{"id":826,"date":"2025-09-29T10:34:35","date_gmt":"2025-09-29T13:34:35","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/2025\/09\/29\/antonio-e-camila-pitanga-falam-sobre-a-emocao-e-a-luta-de-30-anos-para-levar-males-ao-cinema\/"},"modified":"2025-09-29T10:34:35","modified_gmt":"2025-09-29T13:34:35","slug":"antonio-e-camila-pitanga-falam-sobre-a-emocao-e-a-luta-de-30-anos-para-levar-males-ao-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=826","title":{"rendered":"Antonio e Camila Pitanga falam sobre a emo\u00e7\u00e3o e a luta de 30 anos para levar \u2018Mal\u00eas\u2019 ao cinema"},"content":{"rendered":"<p>Longa-metragem, que estreia em 2 de outubro, reconstitui a \u00e9pica Revolta dos Mal\u00eas de 1835, na Bahia<\/p>\n<div class=\"jit-single-post-audio-player\">\n<div class=\"plyr plyr--full-ui plyr--audio plyr--html5 plyr--paused plyr--stopped\">\n<div class=\"plyr__controls\"><button class=\"plyr__controls__item plyr__control\" type=\"button\" data-plyr=\"play\" aria-pressed=\"false\" aria-label=\"Play\"><span class=\"label--not-pressed plyr__sr-only\">Play<\/span><\/button><\/p>\n<div class=\"plyr__controls__item plyr__progress__container\">\n<div class=\"plyr__progress\"><input id=\"plyr-seek-620\" role=\"slider\" autocomplete=\"off\" max=\"100\" min=\"0\" step=\"0.01\" type=\"range\" value=\"0\" data-plyr=\"seek\" aria-label=\"Seek\" aria-valuemin=\"0\" aria-valuemax=\"1784.141333\" aria-valuenow=\"0\" aria-valuetext=\"00:00 of 00:00\"><progress class=\"plyr__progress__buffer\" role=\"progressbar\" value=\"2.578999720982306\" max=\"100\" aria-hidden=\"true\"><\/progress><span class=\"plyr__tooltip\">00:00<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p><a class=\"plyr__controls__item plyr__control\" href=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/BV_PGM_223-RADIO.mp3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" download=\"\" data-plyr=\"download\" aria-pressed=\"false\"><span class=\"plyr__sr-only\">Download<\/span><\/a><\/p>\n<div class=\"plyr__controls__item plyr__time--current plyr__time\" role=\"timer\" aria-label=\"Current time\">29:44<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div class=\"jeg_share_top_container\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"jit-meta-authors-widget\">\n<div class=\"entry-header-meta\">\n<div class=\"jeg_post_meta jeg_line_25\">\n<div class=\"jeg_meta_date\">BRASIL DE FATO &#8211; 27.set.2025 \u00e0s 12h55<\/div>\n<div class=\"jeg_meta_place\">\u00a0S\u00e3o Paulo (SP)<\/div>\n<div class=\"jeg_line_10\">\n<div class=\"jeg_meta_author\">\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/autores\/lucas-salum\/\">Lucas Salum<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/autores\/marina-duarte-de-souza\/\">Marina Duarte de Souza<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Quase 200 anos se passaram desde que um grupo de escravizados e libertos mu\u00e7ulmanos \u2013 os Mal\u00eas \u2013 armou um levante na Salvador (BA) de 1835 que abalou as estruturas do Brasil Imp\u00e9rio. Agora, essa hist\u00f3ria de coragem e luta pela liberdade ganha as telas do cinema no dia 2 de outubro com o filme<em>\u00a0Mal\u00eas<\/em>, dirigido por Antonio Pitanga, de 86 anos, e com Camila Pitanga no papel da protagonista Sabina.