{"id":755,"date":"2025-02-15T15:02:17","date_gmt":"2025-02-15T18:02:17","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/2025\/02\/15\/rostos-esculpidos-pelo-exilio-em-madjoni-djoni\/"},"modified":"2025-02-15T15:02:17","modified_gmt":"2025-02-15T18:02:17","slug":"rostos-esculpidos-pelo-exilio-em-madjoni-djoni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=755","title":{"rendered":"Rostos esculpidos pelo ex\u00edlio em \u201cMadjoni-Djoni\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Inaugurada a 11 de Fevereiro, a exposi\u00e7\u00e3o \u201cMadjoni-Djoni\u201d, de Nuno Silas, estar\u00e1 patente nas galerias do Centro Cultural Mo\u00e7ambique-Alem\u00e3o e Centro Cultural Franco-Mo\u00e7ambicano, at\u00e9 29 de Mar\u00e7o.<\/p>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-8039942 elementor-widget elementor-widget-theme-post-featured-image elementor-widget-image\" data-id=\"8039942\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-featured-image.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"elementor-image\">\n<figure class=\"wp-caption\"><\/figure>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Fernanda-da-Lena-Hermano.jpg\" width=\"300\" height=\"300\" loading=\"lazy\" data-path=\"local-images:\/Mocambique\/Fernanda-da-Lena-Hermano.jpg\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-4391099 elementor-widget elementor-widget-post-info\" data-id=\"4391099\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"post-info.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<ul class=\"elementor-inline-items elementor-icon-list-items elementor-post-info\">\n<li class=\"elementor-icon-list-item elementor-repeater-item-29a86dd elementor-inline-item\"><a href=\"https:\/\/opais.co.mz\/author\/fernanda-da-lena-hermano\/\"><span class=\"elementor-icon-list-text elementor-post-info__item elementor-post-info__item--type-author\">Fernanda da Lena Hermano<\/span><\/a><\/li>\n<li class=\"elementor-icon-list-item elementor-repeater-item-7014203 elementor-inline-item\"><span class=\"elementor-icon-list-text elementor-post-info__item elementor-post-info__item--type-date\">13\/02\/2025<\/span><\/li>\n<li class=\"elementor-icon-list-item elementor-repeater-item-e65e4d7 elementor-inline-item\"><span class=\"elementor-icon-list-text elementor-post-info__item elementor-post-info__item--type-time\">O Pa\u00eds &#8211; Mo\u00e7ambique<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span class=\"elementor-icon-list-text elementor-post-info__item elementor-post-info__item--type-time\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Madjoni-Djoni.jpeg\" width=\"205\" height=\"246\" loading=\"lazy\" data-path=\"local-images:\/Mocambique\/Madjoni-Djoni.jpeg\"><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-09e5f61 elementor-widget elementor-widget-theme-post-content\" data-id=\"09e5f61\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-content.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\"><strong>Eu sou carv\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\"><strong>Tenho que arder.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\"><strong>Queimar tudo com o fogo da minha combust\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 Craveirinha, Grito Negro<\/p>\n<p dir=\"ltr\">H\u00e1 imagens que n\u00e3o precisam de palavras para contar hist\u00f3rias. Elas falam por meio as sombras que as comp\u00f5em, dos tra\u00e7os interrompidos, das aus\u00eancias que gritam mais alto do que as presen\u00e7as.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na escurid\u00e3o das minas sul-africanas, onde o suor se mescla ao p\u00f3 como se a pele se dissolvesse na terra, a exposi\u00e7\u00e3o Madjoni-Djoni, de Nuno Silas, resgata rostos apagados pelo tempo e corpos esculpidos pela dureza da migra\u00e7\u00e3o. Como um arquivo espectral, a mostra revela as cicatrizes deixadas nos trabalhadores mo\u00e7ambicanos e em suas fam\u00edlias, tra\u00e7ando um percurso que vai do apartheid ao p\u00f3s-independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Cada quadro \u00e9 uma explos\u00e3o de tens\u00e3o e movimento. Neles, figuras humanas emergem do caos da tinta preta, como sombras arrastadas pelo destino. Os corpos parecem em fuga, mas o espa\u00e7o em que se movem n\u00e3o sugere sa\u00edda \u2014 \u00e9 um v\u00e9u de incerteza, gestos interrompidos, borr\u00f5es de um tempo que insiste em se repetir.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">As pinceladas brutas e fren\u00e9ticas evocam uma viol\u00eancia latente: a de ser arrancado da pr\u00f3pria terra, explorado at\u00e9 o limite e depois descartado como carv\u00e3o consumido. A aus\u00eancia de rostos reconhec\u00edveis n\u00e3o desumaniza os sujeitos; pelo contr\u00e1rio, os transforma em s\u00edmbolos da colectividade migrante, cujas hist\u00f3rias individuais foram soterradas sob o peso da economia extrativista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"attachment-large size-large wp-image-136425\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"https:\/\/opais.