{"id":3685,"date":"2026-05-25T17:12:15","date_gmt":"2026-05-25T20:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=3685"},"modified":"2026-05-25T17:12:16","modified_gmt":"2026-05-25T20:12:16","slug":"o-trabalho-feminino-e-desvalorizado-no-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/o-trabalho-feminino-e-desvalorizado-no-capitalismo\/","title":{"rendered":"O trabalho feminino \u00e9 desvalorizado no capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres est\u00e3o sobrerrepresentadas em trabalhos mal remunerados, trabalhos de cuidado e trabalho n\u00e3o remunerado. Seu tempo, seus corpos e sua energia emocional s\u00e3o recursos para o capital. O feminismo n\u00e3o pode ter sucesso sem confrontar o sistema econ\u00f4mico que estrutura essas desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">POR&nbsp;Evelina Johansson Wil\u00e9n<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tradu\u00e7\u00e3o<br>Pedro Silva<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">JACOBIN<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/GettyImages-544279700-1.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria feminista marxista da reprodu\u00e7\u00e3o social possibilita compreender tanto as diferen\u00e7as entre as mulheres quanto as condi\u00e7\u00f5es que elas compartilham. (VCG Wilson\/Corbis via Getty Images)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucas quest\u00f5es assombraram a teoria feminista e o movimento feminista com tanta persist\u00eancia quanto a aparentemente simples:&nbsp;<em>o que \u00e9 uma mulher?<\/em>&nbsp;Algumas pessoas tentaram respond\u00ea-la diretamente. Outras argumentaram que a pr\u00f3pria pergunta \u00e9 uma forma de exclus\u00e3o, uma exig\u00eancia de defini\u00e7\u00e3o que inevitavelmente deixa algu\u00e9m de fora. Outras ainda rejeitaram a pergunta por completo, insistindo que o feminismo n\u00e3o deve partir da busca por uma ess\u00eancia universal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentes respostas refletiram diferentes momentos pol\u00edticos. Na d\u00e9cada de 1970, feministas influenciadas pelo marxismo abordaram a quest\u00e3o em termos estruturais, perguntando qual o papel das mulheres, como grupo, na manuten\u00e7\u00e3o da ordem social vigente. Na d\u00e9cada de 1980, abordagens psicanal\u00edticas e p\u00f3s-estruturalistas deslocaram o foco para a subjetividade: o que significa viver como mulher, como a feminilidade molda a rela\u00e7\u00e3o de uma pessoa com o corpo, com a linguagem, com a sexualidade e com os outros. Nessas perspectivas, o sujeito feminino nunca foi est\u00e1vel, mas sim fragmentado e historicamente constru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o debate tem assumido cada vez mais a forma de uma disputa sobre identidade. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais apenas&nbsp;<em>o que<\/em>&nbsp;\u00e9 uma mulher, mas&nbsp;<em>quem \u00e9 considerado<\/em>&nbsp;como tal e como essa categoria se cruza com ra\u00e7a, classe, sexualidade, defici\u00eancia e nacionalidade. Essa mudan\u00e7a \u00e9 frequentemente associada ao feminismo interseccional, embora a interseccionalidade em si seja mais ampla do que a vers\u00e3o centrada na identidade que domina o debate p\u00fablico. Dentro dessa estrutura, n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica resposta para a pergunta \u201co que \u00e9 uma mulher?\u201d. As vidas das mulheres s\u00e3o moldadas por m\u00faltiplas estruturas de poder que n\u00e3o podem ser separadas umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00eanfase na diferen\u00e7a \u00e9 frequentemente apresentada como uma ruptura com a compreens\u00e3o feminista anteriormente estabelecida. Mas a ideia de que a opress\u00e3o das mulheres \u00e9 moldada por classe e ra\u00e7a n\u00e3o come\u00e7ou com a interseccionalidade. Feministas negras j\u00e1 defendiam esse argumento muito antes de o termo existir, e feministas marxistas criticavam o feminismo liberal por isolar a \u201cquest\u00e3o da mulher\u201d da quest\u00e3o de classe d\u00e9cadas antes. Como apontou a pesquisadora sueca de g\u00eanero&nbsp;<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/pdf\/10.1177\/1464700110390604\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lena Gunnarsson,<\/a>&nbsp;a alega\u00e7\u00e3o de que a teoria feminista anterior tratava as mulheres como um grupo homog\u00eaneo muitas vezes se baseia em caricaturas das gera\u00e7\u00f5es anteriores sobre o feminismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das tradi\u00e7\u00f5es mais frequentemente descartadas dessa forma \u00e9 o feminismo marxista. No entanto, essa tradi\u00e7\u00e3o oferece algumas das ferramentas mais \u00fateis que temos para responder \u00e0 pergunta:&nbsp;<em>O que \u00e9 uma mulher?