{"id":4057,"date":"2026-07-23T12:38:15","date_gmt":"2026-07-23T15:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=4057"},"modified":"2026-07-23T12:38:27","modified_gmt":"2026-07-23T15:38:27","slug":"brasil-quem-na-academia-e-contra-a-universidade-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/brasil-quem-na-academia-e-contra-a-universidade-indigena\/","title":{"rendered":"BRASIL: Quem na Academia \u00e9 contra a Universidade Ind\u00edgena?"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><\/h1>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resposta a um artigo que expressa lapsos de uma elite intelectual que se enclausurou em seu pr\u00f3prio mundo. Com anacronismo euroc\u00eantrico, reproduz a exclus\u00e3o e o apagamento dos saberes tradicionais. E a pr\u00f3pria Ci\u00eancia que diz defender derruba sua tese<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/category\/descolonizacoes\/\">Descoloniza\u00e7\u00f5es<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/rafaelguerradeo\/\">Rafael Guerra de Oliveira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado 22\/07\/2026 \u00e0s 17:07 &#8211; OutrasPalavras<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/educacao-indigena-_-mario-vilela_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3191468\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: M\u00e1rio Vilela\/Funai<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 id=\"i-o-fisico-do-alto-da-montanha\" class=\"wp-block-heading\"><strong>I. O F\u00cdSICO DO ALTO DA MONTANHA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h4 id=\"boletim-outras-palavras\" class=\"wp-block-heading\">Boletim Outras Palavras<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do siteAssinar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 na mec\u00e2nica qu\u00e2ntica um princ\u00edpio fundamental: o ato de observar altera o sistema observado. O professor Marcelo Yamashita, do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da UNESP, parece ter esquecido essa li\u00e7\u00e3o elementar ao sentar-se diante de seu computador e produzir, para a&nbsp;<em>Quest\u00e3o de Ci\u00eancia<\/em>, um texto que merece menos o t\u00edtulo de \u201cartigo\u201d e mais o de&nbsp;<em>colapso da fun\u00e7\u00e3o de onda argumentativa<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O alvo de sua cotovelada, desferida de lado, quase \u00e0s escondidas, \u00e9 a Universidade Federal Ind\u00edgena (Unind), criada pela Lei n\u00ba 15.418\/2026. Qual objetivo? No fundo, a gente sabe. Uma universidade concebida para promover ensino, pesquisa e extens\u00e3o com base nos saberes e nas culturas dos povos origin\u00e1rios. O diagn\u00f3stico de Yamashita? Que isso seria uma \u201cdistor\u00e7\u00e3o do conceito de universidade\u201d. A prova? Bem, a prova \u00e9 o que ele chama de \u201cidentitarismo\u201d, palavra que, em seu vocabul\u00e1rio, parece funcionar como um xingamento elegante para qualquer coisa que n\u00e3o se encaixe em seu modelo de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema, caro leitor, \u00e9 que Yamashita comete o pecado capital da ci\u00eancia. Em outras palavras, ele&nbsp;confunde seu modelo com a realidade. O Senado \u2013 que como se sabe, n\u00e3o d\u00e1 para esperar muito dessa casa, ao discutir a Unind, falou em \u201crepara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d. Mas repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, para Yamashita, parece ser um conceito t\u00e3o estranho quanto a ideia de que um el\u00e9tron possa estar em dois lugares ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4.png\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h3 id=\"ii-o-observador-que-cria-a-propria-realidade-e-acredita-nisso\" class=\"wp-block-heading\"><strong>II. O OBSERVADOR QUE CRIA A PR\u00d3PRIA REALIDADE (E ACREDITA NISSO)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pe\u00e7o