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Pintura-1024x461.jpg\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"  alt=\"\" width=\"800\" height=\"360\"><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Uma das obras \u00e9 acompanhada de um v\u00eddeo de 6 minutos e 59 segundos, que introduz um tom de introspec\u00e7\u00e3o. O menino retratado, marcado por tons de azul, carrega na postura e no olhar uma interroga\u00e7\u00e3o silenciosa. O azul, aqui, pode ser lido como frio, dist\u00e2ncia, melancolia \u2014 ou, paradoxalmente, um vislumbre de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A inscri\u00e7\u00e3o Children\u2019s Center na sua camisa adiciona um estrato de ambiguidade: seria um ref\u00fagio ou um espa\u00e7o onde se arquivam futuros interrompidos? Algumas obras ressoam como um grito engolido pelo tempo, dando voz aos que foram transformados em mat\u00e9ria-prima da engrenagem colonial e p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A exposi\u00e7\u00e3o, em sua proposta experimental, faz um jogo entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel. As fotografias resgatam mem\u00f3rias visuais que poderiam ter sido esquecidas; os v\u00eddeos acrescentam camadas de testemunho e oralidade; as instala\u00e7\u00f5es de grande escala projectam essas hist\u00f3rias para um espa\u00e7o onde j\u00e1 n\u00e3o podem ser ignoradas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No entanto, h\u00e1 momentos em que a pr\u00f3pria est\u00e9tica pode se tornar um desafio para o espectador. A aus\u00eancia de legendas ou contextualiza\u00e7\u00f5es mais directas exige que o p\u00fablico reconstrua as narrativas a partir de impress\u00f5es sensoriais e hist\u00f3ricas dispersas, o que pode ser tanto uma experi\u00eancia enriquecedora quanto um emaranhado de leituras inconclusivas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A exposi\u00e7\u00e3o desenha, com tra\u00e7os \u00e1speros e contrastes ferozes, a travessia de corpos mo\u00e7ambicanos que, empurrados pela viol\u00eancia da hist\u00f3ria, cruzam fronteiras em busca de sobreviv\u00eancia. O vest\u00edgio do apartheid ressoa nessas imagens, n\u00e3o apenas como um passado sombrio, mas como um presente que persiste na segrega\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e na explora\u00e7\u00e3o dos migrantes nas minas sul-africanas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A migra\u00e7\u00e3o, longe de ser um acto volunt\u00e1rio, surge como uma imposi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria terra que, devastada por pol\u00edticas excludentes e por uma economia que nunca se descolonizou por completo, empurra seus filhos para longe.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Como em \u201cTerra Son\u00e2mbula\u201d, \u201ca guerra crescia e tirava dali maior parte dos habitantes\u201d \u2014 mas se n\u00e3o \u00e9 mais a guerra que os expulsa, \u00e9 o desemprego, a pobreza e a mem\u00f3ria de um sistema que, mesmo desmontado, ainda aprisiona.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A mina, met\u00e1fora de um ciclo vicioso, transforma-se em outro campo de batalha, onde a luta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 contra soldados, mas contra um destino que insiste em reduzir vidas a carv\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Se, por um lado, Madjoni-Djoni \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia e da identidade mo\u00e7ambicana na di\u00e1spora, por outro, nos lembra que a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um territ\u00f3rio de perdas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">H\u00e1 aus\u00eancias gritantes, lacunas que nem a arte consegue preencher. Mas talvez essa seja a grande for\u00e7a da exposi\u00e7\u00e3o: transformar o sil\u00eancio dos retratados em eco, a sombra em mat\u00e9ria, e a hist\u00f3ria enterrada em fogo vivo, pronto para arder at\u00e9 que toda a maldi\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o seja reduzida a carv\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Inaugurada a 11 de Fevereiro, a exposi\u00e7\u00e3o \u201cMadjoni-Djoni\u201d, de Nuno Silas, estar\u00e1 patente nas galerias do Centro Cultural Mo\u00e7ambique-Alem\u00e3o e Centro Cultural Franco-Mo\u00e7ambicano, at\u00e9 29 de Mar\u00e7o.<\/p>\n<\/div>\n<p dir=\"ltr\">fonte: <a href=\"https:\/\/opais.co.mz\/rostos-esculpidos-pelo-exilio-em-madjoni-djoni\/\">https:\/\/opais.co.mz\/rostos-esculpidos-pelo-exilio-em-madjoni-djoni\/<\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_755\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"755\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 70 -86 122 -155 94z\"\/><path d=\"M1751 3234 c-13 -9 -29 -31 -37 -50 -12 -29 -10 -49 21 -204 19 -94 39 -189 45 -210 14 -50 54 -80 110 -80 34 0 48 6 76 34 21 21 34 44 34 59 0 14 -18 113 -40 219 -37 178 -43 195 -70 221 -36 32 -101 37 -139 11z\"\/><path d=\"M1163 3073 c-36 -7 -73 -59 -73 -102 0 -56 133 -378 171 -413 34 -32 83 -37 129 -13 70 36 67 87 -16 290 -86 209 -89 214 -129 231 -35 14 -42 15 -82 7z\"\/><path d=\"M3689 3066 c-15 -9 -33 -30 -42 -48 -48 -103 -147 -355 -147 -375 0 -98 131 -148 192 -74 13 15 57 108 97 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