan\u00e7a mais no alto. Eu tive uma queda no basquete que zoou meu joelho e que inviabilizava mesmo.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;E como foi essa transi\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a pra ser MC?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong>&nbsp;Eu conhe\u00e7o os meninos em 1985 no baile do meu tio, Jos\u00e9 Augusto. Eu come\u00e7o a acompanh\u00e1-los e, dentro da gangue mesmo, eu conheci o<em> rap<\/em>. Eu falei: &#8220;Bom, isso \u00e9 poss\u00edvel&#8221;. Comecei a ensaiar, cantar o <em>rap<\/em> de um amigo, at\u00e9 que eu resolvi que a gente devia ir pro palco. Em 1986 fundei o Rap Girls, que \u00e9 considerado um dos primeiros ou o primeiro grupo de <em>rap<\/em> feminino do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>At\u00e9 hoje tem batalhas de rimas aqui na parte de cima da esta\u00e7\u00e3o, no Largo S\u00e3o Bento?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong>&nbsp;\u00c9 uma retomada mesmo do movimento, porque o movimento sempre aconteceu no \u00e2mbito central da cidade. Dizer que hoje a gente tem&nbsp;batalha feminina \u00e9 um avan\u00e7o muito importante porque a cultura <em>hip hop<\/em> continua machista, continua masculina e, se a gente quer ter algum espa\u00e7o nesse lugar, n\u00f3s precisamos criar este espa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Como foi isso de ser mulher e se inserir nesse mundo machista do <em>hip hop<\/em>?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong>&nbsp;Luta, porque ainda hoje h\u00e1 homens <em>hip hoppers<\/em>, dentro da cultura&nbsp;que acreditam que a mulher s\u00f3 \u00e9 boa se ela rimar feito um homem. E tamb\u00e9m que o <em>rap<\/em> foi feito para homem. Eu j\u00e1 ouvi isso, e n\u00e3o estou falando de uma d\u00e9cada atr\u00e1s, estou falando de 2023, quando a cultura<em> hip hop<\/em> completa 50 anos, mundialmente falando, e 40 anos, no Brasil, e de produtores que produziram mulheres. Tem alguma coisa errada a\u00ed, n\u00e9?<\/p>\n<p>Eu fiquei bem chocada, mas, ao inv\u00e9s de me retrair, eu acho que me deu mais for\u00e7a pra refor\u00e7ar a luta que eu j\u00e1 encampei ao longo do tempo. N\u00f3s, mulheres, a gente acabou se organizando em n\u00facleos, em grupos, nos quais as pessoas falavam pra gente: &#8220;Agora vai ser o Clube da Luluzinha? Voc\u00eas est\u00e3o querendo dividir o movimento?&#8221;. N\u00e3o, a gente n\u00e3o est\u00e1 querendo dividir, mas a gente n\u00e3o est\u00e1 se vendo representada. A gente n\u00e3o est\u00e1 se vendo reconhecida no processo, porque voc\u00ea vai ver homens citando homens como refer\u00eancias. Raramente voc\u00ea vai ver um homem citando uma mulher como refer\u00eancia para o trabalho dele. Voc\u00ea pode falar nacionalmente ou internacionalmente.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Por falar em refer\u00eancia, a gente fala muito do Kool Herc como um grande produtor, mas a Cindy Campbell estava l\u00e1 fazendo a produ\u00e7\u00e3o da primeira festa de <em>hip hop<\/em> nesse pioneirismo. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da Cindy Campbell, ela te influenciou pra voc\u00ea estar nesse lugar?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong> N\u00e3o me influenciou, justamente porque ela foi invisibilizada. Eu conheci tr\u00eas homens antes de saber que ela era o piv\u00f4 disso tudo [da <em>block party<\/em> de 1973, em Nova York, que fundou a cultura <em>hip hop<\/em>]. D\u00e9cadas depois eu fui saber da Cindy Campbell. D\u00e9cadas depois eu fui saber que a produtora do Sugar Hill Gang era uma mulher, a Silvia Robinson, que tamb\u00e9m ficou invisibilizada no processo. As pessoas sabiam qual era o nome da gravadora, mas ningu\u00e9m falou quem era a produtora, n\u00e3o se teve a necessidade de falar quem era o produtor porque o produtor n\u00e3o era um homem. Ela ficou nesse processo de invisibilidade. Esse \u00e9 um processo tanto l\u00e1 quanto aqui \u00e9 um processo de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo l\u00e1, nesse per\u00edodo de cinquenten\u00e1rio que a gente teve a oportunidade de acompanhar celebra\u00e7\u00f5es. A gente percebeu a invisibilidade das mulheres. Ent\u00e3o voc\u00ea teve, por exemplo, um evento no Yankee Stadium que as mulheres que foram&nbsp;foram convidadas por homens. Elas n\u00e3o estavam no<em> flyer<\/em> de divulga\u00e7\u00e3o.