<\/p>\n<p>Em entrevista ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/editoria\/bem-viver\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Bem Viver<\/em><\/a>, programa do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, a dupla falou sobre a emo\u00e7\u00e3o de ver o projeto finalmente se concretizar ap\u00f3s uma luta de quase 30 anos. \u201cCada vez que vejo o filme, me surpreendo. J\u00e1 fiz uma centena de filmes, mas este \u00e9 um dos momentos mais bonitos da minha contribui\u00e7\u00e3o. Valeu a pena ter trilhado esse caminho\u201d, disse o veterano diretor, que define o longa como uma \u201ccontribui\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o\u201d \u00e0 cultura.<\/p>\n<p>Para Camila Pitanga, o projeto \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria ouvida na inf\u00e2ncia, por meio da tradi\u00e7\u00e3o oral familiar. \u201c\u00c9 conversa de casa. Meu pai me trouxe essa hist\u00f3ria j\u00e1 com um desejo de que ela n\u00e3o ficasse s\u00f3 entre a gente, de que germinasse algo que pudesse movimentar outras pessoas,\u201d relatou a atriz.<\/p>\n<p>Ela enfatiza a dimens\u00e3o pol\u00edtica do filme, que resgata um epis\u00f3dio de luta e autonomia contra a narrativa da passividade dos escravizados. \u201cO filme evoca que n\u00f3s somos sujeitos da nossa hist\u00f3ria. Podemos mudar as placas tect\u00f4nicas da nossa hist\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 do passado, mas na constru\u00e7\u00e3o do futuro,\u201d afirmou Camila.<\/p>\n<p>{youtube}https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0yA-_IDTfg0{\/youtube}<\/p>\n<p>O elenco tamb\u00e9m inclui o filho e irm\u00e3o Rocco Pitanga e nomes como Valdineia Soriano e Jhonas Ara\u00fajo. As filmagens, que aconteceram na<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/08\/20\/bahia-celebra-projeto-de-sinalizacao-dos-lugares-de-memoria-dos-africanos-escravizados\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0Bahia<\/a>, foram marcadas por cenas grandiosas e pela lideran\u00e7a inspiradora de Antonio Pitanga. Camila relembrou um momento emblem\u00e1tico: \u201cMeu pai, trajado de Pac\u00edfico Licut\u00e3, p\u00e9s descal\u00e7os, sujo de barro, com o roteiro na m\u00e3o, liderando mais de 200 figurantes \u00e0s 2h da manh\u00e3. Ele, com 82 anos na \u00e9poca, inteiro, apaixonado e apaixonante.\u201d<\/p>\n<p>Questionados sobre um Brasil hipot\u00e9tico onde a Revolta dos Mal\u00eas tivesse triunfado \u2013 uma ideia que o historiador Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis assemelha ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/09\/25\/sociedade-civil-haitiana-rejeita-ideia-de-nova-intervencao-militar-defendida-por-presidente-interino-na-onu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Haiti<\/a>\u00a0\u2013, Antonio Pitanga lembrou que as elites da \u00e9poca suprimiram a not\u00edcia do levante por anos com medo de que ele se espalhasse. Camila refletiu sobre o apagamento hist\u00f3rico: \u201cA emerg\u00eancia de um filme como \u2018Mal\u00eas\u2019 \u00e9 justamente para ser esse provocador, esse despertar de que nem tudo que voc\u00ea vive precisa ser como est\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>Confira a entrevista na \u00edntegra.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Estamos emocionados com esse filme, n\u00e3o s\u00f3 por tudo que ele traz, mas porque acompanhamos a trajet\u00f3ria de voc\u00eas e sabemos que s\u00e3o basicamente 30 anos de luta, mobiliza\u00e7\u00e3o, batendo na porta das pessoas para conseguir financiamento e apoio para que esse filme acontecesse. Quer\u00edamos ouvir voc\u00ea primeiro, Ant\u00f4nio: qual \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o de ver esse filme finalmente chegando \u00e0s telas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Antonio Pitanga:\u00a0<\/strong>Todas! Cada vez que vejo o filme, me surpreendo. J\u00e1 fiz uma centena de filmes, entre longas e curtas-metragens. Mas fui educado, fui forjado dentro dessa cultura do teatro, do cinema.