{"id":3942,"date":"2026-06-10T21:24:56","date_gmt":"2026-06-11T00:24:56","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=3942"},"modified":"2026-06-10T21:25:23","modified_gmt":"2026-06-11T00:25:23","slug":"reparacoes-a-africa-desafia-o-eurocentrismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/reparacoes-a-africa-desafia-o-eurocentrismo\/","title":{"rendered":"Repara\u00e7\u00f5es: A \u00c1frica desafia o eurocentrismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Avan\u00e7a a luta do continente para obter indeniza\u00e7\u00f5es que amenizem s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e escravismo. Al\u00e9m da resist\u00eancia \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o financeira relevante, h\u00e1 um tabu at\u00e1vico a quebrar. Como pode uma coisa reivindicar algo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/category\/descolonizacoes\/\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/panashechigumadzi\/\">Panashe Chigumadzi<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado 09\/06\/2026 \u00e0s 18:07 &#8211; Atualizado 09\/06\/2026 \u00e0s 18:15<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4990121050536348716_y.jpg.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-3187631\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Esquerda Di\u00e1rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 id=\"boletim-outras-palavras\" class=\"wp-block-heading\">Boletim Outras Palavras<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do siteAssinar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por&nbsp;<strong>Panashe Chigumadzi<\/strong>&nbsp;| Tradu\u00e7\u00e3o:&nbsp;<strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No m\u00eas passado, durante as comemora\u00e7\u00f5es do 25\u00ba anivers\u00e1rio da Lei Taubira, que reconheceu na Fran\u00e7a o tr\u00e1fico de africanos escravizados como crime contra a humanidade, Emmanuel Macron fez o impens\u00e1vel: tornou-se o primeiro presidente franc\u00eas a pronunciar publicamente a palavra \u201crepara\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde 1825, quando&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/france\">a Fran\u00e7a&nbsp;<\/a>puniu o Haiti por ousar declarar-se a primeira rep\u00fablica soberana negra do mundo ocidental, extorquindo 150 milh\u00f5es de francos como compensa\u00e7\u00e3o pela perda do que considerava \u201cpropriedade\u201d escravizada, as repara\u00e7\u00f5es aos povos e na\u00e7\u00f5es negras t\u00eam sido politicamente \u201cimpens\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4.png.webp\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O historiador haitiano Michel-Rolph Trouillot argumentou, de forma memor\u00e1vel, que a revolu\u00e7\u00e3o haitiana de 1804 foi o evento \u201cimpens\u00e1vel\u201d por excel\u00eancia \u2013 uma reivindica\u00e7\u00e3o de soberania negra que o Ocidente n\u00e3o conseguia compreender nem tolerar. Por isso, procurou esmag\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4990121050536348713_x1.jpg.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-3187649\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Panashe Chigumadzi (@PanasheChig) \/ Posts \/ X<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Impulsionado pelas mudan\u00e7as na realidade geopol\u00edtica e pelas crescentes demandas da \u00c1frica por soberania econ\u00f4mica,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2026\/may\/21\/macron-pressure-reparatory-justice-france-slave-trade-legacies-enslavement\">Macron invocou o termo \u201crepara\u00e7\u00f5es\u201d dez vezes&nbsp;<\/a>como parte de uma tentativa preventiva de moldar os termos do di\u00e1logo antes que a Uni\u00e3o Africana (UA) adote sua&nbsp;<a href=\"https:\/\/au.int\/sw\/node\/45965\">posi\u00e7\u00e3o comum<\/a>&nbsp;sobre o tema que Gana sedie uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/reparations.mfa.gov.gh\/\">confer\u00eancia global<\/a>&nbsp;acerca do assunto, este m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presidente franc\u00eas fez essas declara\u00e7\u00f5es uma semana ap\u00f3s a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2026\/may\/12\/macron-move-on-francophone-past-africa-summit\">c\u00fapula \u00c1frica-Fran\u00e7a em Nair\u00f3bi&nbsp;<\/a>\u2013 uma tentativa de seu pa\u00eds de recuperar influ\u00eancia, em meio aos impactos de uma s\u00e9rie de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2023\/oct\/05\/france-departure-niger-failure-former-colonies\">expuls\u00f5es no Sahel&nbsp;<\/a>. Feita ao lado do presidente de Gana, John Dramani Mahama \u2013 o principal defensor das repara\u00e7\u00f5es na Uni\u00e3o Africana \u2013 