licen\u00e7a para invocar o f\u00edsico C\u00e9sar Lenzi, professor do ITA, que anda \u00e0s turras com certas interpreta\u00e7\u00f5es da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica. Lenzi, com a paci\u00eancia de quem j\u00e1 viu esse filme centenas de vezes, tem alertado que o famoso \u201cato de observar altera o sistema observado\u201d n\u00e3o significa que&nbsp;<em>voc\u00ea<\/em>, caro observador, cria a realidade com seu olhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois bem, o professor Yamashita parece ter entendido exatamente o oposto. Ele criou uma realidade inteira com direito a paredes, teto e um belo espantalho no centro da sala e agora vive dentro dela, convencido de que \u00e9 o mundo real. Nessa realidade particular, a Universidade Federal Ind\u00edgena \u00e9 uma \u201cdistor\u00e7\u00e3o\u201d, os saberes tradicionais s\u00e3o \u201cplanos incomensur\u00e1veis\u201d, e a greve dos estudantes \u00e9 algo a ser desprezado e talvez isso revele mais sobre o autor do que sobre a greve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema, professor, \u00e9 que a f\u00edsica qu\u00e2ntica n\u00e3o funciona assim. O observador n\u00e3o cria a realidade com sua mera presen\u00e7a \u2013 o que importa \u00e9 se h\u00e1 ou n\u00e3o um&nbsp;<em>detector<\/em>&nbsp;registrando a passagem do f\u00f3ton.&nbsp;O senhor, ao escrever aquele texto, n\u00e3o estava detectando nada. Estava&nbsp;<em>projetando<\/em>. Estava vendo no outro aquilo que s\u00f3 existe dentro do seu pr\u00f3prio po\u00e7o de potencial, um po\u00e7o que, pelo visto, tem paredes bem mais altas do que as do IFT.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Lenzi critica com propriedade \u00e9 exatamente essa confus\u00e3o entre&nbsp;<em>intera\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>cria\u00e7\u00e3o<\/em>. A f\u00edsica n\u00e3o diz que sua consci\u00eancia molda o universo, mas diz que o ato de medir envolve uma intera\u00e7\u00e3o que afeta o sistema. O senhor, Yamashita, n\u00e3o mediu nada. O senhor&nbsp;<em>inventou<\/em>&nbsp;um sistema, uma universidade ind\u00edgena que n\u00e3o existe fora de seus medos e depois mediu&nbsp;<em>ele<\/em>. O resultado? O mesmo de sempre \u2013 voc\u00ea encontrou exatamente o que estava procurando. Chamamos isso, em f\u00edsica, de&nbsp;<em>vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o<\/em>. Em psican\u00e1lise, de&nbsp;<em>proje\u00e7\u00e3o<\/em>. Em bom portugu\u00eas \u2013&nbsp;viagem.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"iii-o-principio-da-incerteza-aplicado-as-opinioes\" class=\"wp-block-heading\"><strong>III. O PRINC\u00cdPIO DA INCERTEZA APLICADO \u00c0S OPINI\u00d5ES<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento central de Yamashita \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil quanto uma fun\u00e7\u00e3o de onda n\u00e3o normalizada: se a universidade existe para produzir ci\u00eancia, e ci\u00eancia \u00e9 um m\u00e9todo universal, ent\u00e3o n\u00e3o haveria raz\u00e3o para uma universidade \u201cind\u00edgena\u201d. Erro crasso, digno de um calouro no primeiro dia de aula de mec\u00e2nica qu\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos por partes. A ci\u00eancia, em especial, a F\u00edsica, a Qu\u00edmica e a Biologia podem ter pretens\u00f5es de universalidade em seu m\u00e9todo. Mas a&nbsp;<em>universidade<\/em>? Essa inven\u00e7\u00e3o medieval europeia \u00e9 profundamente particular em sua hist\u00f3ria, em suas hierarquias, em seus mecanismos de exclus\u00e3o, silenciamento e apagamento. Yamashita parece acreditar que a universidade brasileira \u00e9 um espa\u00e7o neutro, ass\u00e9ptico, onde o conhecimento flui livremente, independente de quem o produz ou de onde vem. Essa \u00e9 a fantasia do cientista que nunca precisou olhar para o pr\u00f3prio ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que a met\u00e1fora qu\u00e2ntica se torna irresist\u00edvel. O professor parece operar como se o conhecimento fosse um g\u00e1s ideal, part\u00edculas id\u00eanticas, indistingu\u00edveis, movendo-se em um recipiente homog\u00eaneo. Mas a universidade brasileira n\u00e3o \u00e9 um g\u00e1s ideal. \u00c9 um sistema fortemente interagente, com correla\u00e7\u00f5es de longo alcance, com potenciais que privilegiam certas trajet\u00f3rias em detrimento de outras. A Unind n\u00e3o \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o desse sistema. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma&nbsp;transi\u00e7\u00e3o de fase<strong>,<\/strong>&nbsp;e toda transi\u00e7\u00e3o de fase, como sabemos, \u00e9 acompanhada de ru\u00eddos, de resist\u00eancias, de medos. O ru\u00eddo, no caso, chama-se Marcelo Yamashita.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/armasdacritica.boitempoeditorial.com.br\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a cole\u00e7\u00e3o de equ\u00edvocos de Yamashita n\u00e3o se encerra a\u00ed. H\u00e1 ainda o argumento \u2013 se \u00e9 que d\u00e1 para chamar de argumento, mas que, em termos ret\u00f3ricos, funciona como um decaimento beta sem conserva\u00e7\u00e3o de energia \u2013 a compara\u00e7\u00e3o esp\u00faria com o caso Henry Borel. Sim, caro leitor: o f\u00edsico te\u00f3rico, em sua canelada argumentativa, achou pertinente associar a cria\u00e7\u00e3o da Unind a um julgamento criminal. \u00c9 o tipo de salto l\u00f3gico que faria qualquer calouro ser interrompido no meio de uma apresenta\u00e7\u00e3o: o que um processo judicial tem a ver com uma lei que cria uma universidade? Absolutamente nada. A n\u00e3o ser que se queira, de forma desonesta, plantar o espectro de um \u2018ativismo judici\u00e1rio temer\u00e1rio\u2019 onde ele n\u00e3o existe. \u00c9 o argumento do desespero, aquele que revela n\u00e3o a fragilidade do objeto criticado, mas a pen\u00faria intelectual de quem critica.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"iv-o-que-leite-lopes-lattes-frota-pessoa-e-ashauer-teriam-a-dizer\" class=\"wp-block-heading\"><strong>IV. O QUE LEITE LOPES, LATTES, FROTA PESSOA E ASHAUER TERIAM A DIZER<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui cabe uma pausa para invocar a mem\u00f3ria de f\u00edsicos e f\u00edsicas que, ao contr\u00e1rio de Yamashita, compreenderam que a ci\u00eancia n\u00e3o flutua no v\u00e1cuo, met\u00e1fora ali\u00e1s apropriada para quem estuda \u00e1tomos ultrafrios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 Leite Lopes&nbsp;(1918-2006), te\u00f3rico de campos e part\u00edculas de renome internacional, n\u00e3o se limitou a fazer f\u00edsica de ponta. Dedicou-se ao desenvolvimento nacional e combateu a ditadura com a mesma convic\u00e7\u00e3o com que enfrentava os problemas da teoria qu\u00e2ntica. Leite Lopes sabia que n\u00e3o adianta desvendar os mist\u00e9rios dos b\u00f3sons se n\u00e3o se est\u00e1 atento \u00e0s mis\u00e9rias do Brasil. Sabia que a f\u00edsica, para ser verdadeiramente universal, precisava primeiro ser profundamente local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C\u00e9sar Lattes&nbsp;(1924-2005), o \u00fanico cientista inscrito no Livro dos Her\u00f3is e Hero\u00ednas da P\u00e1tria, mostrou ao mundo que era poss\u00edvel um jovem brasileiro fazer uma descoberta importante na f\u00edsica universal. Mas Lattes n\u00e3o se contentou com o reconhecimento internacional: montou laborat\u00f3rios, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF) e dedicou sua vida a construir uma ci\u00eancia que fosse, acima de tudo,&nbsp;brasileira. Lattes sabia que a descoberta do m\u00e9son pi n\u00e3o valeria de nada se n\u00e3o houvesse jovens brasileiros, de todas as origens, tendo a oportunidade de repetir o feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria da f\u00edsica brasileira n\u00e3o se faz apenas com homens brancos. \u00c9 aqui que a vis\u00e3o de Yamashita