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, est\u00e1 muito pr\u00f3ximo do que a gente gosta, do que a gente pode usar como ferramenta para chegar e interagir com o povo, com o espectador. Para mim, \u00e9 um dos momentos mais bonitos da minha contribui\u00e7\u00e3o. Dizer: \u201cValeu, tem valido a pena, Pitanga, voc\u00ea ter trilhado este caminho da profiss\u00e3o de ator, de diretor\u201d.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o. O que a cultura me deu, como cidad\u00e3o, foi atrav\u00e9s da cultura que adquiri meu passaporte de cidad\u00e3o. \u2018Agora voc\u00ea \u00e9 Ant\u00f4nio Pitanga, Lu\u00eds Sampaio.\u2019 Isso j\u00e1 na d\u00e9cada de 50, fazendo\u00a0<em>Bahia de Todos os Santos<\/em>\u00a0em 1959, depois\u00a0<em>Barravento<\/em>\u00a0de Glauber Rocha, depois\u00a0<em>O Pagador de Promessas<\/em>, que ganhou a Palma de Ouro.<\/p>\n<p>Depois veio Cac\u00e1 Diegues,\u00a0<em>Ganga Zumba, A Grande Cidade<\/em>. E ent\u00e3o uma centena de filmes.\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>\u00a0\u00e9 o entendimento; ele representa todas essas cabe\u00e7as da minha gera\u00e7\u00e3o, cheias de [refer\u00eancias], Leon Hirszman, Joaquim Pedro, Glauber, Roberto Pires. \u00c9 um movimento que se apoia em mim.<\/p>\n<p>Porque o grupo, nossos grupos de jovens, Walter Lima Jr. e outros, tinham esse pensamento: \u201cQue Brasil \u00e9 que a gente quer? Que Brasil \u00e9 que a gente pensa?\u201d Ent\u00e3o, vejo que essa leitura de\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>\u00a0chega ao banco dos saberes em boa hora.<\/p>\n<p><strong>Como foi a primeira vez que voc\u00ea ficou sabendo da Revolta dos Mal\u00eas? Foi por conta do seu pai?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:<\/strong>\u00a0Foi. \u00c9 conversa de casa. Acho que n\u00f3s, na nossa comunidade negra, temos a tradi\u00e7\u00e3o oral. Essa coisa de voc\u00ea saber das hist\u00f3rias da fam\u00edlia, as hist\u00f3rias da nossa ancestralidade.<\/p>\n<p>Meu pai me trouxe essa hist\u00f3ria j\u00e1 com um desejo de que ela n\u00e3o ficasse s\u00f3 entre a gente, de que germinasse algo que pudesse movimentar outras pessoas. S\u00e3o quase 30 anos desse projeto caminhando, e eu embarquei nessa \u00e2ncora do que era um projeto, do que era um sonho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o desse filme tem uma dimens\u00e3o pol\u00edtica muito forte, que \u00e9 a de poder recontar um momento emblem\u00e1tico e dram\u00e1tico do Brasil. Um momento em que parecia que tudo estava dado como estabelecido \u2013 negros escravizados, como se essa fosse a condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sine qua non<\/em>. E, ao longo da minha forma\u00e7\u00e3o como estudante, a maneira como a hist\u00f3ria era ensinada na minha escola era essa.<\/p>\n<p>Era como se n\u00f3s, negros, de alguma maneira, n\u00e3o tiv\u00e9ssemos nenhum tipo de questionamento, como se isso fosse apenas uma condi\u00e7\u00e3o dada, estabelecida. E nunca foi. Nunca foi. Houve in\u00fameros levantes. O Levante dos Mal\u00eas de 1835 \u00e9 um deles, um dos in\u00fameros que aconteceram. \u00c9 o mais importante, tem uma magnitude muito grande, evoca para que o jovem de hoje \u2013 n\u00e3o s\u00f3 o jovem, mas qualquer cidad\u00e3o \u2013 , pense: \u201cEu sou o sujeito da minha hist\u00f3ria. Eu posso fazer a diferen\u00e7a. O que est\u00e1 estabelecido para mim n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9. \u00c9 o que \u00e9 no presente, mas eu posso mudar.