&nbsp;Isso n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 do Brasil, \u00e9 um problema mundial, mas que n\u00f3s mulheres come\u00e7amos em v\u00e1rios lugares, em v\u00e1rios momentos, trabalhar isso, e trabalhar juntas, porque a gente entende que s\u00f3 juntas n\u00f3s conseguimos alcan\u00e7ar mais, dar mais passos. Acho que esse \u00e9 um processo que n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Conta um pouco da hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o da a frente de mulheres do hip hop.<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong> Eu sou cofundadora do Feminrappers, que nasceu em Geled\u00e9s, o Instituto da Mulher Negra. Tamb\u00e9m sou cofundadora do Minas da Rima, que veio do embri\u00e3o do Feminirappers, para pensar essa movimenta\u00e7\u00e3o da mulher do <em>rap<\/em> na cena, mas&nbsp;abrigando os outros elementos, e da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop &#8211; um coletivo de v\u00e1rios coletivos, que abriga mulheres de todos os elementos. Todos com um fundamento \u00fanico, que \u00e9 pensar essa mulher no cen\u00e1rio, como que ela chega, como que ela \u00e9 acolhida, o que a gente faz pra mant\u00ea-la pra que ela n\u00e3o desista, pra que ela continue e como que a gente viabiliza espa\u00e7os pra ela mostrar sua arte. Espa\u00e7os respeitosos, que elas possam colocar o seu equipamento e n\u00e3o ter o equipamento sabotado por terceiros, para ver se realmente ela \u00e9 boa.<\/p>\n<p>Porque, quando \u00e9 a mulher na produ\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre a quest\u00e3o: &#8220;Ser\u00e1 que ela \u00e9 boa mesmo?&#8221;. &#8220;Ser\u00e1 que ela \u00e9 competente?&#8221;. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem algumas sabotagens pra testar essas mulheres. E posso falar que \u00e9 em todos os elementos da cultura<em> hip hop<\/em>, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com a mulher MC, mas \u00e9 uma problem\u00e1tica pra <em>b-girl<\/em>, <em>break-girl<\/em>, que dan\u00e7a o <em>breaking<\/em>, para a DJ, para a grafiteira, que muitas vezes tem uma parede pra ser grafitada e eles deixam um cantinho pra ela. Ocupam todo o lugar e deixa s\u00f3 um pontinho pra ela. S\u00e3o sabotagens que a todo tempo a gente tenta quebrar ou, de fato, construir esse espa\u00e7o pra gente conseguir fazer a cultura.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/CiSHZegeaBp7kG2SFQoZFYlfRAE=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/vozes-hiphop.png?itok=CnOcsiR3\" alt=\"Vozes Hip Hop arte \" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Arte\/Ag\u00eancia Brasil\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Ainda falando dessas iniciativas de que voc\u00ea participou pra apoiar as mulheres no <em>hip hop<\/em>, em todos os elementos, voc\u00ea v\u00ea isso dando frutos, teve gente que conseguiu crescer melhor porque tinha esse tipo de apoio?