{"id":849,"date":"2025-12-09T08:55:42","date_gmt":"2025-12-09T11:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/2025\/12\/09\/mortalidade-materna-duplicou-na-pandemia\/"},"modified":"2025-12-09T08:55:42","modified_gmt":"2025-12-09T11:55:42","slug":"mortalidade-materna-duplicou-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=849","title":{"rendered":"Mortalidade materna\u00a0duplicou\u00a0na pandemia"},"content":{"rendered":"<p>BRASIL-MO\u00c7AMBIQUE: Aumento deu-se em raz\u00e3o do enfraquecimento de pol\u00edticas sexual e reprodutiva da mulher<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jornal da UNICAMP<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2025\/10\/20250916_2_Centro-Cirugico_Pandemia_Caism_scarpa_AJS_7696.jpg\" sizes=\"(max-width: 990px) 100vw, 990px\" srcset=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2025\/10\/20250916_2_Centro-Cirugico_Pandemia_Caism_scarpa_AJS_7696.jpg 990w, \/&lt;a \/href=\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" \/><br \/><strong>Segundo o estudo, em situa\u00e7\u00f5es de crise sanit\u00e1ria \u00e9 fundamental que gestantes pu\u00e9rperas sejam consideradas grupos priorit\u00e1rios de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Amortalidade materna no Brasil duplicou durante a pandemia de covid-19. A taxa saltou de 57 mortes a cada 100 mil nascidos vivos, em 2019, para 67, em 2020, e para 107 em 2021, retrocedendo aos \u00edndices da d\u00e9cada de 1990. O cen\u00e1rio se desenhava enquanto o m\u00e9dico mo\u00e7ambicano Charles M\u2019poca Charles dava in\u00edcio ao seu doutorado na Unicamp, em 2020. Diante dos dados, imediatamente ele tra\u00e7ou um paralelo com os n\u00fameros de Mo\u00e7ambique, onde, antes da dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus, registravam-se 408 mortes maternas a cada 100 mil nascimentos. Orientado pelo professor Rodolfo de Carvalho Pacagnella, Charles focou sua pesquisa nos impactos causados pela pandemia na sa\u00fade sexual e reprodutiva da mulher, no Brasil e em seu pa\u00eds de origem, e revelou que a mortalidade materna \u00e9 apenas a ponta de um iceberg.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2025\/10\/20250916_2_Charles-Mpoca-Charles_-Rodolfo-de-Carvalho-Pacagnella_Pandemia_Caism_scarpa_AJS_7354.jpg\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" srcset=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2025\/10\/20250916_2_Charles-Mpoca-Charles_-Rodolfo-de-Carvalho-Pacagnella_Pandemia_Caism_scarpa_AJS_7354.jpg 660w, \/&lt;a \/href=\" alt=\"\" wp-content=\"\" 20250916_2_charles-mpoca-charles_-rodolfo-de-carvalho-pacagnella_pandemia_caism_scarpa_ajs_7354-300x218.jpg\"=\"\" \/><br \/><strong>O autor da tese, Charles M\u2019poca Charles, e o orientador da pesquisa, Rodolfo Pacagnella: nascimentos prematuros dispararam durante crise sanit\u00e1ria, especialmente entre ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p>Defendida na Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas (FCM) da Unicamp, a tese ganhou men\u00e7\u00e3o honrosa no Pr\u00eamio Capes de Tese 2025. A conclus\u00e3o do estudo alerta sobre a necessidade de priorizar os cuidados \u00e0s gestantes nas situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, como as pandemias que vir\u00e3o, inevitavelmente, de acordo com previs\u00f5es de cientistas em todo o mundo. O m\u00e9dico mo\u00e7ambicano tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da colabora\u00e7\u00e3o em pesquisa entre os pa\u00edses do Sul Global, como Brasil e Mo\u00e7ambique, \u201cpara que n\u00f3s possamos gerar nossas pr\u00f3prias evid\u00eancias e construir respostas para nossas realidades.\u201d<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Urg\u00eancias e vulnerabilidades<\/strong><br \/>A tese aponta que, em situa\u00e7\u00f5es de crise sanit\u00e1ria, as gestantes e pu\u00e9rperas precisam ser consideradas como grupos priorit\u00e1rios de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade. Conclui, ainda, que a popula\u00e7\u00e3o de gestantes deve ser inclu\u00edda no desenvolvimento de vacinas e que a oferta de planejamento reprodutivo e de assist\u00eancia \u00e0 mulher no per\u00edodo gestacional n\u00e3o pode parar mesmo diante de emerg\u00eancias sanit\u00e1rias. Como preven\u00e7\u00e3o para um pr\u00f3ximo contexto de crise, indica, \u00e9 preciso investir com urg\u00eancia em sistemas de sa\u00fade resilientes a situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica, como novas epidemias, que ofere\u00e7am acesso equitativo e cuidado de qualidade para as mulheres.