\u201d<\/p>\n<p>N\u00f3s podemos mudar as placas tect\u00f4nicas da nossa hist\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 na dimens\u00e3o hist\u00f3rica do passado, mas na dimens\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do futuro. Termos lideran\u00e7as negras que fizeram uma coaliz\u00e3o, uma alian\u00e7a na luta pela sua identidade, pela sua autonomia, \u00e9 algo necess\u00e1rio hoje.<\/p>\n<p>N\u00f3s, negros, que somos t\u00e3o diversos, que temos pontos de vista e credos totalmente diferentes, muitas vezes at\u00e9 antag\u00f4nicos, precisamos da nossa uni\u00e3o. Inclusive com a branquitude. Acho importante essa revis\u00e3o do Brasil pelo Brasil, pelo melhor do Brasil.<\/p>\n<p>E o melhor do Brasil \u00e9 a gente podendo virar a p\u00e1gina do racismo, \u00e9 a gente podendo fazer essa repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a favor das mulheres. Enfim, acho que o filme para mim evoca tudo isso.<\/p>\n<p><strong>Quero saber se posso pegar um bastidor dessa produ\u00e7\u00e3o. Ficamos muito curiosos para saber como \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia, quase em casa. Como \u00e9 o set? Quando vai cham\u00e1-lo, \u00e9 \u201csenhor diretor\u201d ou \u00e9 mais \u201cpai\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:\u00a0<\/strong>Eu chamava sempre de pai, mas sabendo que era o diretor. Sou de uma gera\u00e7\u00e3o que, talvez por ser filha de quem sou, entende que o ator, o diretor, o fot\u00f3grafo, a figurinista s\u00e3o criadores, s\u00e3o cocriadores. Cada um tem uma responsabilidade, uma fun\u00e7\u00e3o no set, no trabalho, mas todos devem respeito um ao outro.<\/p>\n<p>Uma filha pelo seu pai, o pai pela sua filha, a atriz pelo diretor e todos esses criadores, cocriadores, uns pelos outros. Ent\u00e3o, foi um clima de muita cumplicidade, uma equipe apaixonada. Uma imagem que acho bem forte \u00e9 a do meu pai, trajado de Pac\u00edfico Licut\u00e3, p\u00e9s descal\u00e7os, sujo de barro, com o roteiro na m\u00e3o j\u00e1 todo manchado, liderando, numa madrugada \u2013 estamos falando de 2 horas da manh\u00e3 \u2013, mais de 200 figurantes. Porque \u00e9 uma superprodu\u00e7\u00e3o, uma produ\u00e7\u00e3o caprichada, bem cuidada. Para al\u00e9m da dimens\u00e3o hist\u00f3rica, \u00e9 um filma\u00e7o: \u00e9 um filme para encantar, envolver, emocionar. E tem esse diretor que, na \u00e9poca \u2013 agora ele tem 86, mas na \u00e9poca tinha 81, 82 anos \u2013, estava l\u00e1, inteiro, apaixonado e apaixonante.<\/p>\n<p>E a equipe inteira apaixonada por ele, o grande maestro daquele dia de filmagem.<\/p>\n<p><strong>No come\u00e7o do ano, quando se completaram 190 anos da Revolta dos Mal\u00eas, tivemos a oportunidade de conversar com o Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, que \u00e9 o fiador do filme e um mestre da historiografia. Fizemos uma provoca\u00e7\u00e3o a ele e quer\u00edamos trazer um pouco da resposta para ver como voc\u00eas reagem. Perguntamos o que o Brasil teria sido se a Revolta dos Mal\u00eas tivesse triunfado, e ele falou que o Haiti poderia ter sido aqui. O que voc\u00eas acham?