<br \/> <strong>Sharylaine<\/strong>:&nbsp;Sim, eu me orgulho em dizer e at\u00e9 me emociono de ter as meninas hoje em patamares melhores, com acessos melhores, pensando e desenvolvendo sua produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente dependendo de um produtor pra dizer o que ela vai ter que fazer. Sou muito feliz com isso, mas tamb\u00e9m tenho que dizer que Brasil afora a coisa \u00e9 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, n\u00f3s estamos caminhando. As meninas fora do que a gente chamaria grande centro \u2013&nbsp;que \u00e9 S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia, Rio Grande do Sul \u2013&nbsp;t\u00eam uma dificuldade maior. Tem a quest\u00e3o do ass\u00e9dio para poder participar do evento, o ass\u00e9dio para poder ser produzida musicalmente, enfim, isso ainda \u00e9 uma problem\u00e1tica que a gente est\u00e1 o tempo todo em discuss\u00e3o para ver como a gente age. A quest\u00e3o da viol\u00eancia que tamb\u00e9m parte pra a\u00e7\u00f5es de feminic\u00eddio, que est\u00e1 dentro da cultura tamb\u00e9m. Fazedores da cultura, homens, companheiros, que s\u00e3o atuantes na cultura reproduzindo esse machismo. A gente tamb\u00e9m sofre por esse lado.<\/p>\n<p>Mas entender essa luta pra aquelas que n\u00e3o est\u00e3o organizadas. Entender que essa luta \u00e9 poss\u00edvel. Aquilo que diziam: &#8220;Ah, junta uma mulherada no quarto, ou elas v\u00e3o ficar fofocando ou v\u00e3o ficar se matando&#8221;. Isso n\u00e3o existe. L\u00f3gico que somos diferentes, mas temos o que nos une, que s\u00e3o coisas grandes e pequenas. Sejam situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis que a gente precisa lidar, ou sejam caminhos para sair de situa\u00e7\u00f5es, a gente troca as nossas experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es pra uma ajudar a outra. E para uma n\u00e3o passar pelo que a outra passou. N\u00e3o que a gente tenha a receita perfeita, mas s\u00e3o experi\u00eancias que a gente troca e vai se fortalecendo.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Vamos falar um pouco da sua trajet\u00f3ria? Voc\u00ea participou de um disco que \u00e9 um dos mais emblem\u00e1ticos do <em>hip hop <\/em>brasileiro, que \u00e9 o <em>Consci\u00eancia Black<\/em>. Queria que voc\u00ea falasse o que foi pra voc\u00ea estar nesse momento.<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong>&nbsp;N\u00e3o era pra eu ir sozinha, era pra ir Rap Girls eu e minha parceira City Lee, que n\u00e3o foi porque ela desistiu, parou. Eu ainda titubeei se ia ou n\u00e3o gravar. Eu tive ajuda dos amigos enfim, indo comigo, me inscrevendo pra cantar nos clubes e at\u00e9 para eu me sentir segura. Acabei indo gravar.<\/p>\n<p>Foi bom porque eu nem imaginava que aquilo ia ser t\u00e3o importante para a minha trajet\u00f3ria que eu olho pra tr\u00e1s hoje e vejo. Mas foi num momento que eu ainda era muito crua. Eu queria ter escolhido a minha batida, queria ter escolhido o meu sampler. Eu fui meio que impulsionada pelo produtor executivo, pelo produtor da m\u00fasica a escolhas como uni-duni-t\u00ea. Acho que, se eu tivesse um pouco mais de maturidade, teria feito a m\u00fasica do jeito que eu queria e ela teria pulsado mais.<\/p>\n<p>Mas foi muito importante pra minha trajet\u00f3ria, eu agrade\u00e7o \u00e0 equipe [da produtora] Zimbabwe por ter gostado primeiro do trabalho e acreditado e investido para eu poder estar l\u00e1 e firmar a marca de ter sido a primeira mulher solo a gravar, e acho que, agora, com o reconhecimento de \u00e2mbito nacional. Isso me rendeu e me rende v\u00e1rios t\u00edtulos de reconhecimento pela minha trajet\u00f3ria. Posso dizer que foi um grande presente para quem fazia aquilo que gostava, porque de fato a gente n\u00e3o tinha dimens\u00e3o do que podia ser. Pensar que 38 anos atr\u00e1s eu estava s\u00f3 me divertindo, n\u00e3o tinha uma expectativa de seriedade.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:&nbsp;<\/strong>Tem outros momentos que voc\u00ea destacaria como marcos da sua carreira?<br \/> <strong>Sharylaine:<\/strong>&nbsp;Marco, acho que \u00e9 em 1985 quando eu conheci a cultura, atrav\u00e9s da Gangue Na\u00e7\u00e3o Zulu. 1986, quado comecei a cantar e fui subir num palco pela primeira vez pra cantar um <em>rap<\/em> de minissaia falando de pol\u00edtica. Em 1989, quando foi a grava\u00e7\u00e3o do disco. A chegada em Geled\u00e9s, que \u00e9 o Instituto da Mulher Negra, que foi um divisor de \u00e1guas de entender o mundo, entender o racismo, o machismo, o feminismo, a sociedade, a viol\u00eancia policial. Conhecer sobre a cultura negra, sobre os nossos \u00eddolos e l\u00edderes negros, a hist\u00f3ria do meu povo, isso tamb\u00e9m foi um grande divisor.