<\/em>&nbsp;A resposta n\u00e3o ser\u00e1 encontrada buscando uma defini\u00e7\u00e3o eterna, mas sim questionando qual o papel que as mulheres desempenham na reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria feminista marxista da reprodu\u00e7\u00e3o social possibilita compreender tanto as diferen\u00e7as entre as mulheres quanto as condi\u00e7\u00f5es que compartilham. Permite-nos ver como as vidas das mulheres s\u00e3o moldadas pela mesma ordem econ\u00f4mica, mesmo quando suas experi\u00eancias est\u00e3o longe de serem id\u00eanticas. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como apagar as diferen\u00e7as, mas como a pr\u00f3pria diferen\u00e7a \u00e9 produzida dentro de um sistema comum. Como&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dukeupress.edu\/feminism-without-borders\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">perguntou<\/a>&nbsp;certa vez a te\u00f3rica feminista p\u00f3s-colonial Chandra Talpade Mohanty: O que significa vivermos todos dentro de uma ordem capitalista global? E como essa ordem cria condi\u00e7\u00f5es compartilhadas que podem formar a base para a solidariedade entre a maioria das mulheres, apesar das divis\u00f5es entre elas?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"o-que-e-a-teoria-da-reproducao-social\" class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 a teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acr\u00edtica de Karl Marx ao capitalismo focava-se sobretudo na produ\u00e7\u00e3o: como os trabalhadores criam valor, como as mercadorias circulam e como as crises emergem das contradi\u00e7\u00f5es do sistema. Mas Marx tinha plena consci\u00eancia de que a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe isoladamente. O capitalismo depende de processos sociais que n\u00e3o controla totalmente. A for\u00e7a de trabalho \u00e9 a \u00fanica mercadoria que o capitalismo n\u00e3o consegue produzir por si s\u00f3, embora dela dependa completamente. Marx planejou escrever mais sobre o Estado, o colonialismo e o sistema de cr\u00e9dito, mas n\u00e3o concluiu o projeto. Sua obra n\u00e3o deve ser tratada como uma doutrina fechada. \u00c9 um ponto de partida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.historicalmaterialism.org\/book-series\/from-a-marxist-feminist-point-of-view-essays-on-freedom-rationality-and-human-nature\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Como argumentou<\/a>&nbsp;a fil\u00f3sofa Nancy Holmstrom, o feminismo marxista n\u00e3o precisa abandonar Marx para compreender a opress\u00e3o de g\u00eanero. Ele precisa ampliar sua an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social faz exatamente isso. Ela questiona o que precisa acontecer, dia ap\u00f3s dia, para que o capitalismo continue funcionando. Os trabalhadores precisam nascer, ser criados, alimentados, educados, cuidados e mantidos saud\u00e1veis \u200b\u200bo suficiente para trabalhar. As fam\u00edlias precisam funcionar. Escolas e hospitais precisam operar. Sistemas inteiros de cuidado e manuten\u00e7\u00e3o precisam estar em funcionamento antes que uma \u00fanica mercadoria possa ser produzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas atividades n\u00e3o est\u00e3o fora do capitalismo. Elas est\u00e3o entre seus fundamentos ocultos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nancy Fraser&nbsp;<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii86\/articles\/nancy-fraser-behind-marx-s-hidden-abode\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">descreve-as<\/a>&nbsp;como as condi\u00e7\u00f5es de fundo do capitalismo \u2014 formas de trabalho e vida social das quais o