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Antonio Pitanga:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea sabe quantos anos depois [do levante] o Brasil teve conhecimento dos mal\u00eas? Porque o Brasil, de tamanho continental e dominado por senhores donos de cana-de-a\u00e7\u00facar, os coron\u00e9is na Bahia\u2026<\/p>\n<p>A Bahia foi o maior porto de escravos, e outros estados tamb\u00e9m tiveram, Pernambuco, Minas Gerais, Maranh\u00e3o, tudo isso. Ent\u00e3o, esses coron\u00e9is, esses senhores que comandavam, seguraram a not\u00edcia do levante durante quase cinco anos.<\/p>\n<p>Porque eles achavam que, se o Brasil \u2013 que n\u00e3o tinha a velocidade que a tecnologia nos d\u00e1 hoje \u2013 tivesse conhecimento do tamanho do levante, poderia virar um Haiti. Ent\u00e3o, levou cinco anos para que o Brasil inteiro tivesse not\u00edcia de que houve uma rebeli\u00e3o escrava.<\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:<\/strong>\u00a0E mesmo assim, com o passar do tempo, a hist\u00f3ria oficial n\u00e3o conta. Esse apagamento acaba sendo estrat\u00e9gico. A emerg\u00eancia de um filme como\u00a0<em>Mal\u00eas\u00a0<\/em>\u00e9 justamente para ser esse provocador, esse despertar de que nem tudo que voc\u00ea vive precisa ser como est\u00e1. Que n\u00f3s somos sujeitos do nosso tempo. Cabe a n\u00f3s, e \u00e9 importante olhar para tr\u00e1s e pensar quantas lutas existiram, quantas insurg\u00eancias. Parecia que estava tudo apaziguado, mas n\u00e3o estava. Houve in\u00fameros levantes.<\/p>\n<p><strong>Antonio Pitanga:<\/strong>\u00a0A rela\u00e7\u00e3o que a gente tem com o Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis\u2026 Eu, ele e a Manuela Dias, na casa da Camila, fizemos um workshop. Trouxemos o Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis para o Rio, para a casa da Camila, levamos todo o elenco prov\u00e1vel \u2013 porque muitos ficaram pelo caminho, tanto tempo que levou para fazer o filme, depois veio a pandemia. Mas era esse estudo, essa humaniza\u00e7\u00e3o e esse olhar sobre a t\u00e9cnica. O livro A Rebeli\u00e3o Escrava do Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis fez n\u00f3s, Manuela e eu, mergulharmos num projeto que pudesse humanizar, que n\u00e3o fosse s\u00f3 uma quest\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Qual o tempo, qual a ferramenta, qual o pre\u00e7o, qual o tempo de vida do escravo, qual o tipo de garrote, de tortura. Tudo isso est\u00e1 l\u00e1. Ent\u00e3o, como \u00e9 que a gente traz isso e faz uma narrativa, d\u00e1 uma ficcionalizada na narrativa para virar um filme? Essa leitura voc\u00ea vai encontrar em\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>, v\u00e1rias leituras que voc\u00ea, na sua forma\u00e7\u00e3o estudantil, n\u00e3o encontra na universidade. A hist\u00f3ria que est\u00e1 ali\u2026 Voc\u00ea pega uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/01\/23\/valorizacao-da-figura-de-luiza-mahin-e-resposta-ao-apagamento-da-luta-negra-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiza Mahin<\/a>, n\u00e3o est\u00e1 na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Iy\u00e1 Nass\u00f4, que \u00e9 a primeira negra que inaugura a primeira Casa de Candombl\u00e9 no Brasil, a Casa Branca, est\u00e1 l\u00e1 na hist\u00f3ria. E a gente faz a uni\u00e3o entre a lideran\u00e7a do Isl\u00e3, que \u00e9 o Arruna, e a lideran\u00e7a do Candombl\u00e9, porque n\u00f3s somos feitos de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es. S\u00e3o v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, v\u00e1rios pa\u00edses de onde vieram os sequestrados. Acho que \u00e9 um momento que, cada vez que vejo o filme, a gente pensa: \u2018Maravilha! Que bom que a gente acertou. Que bom que a gente \u00e9 s\u00f3 um detalhezinho.