revela sua segunda camada de cegueira. Elisa Frota Pessoa&nbsp;(1921-2018) foi uma das primeiras mulheres a se formar em f\u00edsica no Brasil, em 1942. Pioneira da ci\u00eancia no pa\u00eds, tamb\u00e9m foi uma das fundadoras do CBPF, ao lado de Lattes, Leite Lopes e Mario Schenberg. Enfrentou a resist\u00eancia familiar, seu pai acreditava que o destino feminino deveria restringir-se ao casamento. Trabalhou sem remunera\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser contratada, e, ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do primeiro marido, enfrentou forte preconceito social por sua condi\u00e7\u00e3o de mulher, cientista e separada em um per\u00edodo anterior \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio no Brasil. Em 1950, publicou o primeiro artigo cient\u00edfico do CBPF, fornecendo evid\u00eancias experimentais em apoio \u00e0 teoria \u201cV-A\u201d das intera\u00e7\u00f5es fracas. Em 1969, foi aposentada compulsoriamente pelo AI-5, mas n\u00e3o parou, trabalhou no ex\u00edlio na Europa e nos Estados Unidos, colaborou com a forma\u00e7\u00e3o de jovens f\u00edsicos brasileiros e, com a anistia, retornou ao CBPF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sonja Ashauer&nbsp;(1923-1948) foi a primeira brasileira a concluir um doutorado em f\u00edsica, feito que, por si s\u00f3, j\u00e1 a colocaria na hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o para por a\u00ed, foi aluna de Gleb Wataghin na USP&nbsp;e, em 1945, seguiu para a Universidade de Cambridge sob recomenda\u00e7\u00e3o de Wataghin para fazer seu doutorado com ningu\u00e9m menos que&nbsp;Paul Dirac, Nobel de F\u00edsica em 1933. Sua tese,&nbsp;<em>\u201cProblems on electrons and electromagnetic radiation\u201d<\/em>, explorava a fronteira da eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica. Foi a primeira mulher brasileira eleita membro da&nbsp;<em>Cambridge<\/em>&nbsp;<em>Philosophical Society<\/em>. Retornou ao Brasil em 1948, mas faleceu poucos dias depois, aos 25 anos, v\u00edtima de uma pneumonia. Sua carreira foi interrompida quando come\u00e7ava a brilhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Leite Lopes, Lattes, Frota Pessoa e Ashauer tinham, e Yamashita parece n\u00e3o ter, \u00e9 a compreens\u00e3o de que a f\u00edsica e a universidade n\u00e3o existem para si mesmas. Existem para um pa\u00eds, para um povo, para uma hist\u00f3ria concreta. Elisa Frota Pessoa n\u00e3o esperou o mundo se tornar \u201cneutro\u201d para fazer ci\u00eancia, ela enfrentou o mundo como ele era \u2013 machista, autorit\u00e1rio e excludente \u2013 e construiu institui\u00e7\u00f5es. Sonja Ashauer n\u00e3o esperou que a f\u00edsica a acolhesse, ela foi a Cambridge, estudou com Dirac e mostrou que uma mulher brasileira podia estar na fronteira do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Yamashita, ao criticar a Unind, parece acreditar que a universidade \u00e9 um espa\u00e7o onde o conhecimento flui livremente, independente de quem o produz ou de onde vem. Mas a hist\u00f3ria de Frota Pessoa, Ashauer e de tantas outras, mostra exatamente o oposto, isto \u00e9, a universidade brasileira foi, por d\u00e9cadas, um espa\u00e7o de exclus\u00e3o. E \u00e9 preciso luta para abri-la e transform\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, a Unind \u00e9 profundamente&nbsp;lattesiana,&nbsp;frota-pessoana e ashaueriana, \u00e9 a aposta de que o conhecimento floresce onde h\u00e1 diversidade, onde h\u00e1 di\u00e1logo, onde h\u00e1 reconhecimento de que outros saberes tamb\u00e9m s\u00e3o saberes. \u00c9 a aposta de que a pr\u00f3xima Sonja Ashauer pode vir de uma das 391 etnias ind\u00edgenas e que, desta vez, o pa\u00eds estar\u00e1 pronto para acolh\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo sistema em equil\u00edbrio inst\u00e1vel, quando perturbado, revela suas fraturas. A fala de Yamashita \u00e9 essa perturba\u00e7\u00e3o, mas as