sistema depende, mas que se recusa a reconhecer como parte de si mesmo. Grande parte desse trabalho ocorre na esfera privada, especialmente na fam\u00edlia. \u00c9 ali que os trabalhadores s\u00e3o produzidos e reproduzidos, n\u00e3o apenas biologicamente, mas tamb\u00e9m social e emocionalmente. Sem essa esfera, o capitalismo n\u00e3o poderia sobreviver. No entanto, o capitalismo constantemente corr\u00f3i as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es das quais depende, expandindo-se para novas \u00e1reas da vida em busca de lucro, incorporando o cuidado, a fam\u00edlia e as rela\u00e7\u00f5es sociais ao mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSem trabalho n\u00e3o remunerado, o trabalho remunerado seria imposs\u00edvel.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As feministas marxistas argumentam h\u00e1 muito tempo que \u00e0s mulheres, como grupo, foi atribu\u00eddo um papel espec\u00edfico nesse processo. \u00c0s mulheres cabe a principal responsabilidade pelo trabalho dom\u00e9stico, pelos cuidados e pelo apoio emocional. Como&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.haymarketbooks.org\/books\/569-marxism-and-the-oppression-of-women\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">demonstrou<\/a>&nbsp;a soci\u00f3loga marxista Lise Vogel, o capitalismo se baseia na intera\u00e7\u00e3o entre a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e as rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero. Patriarcado e capitalismo n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticos, mas se refor\u00e7am mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Silvia Federici&nbsp;<a href=\"https:\/\/thecommoner.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/05-federici.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">argumentou,<\/a>&nbsp;de forma not\u00e1vel, que o trabalho dom\u00e9stico e o cuidado devem ser compreendidos como trabalho, e n\u00e3o como express\u00f5es de puro amor. As mulheres sustentam os homens emocional e fisicamente, e os homens, por sua vez, vendem sua for\u00e7a de trabalho ao capital. A te\u00f3rica pol\u00edtica Anna J\u00f3nasd\u00f3ttir&nbsp;<a href=\"https:\/\/philpapers.org\/rec\/JNAWWA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">descreveu<\/a>&nbsp;o cuidado feminino como uma forma de \u201cpoder do amor\u201d, compar\u00e1vel \u00e0 for\u00e7a de trabalho, que sustenta o senso de autonomia dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social frequentemente distingue entre explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o. Explora\u00e7\u00e3o refere-se ao trabalho assalariado, em que os trabalhadores recebem menos do que o valor que produzem. Expropria\u00e7\u00e3o refere-se ao trabalho necess\u00e1rio, mas n\u00e3o remunerado, como o trabalho dom\u00e9stico e o cuidado. O capitalismo depende de ambos. Sem trabalho n\u00e3o remunerado, o trabalho remunerado seria imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Te\u00f3ricos posteriores expandiram o conceito para incluir institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como escolas, sistemas de bem-estar social e sa\u00fade, bem como processos globais como migra\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o. Todos esses elementos fazem parte da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. O capitalismo exige n\u00e3o apenas trabalhadores, mas trabalhadores vivos, capacitados, com moradia e aptos a comparecer ao trabalho diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como as mulheres se concentram nessas atividades, elas s\u00e3o afetadas de maneiras espec\u00edficas pelo desenvolvimento capitalista. A maioria das mulheres pertence \u00e0 classe trabalhadora. Muitas trabalham em cuidados, educa\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e trabalho dom\u00e9stico \u2014 empregos essenciais para a sociedade, mas sistematicamente subvalorizados. Esses setores est\u00e3o sob constante press\u00e3o, j\u00e1 que o capital busca reduzir o custo de manuten\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. A luta pelo lucro \u00e9, portanto, tamb\u00e9m uma luta sobre quanto a sociedade est\u00e1 disposta a gastar com