\u2019<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea a casa de Xang\u00f4 quando a Sabina dan\u00e7a, mas a Sabina orientada pela maior l\u00edder do Candombl\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:<\/strong>\u00a0Sabina, que \u00e9 uma personagem hist\u00f3rica que eu interpreto, uma personagem que tem documentos hist\u00f3ricos. \u00c9 um di\u00e1logo com esses ind\u00edcios, com as pistas desse passado, fundamentado numa pesquisa muito criteriosa do Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis. No caso da Sabina, \u00e9 importante agradecer a Luciana Brito, que est\u00e1 escrevendo a biografia da Sabina e me ajudou a entender, do ponto de vista dela, por que ela trai o movimento. Por que ela n\u00e3o compra essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Porque ela \u00e9 uma mulher\u2026 O Levante dos Mal\u00eas \u00e9 o mais emblem\u00e1tico, um dos maiores, mas j\u00e1 tinham acontecido muitos levantes antes, e nesses levantes pessoas foram mortas, presas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma mulher que consegue alguma autonomia de vida \u2013 porque \u00e9 uma escrava alforriada, uma mulher forra, que j\u00e1 \u00e9 quituteira, j\u00e1 tem seu trabalho, sua casa, sua fam\u00edlia \u2013, ela n\u00e3o quer botar tudo a perder. Mas a beleza \u00e9 que o marido dela, o Vit\u00f3rio, tem um outro olhar.<\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o, esse tensionamento de pontos de vista distintos, que tamb\u00e9m aparece, no caso, entre Mam\u00e3e Iy\u00e1 Nass\u00f4 e o Arruna, que \u00e9 um her\u00f3i mal\u00ea, que pede ajuda, que faz uma alian\u00e7a com a Mam\u00e3e Iy\u00e1 Nass\u00f4, uma lideran\u00e7a do Candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, seja na diferen\u00e7a, seja na alian\u00e7a, essa diversidade, essa riqueza dessa hist\u00f3ria, acho que pode ser emblem\u00e1tica para a gente repensar o nosso tempo de hoje.<\/p>\n<p><strong>Esse momento do cinema nacional, que come\u00e7amos falando, \u00e9 \u00edmpar. Cannes, Oscar, Berlim\u2026 por onde o Brasil foi, gabaritou. Quer\u00edamos ouvir um pouco da percep\u00e7\u00e3o de voc\u00eas: se esse auge \u2013 podemos falar de auge \u2013, esse grande momento, vem sendo acompanhado tamb\u00e9m de mais pluralidade, diversidade no que diz respeito a cor, g\u00eanero, sotaques. Voc\u00eas acham que o Brasil est\u00e1 conseguindo aproveitar esse grande momento para diversificar e mostrar que as produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o feitas s\u00f3 no Rio e em S\u00e3o Paulo, e por diferentes protagonistas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:<\/strong>\u00a0Acho que, ap\u00f3s o apag\u00e3o que a gente teve, quando tivemos como presidente o inimigo da cultura, a retomada e a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura s\u00e3o de uma import\u00e2ncia enorme. E como essa cultura sobreviveu? Ela n\u00e3o perdeu o brilho, a for\u00e7a, a pot\u00eancia, porque somos um pa\u00eds continental, cheio de hist\u00f3rias, com uma diversidade imensa. Acho que ainda podemos caminhar melhor para que essa diversidade se torne\u2026 para descentralizarmos o eixo Rio-S\u00e3o Paulo, para termos mulheres negras diretoras, roteiristas, chefes de produ\u00e7\u00e3o. Porque isso tamb\u00e9m \u00e9 importante: ter n\u00e3o s\u00f3 no car\u00e1ter criativo, mas no fomento da cultura.