fraturas n\u00e3o est\u00e3o na Unind, e sim nos curr\u00edculos de F\u00edsica da pr\u00f3pria UNESP. Na minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, analisei os Projetos Pol\u00edtico-Pedag\u00f3gicos e os planos de ensino dos seis cursos de Licenciatura em F\u00edsica da UNESP, entre eles, aquele onde Yamashita atua. O diagn\u00f3stico foi inequ\u00edvoco: a circula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira e ind\u00edgena nesses documentos \u00e9 diminuta, quando n\u00e3o inexistente. Os processos formativos ali desenhados s\u00e3o marcados pela hegemonia do conhecimento euro-norte-americano, pela tecnifica\u00e7\u00e3o, pelo individualismo, pela racializa\u00e7\u00e3o e pelo que chamo de \u2018sonambulismo intelectual\u2019, isto \u00e9, uma forma\u00e7\u00e3o que adormece futuros professores para a realidade concreta do pa\u00eds onde atuar\u00e3o. Se Yamashita quer criticar a Unind, que comece por olhar para o curr\u00edculo que ele pr\u00f3prio ajuda a perpetuar. Porque n\u00e3o \u00e9 na aldeia que a f\u00edsica est\u00e1 sendo apagada, \u00e9 na salas de aula da UNESP.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"v-krenak-kopenawa-e-o-dialogo-de-mundos\" class=\"wp-block-heading\"><strong>V. KRENAK, KOPENAWA E O DI\u00c1LOGO DE MUNDOS<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E que mundos s\u00e3o esses que Yamashita se recusa a enxergar? S\u00e3o os mundos de&nbsp;Ailton Krenak, fil\u00f3sofo e pensador ind\u00edgena imortal da Academia Brasileira de Letras, que nos lembra que a universidade precisa aprender a ouvir aqueles que por s\u00e9culos foram silenciados. S\u00e3o os mundos de&nbsp;Davi Kopenawa, xam\u00e3 yanomami, que nos ensina que h\u00e1 outras formas de conhecer, formas que n\u00e3o envolvem \u201cfixar os olhos em peles de papel\u201d, mas que nem por isso s\u00e3o menos rigorosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kopenawa nos desafia a reconhecer que o xamanismo n\u00e3o \u00e9 o oposto da ci\u00eancia, mas uma outra maneira de habitar o mundo, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es com os seres e com a floresta. A Unind \u00e9, precisamente, o espa\u00e7o onde esse encontro, esse di\u00e1logo entre mundos pode acontecer e florescer. N\u00e3o para substituir a f\u00edsica de p\u00f3sitrons por rituais de pajelan\u00e7a, que \u00e9 o espantalho que Yamashita insiste em queimar, mas para&nbsp;alargar o horizonte&nbsp;do que entendemos por conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a hist\u00f3ria da ci\u00eancia nos ensina que todo conhecimento ganha quando se abre a novas janelas. A f\u00edsica n\u00e3o se fechou quando incorporou a relatividade ou a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, pelo contr\u00e1rio, expandiu-se. A Unind \u00e9 exatamente isso \u2013 uma nova janela. N\u00e3o a destrui\u00e7\u00e3o da f\u00edsica, mas a amplia\u00e7\u00e3o de seu campo de vis\u00e3o. N\u00e3o o fim da ci\u00eancia, mas o come\u00e7o de uma ci\u00eancia mais situada, mais generosa, mais aberta, mais capaz de enxergar o que antes ficava fora do enquadramento.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"vi-para-alem-da-critica-o-horizonte-que-yamashita-nao-enxerga\" class=\"wp-block-heading\"><strong>VI. PARA AL\u00c9M DA CR\u00cdTICA: O HORIZONTE QUE YAMASHITA N\u00c3O ENXERGA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rebater o argumento de Yamashita \u00e9 necess\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Porque, no fim das contas, a pergunta que fica no ar n\u00e3o \u00e9&nbsp;<em>se<\/em>&nbsp;a Unind deve existir, ela j\u00e1 existe, e \u00e9 lei. A pergunta que fica \u00e9:&nbsp;para qu\u00ea?&nbsp;E, mais importante:&nbsp;como garantir que essa e outras universidades n\u00e3o formem profissionais para o desemprego, para a subocupa\u00e7\u00e3o ou para a fuga de c\u00e9rebros?