cuidados, educa\u00e7\u00e3o e bem-estar. \u00c9 uma luta pelas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"neoliberalismo-trabalho-de-cuidado-e-a-divisao-global-da-reproducao\" class=\"wp-block-heading\">Neoliberalismo, trabalho de cuidado e a divis\u00e3o global da reprodu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas press\u00f5es se intensificaram. Os servi\u00e7os p\u00fablicos foram privatizados, os sistemas de bem-estar social foram reduzidos e o trabalho de cuidado se tornou cada vez mais uma mercadoria. Espera-se que escolas, hospitais e lares de idosos n\u00e3o apenas sustentem a sociedade, mas tamb\u00e9m gerem lucro. Os trabalhadores desses setores enfrentam condi\u00e7\u00f5es cada vez piores, enquanto aqueles que precisam de cuidados s\u00e3o tratados como clientes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o Estado se retira, o fardo recai sobre a fam\u00edlia \u2014 e, dentro da fam\u00edlia, sobre as mulheres. Espera-se que as mulheres trabalhem por um sal\u00e1rio, enquanto continuam a arcar com a principal responsabilidade pelos cuidados n\u00e3o remunerados. O resultado \u00e9 a j\u00e1 conhecida dupla jornada, agravada pelas condi\u00e7\u00f5es de austeridade. Nem todas as mulheres vivenciam isso da mesma forma. Mulheres de classe m\u00e9dia muitas vezes conseguem se livrar do trabalho dom\u00e9stico contratando outras pessoas para realiz\u00e1-lo. A emancipa\u00e7\u00e3o se torna uma mercadoria. Aquelas com recursos podem pagar por creches, cuidados com idosos e servi\u00e7os de sa\u00fade particulares. Aquelas sem recursos precisam fazer o trabalho elas mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres que tornam esse arranjo poss\u00edvel s\u00e3o frequentemente migrantes e trabalhadoras racializadas. Como Arlie Russell Hochschild&nbsp;<a href=\"https:\/\/books.google.ca\/books\/about\/Global_Woman.html?id=CBcrpIkb458C&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">demonstrou,<\/a>&nbsp;nossas vidas s\u00e3o sustentadas por uma cadeia global de cuidados na qual mulheres de pa\u00edses mais pobres realizam o trabalho reprodutivo que mulheres mais ricas precisam para poder competir no mercado de trabalho. O cuidado n\u00e3o desapareceu. Ele foi terceirizado. Essa l\u00f3gica se estende ainda mais no crescente mercado de barriga de aluguel, onde o pr\u00f3prio trabalho reprodutivo se torna uma mercadoria. Mulheres mais pobres carregam gesta\u00e7\u00f5es para clientes mais ricos, muitas vezes cruzando fronteiras nacionais. A cadeia global de cuidados revela o qu\u00e3o profundamente o capitalismo depende da organiza\u00e7\u00e3o desigual da reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"reproducao-social-e-interseccionalidade\" class=\"wp-block-heading\">Reprodu\u00e7\u00e3o social e interseccionalidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Te\u00f3ricas contempor\u00e2neas da reprodu\u00e7\u00e3o social, como Fraser, Tithi Bhattacharya e Cinzia Arruzza,&nbsp;<a href=\"https:\/\/philpapers.org\/rec\/ARRFFT\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">argumentam<\/a>&nbsp;que o feminismo n\u00e3o pode representar a maioria das mulheres a menos que confronte o pr\u00f3prio capitalismo. O fato de a liberta\u00e7\u00e3o de algumas mulheres depender da subordina\u00e7\u00e3o de outras torna isso inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, raramente descrevem sua abordagem como interseccional, embora as duas perspectivas compartilhem preocupa\u00e7\u00f5es importantes. Ambas analisam m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o. Ambas rejeitam a ideia de que g\u00eanero possa ser compreendido isoladamente. Ambas insistem que classe, ra\u00e7a, sexualidade e g\u00eanero interagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA solidariedade n\u00e3o se baseia na igualdade, mas em condi\u00e7\u00f5es compartilhadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a reside na \u00eanfase. A teoria interseccional, especialmente em suas formas mais centradas na identidade, frequentemente trata diferentes estruturas de poder como igualmente fundamentais. O foco tende a recair sobre a experi\u00eancia vivida e sobre as maneiras pelas quais os indiv\u00edduos