<\/p>\n<p>Acho que os tr\u00eas momentos, que eu chamo de tr\u00eas ondas desse movimento de mulheres, que foram o Feminirappers, Minas da Rima e a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop e de participar dos embri\u00f5es da Semana de Cultura Hip Hop. Participei ali do embri\u00e3o, das reuni\u00f5es para a gente come\u00e7ar a organizar com a [organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental] A\u00e7\u00e3o Educativa e depois ela se tornar lei [Lei municipal 13.924 de 2004, que criou a Semana do Hip Hop em S\u00e3o Paulo].<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Pensando nesses quase 40 anos de carreira, quando voc\u00ea come\u00e7ou, o que te incentivou? Que assuntos, que temas que te tocavam, te afetavam, te faziam rimar? Ainda s\u00e3o os mesmos que te fazem rimar hoje?<br \/> <strong>Sharylaine:&nbsp;<\/strong>Nesses 38 anos, foi um processo de ir conhecendo a cultura <em>hip hop<\/em>. Voc\u00ea v\u00ea o <em>hip hop<\/em> em todo lugar. Olha que coisa mais linda: est\u00e1 nos pr\u00e9dios, no centro da cidade, est\u00e1 nas comunidades, nas casas, nas favelas coloridas que os grafiteiros e grafiteiras promovem. Naquela \u00e9poca, quer dizer, os primeiros contatos que eu tive com a escrita daquela \u00e9poca era pensar em pol\u00edtica, pensar no mundo, pensar fora da caixa, como jovem que nasceu na sua adolesc\u00eancia com liberdade, fora do per\u00edodo de ditadura. Era isso. Quando eu conhe\u00e7o o Geled\u00e9s \u00e9 que isso se volta mais para as quest\u00f5es femininas.<\/p>\n<p>Eu pensava assim: \u201cN\u00e3o posso ser uma mulher que fala s\u00f3 sobre a quest\u00e3o da mulher\u201d. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A gente n\u00e3o vive s\u00f3 isso. Pensar mundo mesmo, pensar pol\u00edtica, pensar a hist\u00f3ria do meu povo. Poder contar a hist\u00f3ria do meu povo atrav\u00e9s da minha rima, da minha levada. Falar sobre o que \u00e9 o <em>hip hop<\/em>, porque at\u00e9 hoje, depois de 40 anos, as pessoas ainda t\u00eam d\u00favidas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea as pessoas discutindo se s\u00e3o quatro elementos, se s\u00e3o cinco elementos, se s\u00e3o nove, se s\u00e3o 20. Mesmo l\u00e1 fora tem essas incertezas. Tem gente que comemorou o 11 de agosto l\u00e1 fora [como data de origem do <em>hip hop<\/em>], tem gente que vai comemorar o 12 de novembro [data de funda\u00e7\u00e3o da Zulu Nation, por Afrika Bambaataa] e tem gente que s\u00f3 vai comemorar em 2024 [como data da reuni\u00e3o dos quatro elementos no Brasil]. Por qu\u00ea? Por causa dessas diverg\u00eancias, por causa do conhecimento de cada um, da viv\u00eancia que cada um tem e carrega. Essa produ\u00e7\u00e3o, para mim, \u00e9 muito ampla. Eu olho o mundo. E aquilo que me agrada ou que me inquieta, eu quero compartilhar. \u00c9 sobre isso.<\/p>\n<h2>Assista na <strong>TV Brasil<\/strong> ao <em>Caminhos da Reportagem<\/em> sobre o <em>hip hop<\/em>:<\/h2>\n<p>{youtube}xeSBpMy5oII{\/youtube}<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"alt-font font-italic my-2 small text-info\">Edi\u00e7\u00e3o: Juliana Andrade<\/p>\n<p>,P.fonte: <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-11\/rapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop\">https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-11\/rapper-sharylaine-luta-para-abrir-caminho-para-mulheres-no-hip-hop<\/a><\/p>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_658\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"658\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) 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