a interven\u00e7\u00e3o de Macron ocorreu apenas dois meses depois de a Fran\u00e7a ter se abstido na vota\u00e7\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o da ONU proposta por Gana, que declarava o tr\u00e1fico de africanos escravizados&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2026\/mar\/25\/un-votes-slave-trade-gravest-crime-against-humanity-reparatory-justice\">o crime mais grave contra a humanidade&nbsp;<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Macron n\u00e3o abordou foi o que as repara\u00e7\u00f5es realmente implicariam: o que a Fran\u00e7a pagaria, a quem e quando. Acima de tudo, evitou a quest\u00e3o de saber se a Fran\u00e7a devolveria a indeniza\u00e7\u00e3o imposta ao Haiti em 1825. Em vez disso, as propostas se concentraram em uma comiss\u00e3o, um memorial e a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2026\/may\/28\/france-votes-code-noir-slavery-law-colonialism\">revoga\u00e7\u00e3o formal do&nbsp;<em>C\u00f3digo Negro&nbsp;<\/em>de 1685&nbsp;<\/a>, que classificava os africanos como \u201c<em>m\u00f3veis<\/em>\u201c. Gestos simb\u00f3licos, certamente. Mas n\u00e3o restitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso vai ao cerne do que eu chamo de exce\u00e7\u00e3o africana nas repara\u00e7\u00f5es globais. O Ocidente demonstrou repetidamente sua disposi\u00e7\u00e3o em pagar repara\u00e7\u00f5es pela perda do que antes considerava sua propriedade africana \u2013 mas nunca pelas perdas impostas \u00e0s pessoas africanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1833, o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico pagou 20 milh\u00f5es de libras em repara\u00e7\u00f5es aos propriet\u00e1rios de escravos por seus \u201cbens perdidos\u201d. Em 2013,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2013\/jun\/06\/uk-compensate-kenya-mau-mau-torture\">a Gr\u00e3-Bretanha pagou 19,9 milh\u00f5es de libras \u00e0s v\u00edtimas da tortura e dos abusos do movimento Mau Mau,&nbsp;<\/a>embora continuasse a negar sua pr\u00f3pria responsabilidade. Em 2021, a Alemanha descreveu seu&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2025\/may\/28\/namibia-first-genocide-remembrance-day\">acordo referente ao genoc\u00eddio dos povos Nama e Herero, ocorrido entre 1904 e 1908,&nbsp;<\/a>como&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2021\/may\/28\/germany-agrees-to-pay-namibia-11bn-over-historical-herero-nama-genocide\">\u201cajuda ao desenvolvimento\u201d&nbsp;<\/a>. No entanto, pa\u00edses ocidentais pagaram repara\u00e7\u00f5es a pessoas n\u00e3o negras e reconhecem a soberania do Ocidente \u2013 incluindo o Acordo de Luxemburgo de 1952 com Israel e o acordo com nipo-americanos, concedido pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.congress.gov\/bill\/100th-congress\/house-bill\/442\">Lei das Liberdades Civis de 1988&nbsp;<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exce\u00e7\u00e3o africana n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma falha moral. \u00c9 uma caracter\u00edstica estrutural de uma ordem jur\u00eddica internacional que, desde o caso da f\u00e1brica de Chorz\u00f3w em 1928 \u2013 uma disputa entre a Alemanha e a Pol\u00f4nia que estabeleceu as repara\u00e7\u00f5es como consequ\u00eancia obrigat\u00f3ria de atos il\u00edcitos entre Estados soberanos \u2013 concede repara\u00e7\u00f5es \u00e0queles que reconhece como soberanos, mas nunca a pessoas e pa\u00edses negros. Isso ocorre porque a Europa recusa-se a ir al\u00e9m da independ\u00eancia de bandeira e reconhecer sua antiga \u201cpropriedade\u201d como soberana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/lojahucitec.com.br\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia3.png.webp\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Haiti e Fran\u00e7a s\u00e3o exemplos paradigm\u00e1ticos da exce\u00e7\u00e3o africana. Em 2003, quando o presidente haitiano, Jean-Bertrand Aristide, exigiu US$ 21 bilh\u00f5es em restitui\u00e7\u00e3o pela indeniza\u00e7\u00e3o de 1825, ele levantou uma quest\u00e3o fundamental: como a \u201cpropriedade\u201d pode exigir seu valor de volta? A resposta \u2013 um golpe de Estado apoiado pelos EUA e pela Fran\u00e7a \u2013 foi a nega\u00e7\u00e3o definitiva da soberania negra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As repara\u00e7\u00f5es continuavam sendo \u201cimpens\u00e1veis\u201d quando Gana apresentou sua proposta de resolu\u00e7\u00e3o \u00e0 ONU. Baseando-se no Quadro de Repara\u00e7\u00f5es da UA, \u201cUm Crime N\u00e3o Preclui, 1441-presente\u201d \u2013 que idealizei e redigi como relatora do comit\u00ea de especialistas em repara\u00e7\u00f5es da UA \u2013 a resolu\u00e7\u00e3o invocou