habitam m\u00faltiplas identidades simultaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social levanta uma quest\u00e3o diferente: como essas formas de opress\u00e3o se organizam dentro de um sistema social espec\u00edfico? O objetivo n\u00e3o \u00e9 hierarquizar as injusti\u00e7as, mas sim compreender como elas est\u00e3o interligadas. Como argumentou&nbsp;<a href=\"https:\/\/brill.com\/view\/journals\/hima\/24\/2\/article-p38_3.xml?srsltid=AfmBOopricrYPCEOOcTQc4ZX0IRO6N5WS6o9hUHg6S9f3zQpby9kRb8o\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Susan Ferguson,<\/a>&nbsp;a an\u00e1lise interseccional por vezes descreve m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o sem explicar as rela\u00e7\u00f5es sociais que as produzem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social, o capitalismo fornece o contexto hist\u00f3rico no qual essas rela\u00e7\u00f5es se moldam. Isso n\u00e3o significa que toda injusti\u00e7a possa ser reduzida \u00e0 classe social. Mas significa que a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da reprodu\u00e7\u00e3o influencia o funcionamento de outras hierarquias. O objetivo n\u00e3o \u00e9 negar a diferen\u00e7a, mas compreend\u00ea-la como parte de uma totalidade maior. As mulheres n\u00e3o compartilham experi\u00eancias id\u00eanticas, mas suas vidas est\u00e3o conectadas pela mesma ordem econ\u00f4mica. A solidariedade n\u00e3o se baseia na homogeneidade, mas em condi\u00e7\u00f5es compartilhadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"por-que-a-teoria-da-reproducao-social-e-importante-hoje\" class=\"wp-block-heading\">Por que a teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social \u00e9 importante hoje?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aideia de um movimento feminista unificado \u00e9 frequentemente descartada como ultrapassada, partindo-se do pressuposto de que as mulheres s\u00e3o muito diferentes entre si para agirem em conjunto. H\u00e1 verdade nisso. As vidas das mulheres s\u00e3o extremamente diversas. Ra\u00e7a, classe social, sexualidade e nacionalidade importam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o erro oposto \u00e9 igualmente enganoso. A maioria das mulheres, independentemente de suas diferen\u00e7as, vive sob um sistema capitalista que depende do seu trabalho de maneiras espec\u00edficas. As mulheres s\u00e3o sobrerrepresentadas em trabalhos mal remunerados, em trabalhos de cuidado e em trabalho n\u00e3o remunerado. Seu tempo, seus corpos e sua energia emocional continuam sendo recursos para o capital. Isso n\u00e3o significa que as mulheres devam se organizar apenas como mulheres. Mas significa que o feminismo n\u00e3o pode ter sucesso sem confrontar o sistema econ\u00f4mico que estrutura essas desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social oferece uma maneira de pensar tanto a diferen\u00e7a quanto a comunh\u00e3o simultaneamente. Ela mostra como a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o da vida se organiza sob o capitalismo, como algumas vidas s\u00e3o sustentadas enquanto outras s\u00e3o negligenciadas e como as lutas por cuidado, trabalho e sobreviv\u00eancia s\u00e3o insepar\u00e1veis \u200b\u200bdas lutas por lucro. Ao questionarmos quem realiza o trabalho que sustenta a sociedade \u2014 e sob quais condi\u00e7\u00f5es \u2014 podemos vislumbrar os contornos de uma pol\u00edtica que fala n\u00e3o apenas por algumas, mas por muitas.<\/p>\n\n\n\n<h5 id=\"evelina-johansson-wilen\" class=\"wp-block-heading\">Evelina Johansson Wil\u00e9n<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00e9 professora associada de estudos de g\u00eanero na Universidade de \u00d6rebro, na Su\u00e9cia. Ela faz parte do conselho editorial da revista te\u00f3rica marxista R\u00f6da Rummet e \u00e9 autora de um livro sobre a aboli\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, com publica\u00e7\u00e3o prevista pela editora La Fabrique em 2026.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"nossa-nova-edicao-impressa-sobre-raca-e-classe-ja-foi-lancada-assine-um-de-nossos-planos-ou-compre-ela-avulsa-hoje\" class=\"wp-block-heading\">Nossa nova&nbsp;<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/revista\/\">edi\u00e7\u00e3o impressa sobre &#8220;ra\u00e7a e classe&#8221;<\/a>&nbsp;j\u00e1 foi lan\u00e7ada.