<\/p>\n<p>Ter a Margareth Menezes como ministra da Cultura \u00e9 muito importante, n\u00e3o tenho d\u00favida. Mas \u00e9 tamb\u00e9m uma ferramenta. Acho que se faz necess\u00e1ria a regulamenta\u00e7\u00e3o do audiovisual brasileiro.<\/p>\n<p>Se estamos agora lembrando com for\u00e7a da nossa soberania, faz parte da nossa soberania termos respeito e fomento \u00e0 cultura, a materiais com talento brasileiro, com dinheiro que gere aqui, para n\u00e3o sermos s\u00f3 um lugar de loca\u00e7\u00e3o para produ\u00e7\u00f5es internacionais. J\u00e1 provamos, com\u00a0<em>O Agente Secreto, Ainda Estou Aqui<\/em>, que a nossa cinematografia, que os nossos talentos brasileiros, t\u00eam uma for\u00e7a absurda no mundo. Mas para que a gente possa ter dez \u201cagentes secretos\u201d, para que a gente tenha mais produ\u00e7\u00f5es com essa visibilidade, como\u00a0<em>Ainda Estou Aqui<\/em>, a gente precisa ter uma estabilidade de mercado, uma pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p>Esse movimento que fez na rua, a gente precisa fazer pelo audiovisual, porque a nossa cultura tem que acontecer l\u00e1 fora, mas ela precisa nascer da gente, da nossa l\u00edngua portuguesa, das nossas hist\u00f3rias. Por isso, a regulamenta\u00e7\u00e3o do streaming, a regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado audiovisual como um todo \u00e9 de suma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Antonio Pitanga:\u00a0<\/strong>Acho que a gente est\u00e1 vivendo um momento\u2026 J\u00e1 tive esse momento vivido, em v\u00e1rias partes. Em plena ditadura, quando pensaram que iam sufocar a cultura, foi quando emergiram as coisas mais geniais, na literatura, na poesia, na m\u00fasica, no cinema.<\/p>\n<p>Houve uma descentraliza\u00e7\u00e3o, e os estados desse pa\u00eds, t\u00e3o ricos culturalmente, se manifestaram, apareceram.<\/p>\n<p>E agora, novamente, parece que a gente estava entrando numa vala, mas surge novamente essa cultura, esse olhar, essa garra. \u00c9 o parto, o nascimento novamente daquilo que achavam que j\u00e1 estava indo embora.<\/p>\n<p>Como dizia Nelson Sargento: \u201cA cultura agoniza, mas n\u00e3o morre\u201d. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea v\u00ea hoje,\u00a0<em>Manas, Ainda Estou Aqui, Azul\u2026 Mal\u00eas\u00a0<\/em>vem nesse bojo, nesse movimento, com a mesma alegria, a mesma qualidade, a mesma vis\u00e3o, a mesma paix\u00e3o que t\u00eam esses outros filmes a\u00ed.<\/p>\n<p>E de uma maneira at\u00e9 maravilhosa: tive a oportunidade de mandar uma mensagem para o Lula, via Benedita da Silva e a Janja. Disse: \u201cOlha, diga a eles: j\u00e1 viram\u00a0<em>O Agente Secreto<\/em>? J\u00e1 viram\u00a0<em>Ainda Estou Aqui<\/em>? Agora precisam ver\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>.\u201d No instante, eles mandaram ligar: \u201cN\u00e3o, tragam\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Fomos para Salvador e fizemos uma sess\u00e3o para eles, que assistiram com maior carinho. Eles pediram: \u201cTragam\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>, que eu quero ver\u00a0<em>Mal\u00eas<\/em>.\u201d<\/p>\n<p><strong>Camila Pitanga:<\/strong>\u00a0\u00c9 o presidente que ama a cultura.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">E tem mais\u2026<\/h4>\n<p>E no m\u00eas que se celebra o Cerrado, o programa traz a luta contra o desmatamento ganha um novo aliado: a cria\u00e7\u00e3o do Instituto Nacional do Bioma.<\/p>\n<p>Tem tamb\u00e9m a receita deliciosa de Arroz Caldoso com Sardinha da chef Gema Sotto.