o princ\u00edpio jur\u00eddico pan-africano da obriga\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, consubstanciado no ditado \u201cum crime n\u00e3o preclui\u201d. Cento e vinte e tr\u00eas Estados votaram a favor; tr\u00eas votaram contra, enquanto 52 se abstiveram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A UE rejeitou o princ\u00edpio de que \u201cum crime n\u00e3o preclui\u201d como \u201cjurisprud\u00eancia regional\u201d fora do alcance universal do direito internacional. A ironia \u00e9 gritante: o direito internacional n\u00e3o descende de Deus, mas da hist\u00f3ria. O Tratado de Vestf\u00e1lia de 1648 \u2013 mitificado como o nascimento da soberania moderna \u2013 foi ele pr\u00f3prio um acordo regional europeu, posteriormente universalizado pela escraviza\u00e7\u00e3o, pelo colonialismo e pelo apartheid.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com base no Quadro da UA, a resolu\u00e7\u00e3o do Gana esclarece a situa\u00e7\u00e3o: a data de nascimento da soberania moderna e do sistema capitalista racial moderno n\u00e3o \u00e9 1648. Ela remonta a 1441, quando, na costa da atual Maurit\u00e2nia, o navegador portugu\u00eas Ant\u00e3o Gon\u00e7alves capturou 12 africanos, dando in\u00edcio \u00e0 era do tr\u00e1fico de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 nas bulas papais do Vaticano \u2013&nbsp;<em>Dum Diversas&nbsp;<\/em>(1452)&nbsp;<em>, Romanus Pontifex&nbsp;<\/em>(1455)&nbsp;<em>, Inter Caetera&nbsp;<\/em>(1493)<em>&nbsp;<\/em>\u2013 que reduziu os africanos \u00e0 \u201cescravid\u00e3o perp\u00e9tua\u201d e codificou a Doutrina da Descoberta, que autorizou a conquista europeia. Foi, como nos lembram Sylvia Wynter e Mahmood Mamdani, em 1492, quando Colombo \u201cdescobriu\u201d o \u201cNovo Mundo\u201d e a Espanha expulsou judeus e mu\u00e7ulmanos da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Foi no direito internacional que codificou a condi\u00e7\u00e3o de propriedade dos africanos, por meio da&nbsp;<em>Pe\u00e7a das \u00cdndias&nbsp;<\/em>(1513) portuguesa, do&nbsp;<em>Asiento de Negros&nbsp;<\/em>(1518) espanhol, da carta r\u00e9gia da Companhia Holandesa das \u00cdndias Ocidentais (1621), do C\u00f3digo de Escravos de Barbados (1661) ingl\u00eas e do&nbsp;<em>C\u00f3digo Negro&nbsp;<\/em>(1685) franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escravid\u00e3o \u00e9 ancestral. Como demonstraram estudiosas feministas negras como Jennifer L. Morgan e Bibi Bakare-Yusuf, o in\u00e9dito foi o sistema racializado de escraviza\u00e7\u00e3o que reduziu os africanos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de propriedade perp\u00e9tua por meio do princ\u00edpio&nbsp;<em>partus sequitur ventrem&nbsp;<\/em>\u2013 segundo o qual o status segue o \u00fatero. Codificado na Virg\u00ednia em 1662, esse princ\u00edpio estabeleceu a escraviza\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria atrav\u00e9s do \u00fatero das mulheres negras, independentemente da paternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como escreveu o presidente americano Thomas Jefferson, pai de seis filhos escravizados,&nbsp;<a href=\"https:\/\/tjrs.monticello.org\/letter\/2117\">em 1819&nbsp;<\/a>: \u201cConsidero uma mulher que d\u00e1 \u00e0 luz um filho a cada dois anos mais lucrativa do que o melhor homem da fazenda. O que ela produz \u00e9 um acr\u00e9scimo ao capital.\u201d Assim como a \u00c1frica tornou-se o centro mundial de acumula\u00e7\u00e3o de capital, o \u00fatero das mulheres negras se tornou o centro da reprodu\u00e7\u00e3o desse capital. Sem soberania sobre nossos \u00fateros, que soberania significativa podemos reivindicar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao reduzir pessoas negras \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de propriedade perp\u00e9tua, a escraviza\u00e7\u00e3o racializada posicionou pessoas negras como os \u00faltimos n\u00e3o-soberanos do mundo.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/race\">Ra\u00e7a&nbsp;<\/a>\u00e9 soberania. Esta \u00e9 a armadilha global das repara\u00e7\u00f5es: a ordem jur\u00eddica internacional p\u00f3s-1928 exige que a v\u00edtima seja soberana para receber repara\u00e7\u00f5es, mas os crimes da escravid\u00e3o, do colonialismo e do apartheid dependem da destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da soberania negra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00faltima an\u00e1lise, a exce\u00e7\u00e3o africana demonstra que as repara\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o simplesmente um imperativo moral, mas uma quest\u00e3o geopol\u00edtica de soberania. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que a Fran\u00e7a anuncie repara\u00e7\u00f5es sem pagamento \u2013 invocando a linguagem da justi\u00e7a enquanto evita o seu custo \u2013 justamente quando as crescentes reivindica\u00e7\u00f5es africanas por soberania amea\u00e7am os seus interesses econ\u00f4micos. N\u00e3o podemos esperar que o Ocidente nos considere soberanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal desafio para o movimento global de repara\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o negra no s\u00e9culo XXI \u00e9 construir influ\u00eancia geopol\u00edtica em todo o continente africano, na di\u00e1spora africana e na maioria do Sul Global que apoiou a resolu\u00e7\u00e3o. Uma fonte substancial de influ\u00eancia \u00e9 o fato de a \u00c1frica deter 30% dos minerais cr\u00edticos conhecidos no mundo \u2013 incluindo cobalto, l\u00edtio, mangan\u00eas e terras raras \u2013 dos quais dependem a transi\u00e7\u00e3o verde e a infraestrutura de IA do Ocidente. Sem repara\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deveria haver acesso \u00e0s cadeias de suprimento de minerais cr\u00edticos da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra fonte de influ\u00eancia reside em institui\u00e7\u00f5es como a UA, a Comunidade do Caribe (Caricom) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que est\u00e3o construindo uma coordena\u00e7\u00e3o comercial e financeira Sul-Sul que vai al\u00e9m do alcance dos antigos imp\u00e9rios escravistas. Sem repara\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deveria haver participa\u00e7\u00e3o na integra\u00e7\u00e3o comercial e econ\u00f4mica do Sul global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como o Haiti se emancipou tornando o custo da escravid\u00e3o intoleravelmente alto, o movimento de repara\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI deve mudar o foco da persuas\u00e3o moral para a imposi\u00e7\u00e3o de custos geopol\u00edticos. O que foi \u201cimpens\u00e1vel\u201d por dois s\u00e9culos s\u00f3 se tornar\u00e1 \u201cpens\u00e1vel\u201d quando o custo da recusa for maior do que o custo da repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/trafico-de-africanos-escravizados\/\">tr\u00e1fico de africanos escravizados<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/uniao-africana\/\">Uni\u00e3o Africana<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/reparacoes-africa-desafia-o-eurocentrismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a>&nbsp;<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Repara%C3%A7%C3%B5es%3A+A+%C3%81frica+desafia+o+eurocentrismo&amp;url=https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/reparacoes-africa-desafia-o-eurocentrismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a>&nbsp;<a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?text=Repara%C3%A7%C3%B5es:%20A%20%C3%81frica%20desafia%20o%20eurocentrismo%20-%20https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/reparacoes-africa-desafia-o-eurocentrismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer 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href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/reparacoes-africa-desafia-o-eurocentrismo\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/reparacoes-africa-desafia-o-eurocentrismo\/<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_3942\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"3942\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 70 -86 122 -155 94z\"\/><path d=\"M1751 3234 c-13 -9 -29 -31 -37 -50 -12 -29 -10 -49 21 -204 19 -94 39 -189 45 -210 14 -50 54 -80 110 -80 34 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Al\u00e9m da resist\u00eancia \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o financeira relevante, h\u00e1 um tabu at\u00e1vico a quebrar. Como pode uma coisa reivindicar algo? Outras Palavras Por&nbsp;Panashe Chigumadzi Publicado 09\/06\/2026 \u00e0s 18:07 &#8211; Atualizado 09\/06\/2026 \u00e0s 18:15 Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas<\/p>\n","protected":false},"author":5419,"featured_media":3943,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_gspb_post_css":"","footnotes":""},"categories":[972],"tags":[623],"class_list":["post-3942","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","tag-colinialismo"],"acf":[],"a3_pvc":{"activated":true,"total_views":2,"today_views":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5419"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3942"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3942\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3945,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3942\/revisions\/3945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}