&nbsp;<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/assine\/\">Assine um de nossos planos<\/a>&nbsp;ou&nbsp;<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/revista\/\">compre ela avulsa hoje<\/a>.<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">fonte:&nbsp;&nbsp;<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2026\/04\/o-trabalho-feminino-e-desvalorizado-no-capitalismo\/\">https:\/\/jacobin.com.br\/2026\/04\/o-trabalho-feminino-e-desvalorizado-no-capitalismo\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_3685\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"3685\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 70 -86 122 -155 94z\"\/><path d=\"M1751 3234 c-13 -9 -29 -31 -37 -50 -12 -29 -10 -49 21 -204 19 -94 39 -189 45 -210 14 -50 54 -80 110 -80 34 0 48 6 76 34 21 21 34 44 34 59 0 14 -18 113 -40 219 -37 178 -43 195 -70 221 -36 32 -101 37 -139 11z\"\/><path d=\"M1163 3073 c-36 -7 -73 -59 -73 -102 0 -56 133 -378 171 -413 34 -32 83 -37 129 -13 70 36 67 87 -16 290 -86 209 -89 214 -129 231 -35 14 -42 15 -82 7z\"\/><path d=\"M3689 3066 c-15 -9 -33 -30 -42 -48 -48 -103 -147 -355 -147 -375 0 -98 131 -148 192 -74 13 15 57 108 97 206 80 196 84 226 37 273 -30 30 -99 39 -137 18z\"\/><path d=\"M583 2784 c-38 -19 -67 -74 -58 -113 9 -42 211 -354 242 -373 16 -10 45 -18 66 -18 51 0 107 52 107 100 0 39 -1 41 -124 234 -80 126 -108 162 -133 173 -41 17 -61 16 -100 -3z\"\/><path d=\"M4250 2784 c-14 -9 -74 -91 -133 -183 -95 -150 -107 -173 -107 -213 0 -55 33 -94 87 -104 67 -13 90 8 211 198 130 202 137 225 78 284 -27 27 -42 34 -72 34 -22 0 -50 -8 -64 -16z\"\/><path d=\"M2275 2693 c-553 -48 -1095 -270 -1585 -649 -135 -104 -459 -423 -483 -476 -23 -49 -22 -139 2 -186 73 -142 361 -457 571 -626 285 -228 642 -407 990 -497 242 -63 336 -73 660 -74 310 0 370 5 595 52 535 111 1045 392 1455 803 122 121 250 273 275 326 19 41 19 137 0 174 -41 79 -309 363 -465 492 -447 370 -946 591 -1479 653 -113 14 -422 18 -536 8z m395 -428 c171 -34 330 -124 456 -258 112 -119 167 -219 211 -378 27 -96 24 -300 -5 -401 -72 -255 -236 -447 -474 -557 -132 -62 -201 -76 -368 -76 -167 0 -236 14 -368 76 -213 98 -373 271 -451 485 -162 444 86 934 547 1084 153 49 292 57 452 25z m909 -232 c222 -123 408 -262 593 -441 76 -74 138 -139 138 -144 0 -16 -233 -242 -330 -319 -155 -123 -309 -223 -461 -299 l-81 -41 32 46 c18 26 49 83 70 128 143 306 141 649 -6 957 -25 52 -61 116 -79 142 l-34 47 45 -20 c26 -10 76 -36 113 -56z m-2057 25 c-40 -58 -105 -190 -130 -263 -110 -324 -59 -707 132 -981 25 -35 42 -64 37 -64 -19 0 -241 119 -326 174 -188 122 -406 314 -532 468 l-58 71 108 103 c185 178 428 349 672 473 66 33 121 60 123 61 2 0 -10 -19 -26 -42z\"\/><path d=\"M2375 1950 c-198 -44 -350 -190 -395 -379 -18 -76 -8 -221 19 -290 114 -284 457 -406 731 -260 98 52 188 154 231 260 27 69 37 214 19 290 -38 163 -166 304 -326 360 -67 23 -215 33 -279 19z\"\/><\/g><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" src=\"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 \/><\/p><div class=\"pvc_clear\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres est\u00e3o sobrerrepresentadas em trabalhos mal remunerados, trabalhos de cuidado e trabalho n\u00e3o remunerado. Seu tempo, seus corpos e sua energia emocional s\u00e3o recursos para o capital. O feminismo n\u00e3o pode ter sucesso sem confrontar o sistema econ\u00f4mico que estrutura essas desigualdades. POR&nbsp;Evelina Johansson Wil\u00e9n Tradu\u00e7\u00e3oPedro Silva JACOBIN A teoria feminista marxista da reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5419,"featured_media":3686,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_gspb_post_css":"","footnotes":""},"categories":[491],"tags":[],"class_list":["post-3685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade-civil"],"acf":[],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":0,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5419"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3685"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3687,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3685\/revisions\/3687"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}