<\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o da m\u00fasica latino-americana no festival Canto de Todos, em Havana, Cuba.<\/p>\n<p>E a dica do document\u00e1rio \u201cSahel: P\u00e1tria ou Morte\u201d, no YouTube do Brasil de Fato.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Quando e onde assistir?<\/h4>\n<p>No YouTube do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0todo s\u00e1bado \u00e0s 13h30, tem programa in\u00e9dito.\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/AuogVojy_mg?si=y2Nz7c3jekVodW40\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Basta clicar aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Na TVT: s\u00e1bado \u00e0s 13h; com reprise domingo \u00e0s 6h30 e ter\u00e7a-feira \u00e0s 20h no canal 44.1 \u2013 sinal digital HD aberto na Grande S\u00e3o Paulo e canal 512 NET HD-ABC.<\/p>\n<p>Na TV Brasil (EBC), sexta-feira \u00e0s 6h30.<\/p>\n<p>Na TVE Bahia: s\u00e1bado \u00e0s 12h30, com reprise quinta-feira \u00e0s 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.\u00a0<\/p>\n<p>Na TVCom Macei\u00f3: s\u00e1bado \u00e0s 10h30, com reprise domingo \u00e0s 10h, no canal 12 da NET.\u00a0<\/p>\n<p>Na TV Floripa: s\u00e1bado \u00e0s 13h30, reprises ao longo da programa\u00e7\u00e3o, no canal 12 da NET.\u00a0<\/p>\n<p>Na TVU Recife: s\u00e1bados \u00e0s 12h30, com reprise ter\u00e7a-feira \u00e0s 21h, no canal 40 UHF digital.\u00a0<\/p>\n<p>Na UnBTV: sextas-feiras \u00e0s 10h30 e 16h30, em Bras\u00edlia no Canal 15 da NET.\u00a0<\/p>\n<p>TV UFMA Maranh\u00e3o: quinta-feira \u00e0s 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sintonize<\/h4>\n<p>No r\u00e1dio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h \u00e0s 8h, com reprise aos domingos, \u00e0s 10h, na\u00a0<strong>R\u00e1dio Brasil de Fato<\/strong>. A sintonia \u00e9 98,9 FM na Grande S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m de ser transmitido pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/radioagencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">R\u00e1dio Ag\u00eancia Brasil de Fato<\/a>.<\/p>\n<p>O programa conta tamb\u00e9m com uma vers\u00e3o especial em\u00a0<em>podcast<\/em>, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/programas\/bem-viver\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Conversa Bem Viver\u00a0<\/em><\/a>, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.<\/p>\n<p>Assim como os demais conte\u00fados, o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0disponibiliza o programa\u00a0<em>Bem Viver<\/em>\u00a0de forma gratuita para r\u00e1dios comunit\u00e1rias, r\u00e1dios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conte\u00fado. Para ser inclu\u00eddo na nossa lista de distribui\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/radioagencia\/seja-parceiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">entre em contato por meio do formul\u00e1rio.<\/a><\/p>\n<div class=\"jeg_meta_post_footer\">\n<div class=\"jeg_meta_editors\">Editado por: Rafael Targino<\/div>\n<div class=\"jeg_meta_editors\">fonte: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/09\/27\/antonio-e-camila-pitanga-falam-sobre-a-emocao-e-a-luta-de-30-anos-para-levar-males-ao-cinema\/\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/09\/27\/antonio-e-camila-pitanga-falam-sobre-a-emocao-e-a-luta-de-30-anos-para-levar-males-ao-cinema\/<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_826\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"826\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 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