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para Pacagnella, a pesquisa indica a necessidade de se pensar uma pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. \u201cDiante de uma circunst\u00e2ncia como essa, n\u00f3s temos que olhar para as mulheres como um grupo alvo. N\u00f3s s\u00f3 fomos reconhecer isso no Brasil no meio do segundo ano da pandemia\u201d, afirma o orientador.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como uma verdadeira lente de aumento, a pandemia de covid-19 exp\u00f4s as fragilidades nos servi\u00e7os de sa\u00fade voltados para as gestantes e pu\u00e9rperas. Os problemas j\u00e1 existentes pioraram em larga escala. Houve uma redu\u00e7\u00e3o de 68% nos servi\u00e7os de contracep\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo em n\u00edvel global em 2020. As estat\u00edsticas representam um n\u00edtido aumento da vulnerabilidade da mulher durante a crise sanit\u00e1ria. Os servi\u00e7os de planejamento familiar ca\u00edram 44%; os de consulta pr\u00e9-natal, 39%; a assist\u00eancia a v\u00edtimas de viol\u00eancia por parceiro \u00edntimo, 39%. As desigualdades sociais, econ\u00f4micas e regionais no acesso aos cuidados tamb\u00e9m foram acentuadas no per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Sul-Sul<\/strong><br \/>Ap\u00f3s trabalhar por tr\u00eas anos e meio como cl\u00ednico geral na \u00e1rea de sa\u00fade materna, em Maputo, capital mo\u00e7ambicana, Charles foi autorizado pelo governo de seu pa\u00eds a prosseguir seus estudos \u2013 sua forma\u00e7\u00e3o em escola p\u00fablica o impelia a trabalhar para o governo no interior do pa\u00eds. Em 2018, ele veio para o Brasil e fez seu mestrado na Unicamp.<br \/>\u201cEu tinha especial interesse em estudar a sa\u00fade materna e o perinatal porque os dados do meu pa\u00eds eram dram\u00e1ticos. A mortalidade materna era muito alta. Eu precisava melhorar esta quest\u00e3o. Mas n\u00e3o bastava s\u00f3 saber o que estava se passando. Eu precisava gerar conhecimento para melhorar aqueles indicadores\u201d, explica o m\u00e9dico.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\">Na avalia\u00e7\u00e3o de Charles, a indisponibilidade de informa\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00fade da mulher em idade reprodutiva, incluindo gestantes e pu\u00e9rperas, nos pa\u00edses de m\u00e9dia renda (caso do Brasil) e de baixa renda (como Mo\u00e7ambique), foi uma das motiva\u00e7\u00f5es para a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, entre pesquisadores dos dois pa\u00edses. \u201cProduzimos dois editoriais, publicados no&nbsp;<em>International Journal of Gynecology and Obstetrics<\/em>&nbsp;e no&nbsp;<em>The Lancet<\/em>, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores do continente africano e de outros pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda sobre a necessidade de gerar conhecimento sobre essa tem\u00e1tica\u201d, lembra.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA sa\u00fade materna \u00e9 vulner\u00e1vel \u00e0s altera\u00e7\u00f5es ou impactos quando surgem epidemias ou pandemias, bem como eventos extremos, sejam clim\u00e1ticos ou de outra natureza\u201d, afirma Charles, que viu sua pesquisa se desdobrar a cada avan\u00e7o. Nesse contexto, foi criada a Rede Brasileira em Estudos do Covid-19 em Obstetr\u00edcia (Rebraco), que na segunda fase teve apoio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), para a qual Charles passou a colaborar.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA ideia da tese foi oferecer um olhar sist\u00eamico para mostrar o quanto a pandemia \u2013 e isso vale para outras condi\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica \u2013 trouxe de impacto para a sa\u00fade materna e perinatal. N\u00f3s estaremos diante de uma nova pandemia em breve, e quanto mais atacarmos o meio ambiente, mais vamos sofrer com isso. Essa \u00e9 outra linha que estamos trabalhando agora\u201d, revela Pacagnella.