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque aqui est\u00e1 o ponto que Yamashita, na pressa de fazer seu diagn\u00f3stico, convenientemente esqueceu, de nada adianta formar f\u00edsicos, engenheiros, antrop\u00f3logos ou professores se o pa\u00eds n\u00e3o oferece a eles&nbsp;condi\u00e7\u00f5es concretas de trabalho, pesquisa e desenvolvimento. De nada adianta expandir o acesso \u00e0 universidade se o mercado de trabalho segue sendo um funil que engole quem tem QI (Quem Indica) e cospe o resto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que est\u00e1 em jogo, portanto, \u00e9 muito maior do que uma universidade ind\u00edgena. Est\u00e1 em jogo&nbsp;um projeto de na\u00e7\u00e3o. Um projeto que n\u00e3o se contenta com migalhas or\u00e7ament\u00e1rias para a educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o trata a ci\u00eancia como gasto, que n\u00e3o v\u00ea o conhecimento como um luxo para poucos. Um projeto que entende que universidade e desenvolvimento nacional s\u00e3o duas faces da mesma moeda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leite Lopes, Frota Pessoa e Lattes sabiam disso. Por isso, n\u00e3o se limitaram a fazer f\u00edsica de ponta. Dedicaram-se a construir&nbsp;<em>institui\u00e7\u00f5es<\/em>&nbsp;como o CBPF, o CNPq, a pr\u00f3pria ideia de que a ci\u00eancia brasileira poderia ser protagonista. Eles sabiam que n\u00e3o bastava formar pesquisadores, era preciso que o pa\u00eds tivesse&nbsp;ind\u00fastria, tecnologia, pol\u00edticas p\u00fablicas e empregos&nbsp;para absorv\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Unind, nesse sentido, \u00e9 um&nbsp;sintoma<strong>&nbsp;\u2013<\/strong>&nbsp;um bom sintoma. Ela escancara que a universidade brasileira, em sua maioria, continua sendo um espa\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o de elites, onde o saber tradicional \u00e9 folclore e o saber cient\u00edfico \u00e9 monop\u00f3lio. Mas tamb\u00e9m escancara que&nbsp;\u00e9 poss\u00edvel fazer diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que falta? Falta&nbsp;investimento real. Falta&nbsp;plano de desenvolvimento nacional&nbsp;que conecte o que se aprende nas universidades ao que o pa\u00eds precisa produzir. Falta&nbsp;pol\u00edtica de empregabilidade&nbsp;que garanta a quem estuda, especialmente a quem vem de hist\u00f3rias de exclus\u00e3o, que o esfor\u00e7o de anos n\u00e3o terminar\u00e1 em subemprego ou em \u00eaxodo para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de \u201cinstrumentalizar\u201d a universidade, transformando-a em bra\u00e7o do mercado. Trata-se de reconhecer que&nbsp;a universidade n\u00e3o \u00e9 uma bolha. Ela forma pessoas que v\u00e3o atuar em hospitais, escolas, ind\u00fastrias, laborat\u00f3rios, aldeias e periferias. Se o pa\u00eds n\u00e3o oferece a essas pessoas um ch\u00e3o onde pisar, a universidade vira uma m\u00e1quina de produzir frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Yamashita, com sua vis\u00e3o de g\u00e1s ideal, parece acreditar que a universidade existe para produzir papers e nada mais. Ledo engano. A universidade existe, ou deveria existir para&nbsp;transformar o pa\u00eds. E transformar o pa\u00eds exige que o conhecimento produzido dentro dela encontre eco fora dela. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m vale. Exige que o estudante ind\u00edgena que entra na Unind saiba que, ao se formar, haver\u00e1 um lugar para ele, n\u00e3o como \u201ccotista\u201d ou \u201crepresentante\u201d, mas como&nbsp;profissional qualificado&nbsp;em um pa\u00eds que finalmente aprendeu a valorizar sua diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 isso que est\u00e1 em disputa. N\u00e3o \u00e9 \u201cidentitarismo\u201d. \u00c9&nbsp;desenvolvimento com justi\u00e7a social. \u00c9 a aposta de que o Brasil pode ser mais do que uma col\u00f4nia de exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima e importa\u00e7\u00e3o de conhecimento. \u00c9 a recusa