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>IMPACTOS DA CRISE SANIT\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p>Em Mo\u00e7ambique, foram avaliadas cerca de 250 mulheres, entre outubro de 2020 e janeiro de 2021, per\u00edodo em que Charles realizou seus trabalhos no Hospital Central de Maputo. \u201cAvaliamos a preval\u00eancia da covid-19, e em termos de desfechos gestacionais. Nosso estudo mostrou que a preval\u00eancia entre gestantes e pu\u00e9rperas estava em torno de 9%, duas vezes maior que a m\u00e9dia comum para a popula\u00e7\u00e3o geral do pa\u00eds. Apesar de ser um recorte pequeno, foi importante, porque entendemos como estava o panorama. Isso nos permitiu informar ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de Mo\u00e7ambique que pode orientar suas pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, explica Charles.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-left has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-bd27a6d2e16711474722f3793c531bf4\">No Brasil, uma das quest\u00f5es avaliadas foi a preval\u00eancia da prematuridade no per\u00edodo da pandemia. A avalia\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica usou dados do Data-SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), que tem uma base de dados robusta, o Sistema de Informa\u00e7\u00e3o em Nascidos Vivos (Sinasc). Com aux\u00edlio da ci\u00eancia de dados, foram avaliados cerca de 10 milh\u00f5es de nascimentos no Brasil. \u201cCom a pandemia, n\u00f3s tivemos uma gera\u00e7\u00e3o que nasceu com baixo peso, impactada pelos nascimentos prematuros\u201d, acrescenta Pacagnella. Nesse per\u00edodo, houve um aumento em torno de 4% de nascimentos prematuros no Brasil, comparado a per\u00edodos anteriores. Entre a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, entretanto, o aumento foi mais expressivo, situando-se na faixa de 50% a 60%, evidenciando disparidades regionais e raciais nas taxas de parto prematuro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-left has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f9dbf5074c3449f2b25e26d325e72528\">\u00c9 sempre bom lembrar, diz Charles, que sa\u00fade sexual e reprodutiva \u00e9 um direito humano fundamental, que contempla a disponibilidade de contraceptivos. O encerramento dos ambulat\u00f3rios de planejamento familiar durante a pandemia fez com que as mulheres tivessem gravidezes n\u00e3o planejadas. Isso j\u00e1 havia acontecido na epidemia de H1N1, em 2009, no Brasil. \u201cN\u00e3o aprendemos com essas experi\u00eancias e n\u00e3o olhamos para as mulheres. Isso n\u00e3o pode se repetir\u201d, afirma Pacagnella.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-left has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d1816ed43fe1561ccef562a2e92f9666\">Por fim, outro resultado impactante foi a evid\u00eancia de que as gestantes e pu\u00e9rperas n\u00e3o vacinadas apresentaram maior risco de morte e interna\u00e7\u00e3o em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do que as vacinadas. Entre gestantes e pu\u00e9rperas, houve maior hesita\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da dose de refor\u00e7o da vacina de covid-19.<\/p>\n<p>Secretaria Executiva de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<div class=\"address-lines\">\n<p>Avenida Albert Einstein, n\u00b0 901 &#8211; Cidade Universit\u00e1ria &#8220;Zeferino Vaz&#8221;<\/p>\n<p>Bar\u00e3o Geraldo &#8211; Campinas, SP &#8211; CEP: 13083-852<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"contact-line\"><a href=\"mailto:secexec@unicamp.br\">secexec@unicamp.br<\/a><\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<p>fonte:&nbsp;<a href=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/edicao\/734\/mortalidade-materna-duplicou-na-pandemia\/\">https:\/\/jornal.unicamp.br\/edicao\/734\/mortalidade-materna-duplicou-na-pandemia\/<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div>\n<p id=\"pvc_stats_849\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"849\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" 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