em aceitar que a ci\u00eancia seja um privil\u00e9gio de poucos enquanto a maioria sobrevive com o que sobra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Unind \u00e9 um passo. N\u00e3o o primeiro, mas o pr\u00f3ximo \u2013 dado no presente, e aqui dirijo essa provoca\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas a Yamashita, mas a todos que pensam como ele e&nbsp;destroem as pontes&nbsp;entre o que se aprende e o que se vive. Entre o laborat\u00f3rio e a f\u00e1brica. Entre a sala de aula e a aldeia. Entre a pesquisa e a pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Yamashita quer realmente defender a universidade, que comece a defender&nbsp;investimentos s\u00f3lidos&nbsp;nela. Que defenda&nbsp;sal\u00e1rios dignos para professores e t\u00e9cnicos. Que defenda&nbsp;bolsas de pesquisa que n\u00e3o sejam esmolas. Que defenda&nbsp;um plano nacional de ci\u00eancia e tecnologia&nbsp;que n\u00e3o seja descontinuado a cada troca de governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, no fim das contas, a maior amea\u00e7a \u00e0 universidade n\u00e3o \u00e9 a Unind. \u00c9 o&nbsp;descaso. \u00c9 o or\u00e7amento que encolhe em nome do&nbsp;<em>arcabou\u00e7o fiscal<\/em>. \u00c9 a pesquisa que falta verba. \u00c9 o pesquisador que precisa emigrar para ter condi\u00e7\u00f5es de trabalhar. \u00c9 o aluno que se forma e n\u00e3o encontra emprego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contra isso, o texto de Yamashita n\u00e3o diz uma palavra. Prefere atacar um espantalho. Enquanto isso, o fogo \u2013 o fogo real que corr\u00f3i a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 continua queimando. E ele, com sua caneta, continua achando que o problema \u00e9 o outro.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"vii-a-licao-de-casa\" class=\"wp-block-heading\"><strong>VII. A LI\u00c7\u00c3O DE CASA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 que o professor Yamashita \u00e9 f\u00edsico te\u00f3rico e parece gostar de analogias, proponho um exerc\u00edcio, isto \u00e9, mais uma&nbsp;li\u00e7\u00e3o de casa,pois como nos lembra Freire (2001), \u201co aprendizado do ensinante ao ensinar se verifica \u00e0 medida em que o ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente dispon\u00edvel a repensar o pensado, rever-se em suas posi\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Li\u00e7\u00e3o 1<\/strong>: Pegue a equa\u00e7\u00e3o de Schr\u00f6dinger para uma part\u00edcula em um po\u00e7o de potencial infinito. O po\u00e7o \u00e9 a universidade que o senhor conhece, com suas paredes bem definidas, seus n\u00edveis de energia discretos, suas fun\u00e7\u00f5es de onda bem comportadas. Agora, imagine que esse po\u00e7o \u00e9 subitamente expandido para incluir novos estados, novas configura\u00e7\u00f5es, novas possibilidades que antes estavam exclu\u00eddas por uma barreira de potencial que o senhor sequer enxergava. Calcule a nova fun\u00e7\u00e3o de onda. O que o senhor encontra?\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Li\u00e7\u00e3o 2<\/strong>: O senhor argumenta que saberes tradicionais e cient\u00edficos ocupam \u201cplanos\u201d distintos e incomensur\u00e1veis. Pois bem, na mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, part\u00edculas podem estar em superposi\u00e7\u00e3o de estados. O senhor, que estuda \u00e1tomos ultrafrios, deveria saber disso. Por que n\u00e3o aplicar o princ\u00edpio da superposi\u00e7\u00e3o ao conhecimento? Por que insistir em uma vis\u00e3o bin\u00e1ria, excludente, quando a pr\u00f3pria f\u00edsica que o senhor pratica nos ensina que a realidade \u00e9 muito mais complexa e multifacetada?<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Li\u00e7\u00e3o 3<\/strong>: Leia, com aten\u00e7\u00e3o, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de F\u00edsica. Elas falam em formar um profissional \u201ccapaz de abordar e tratar problemas novos e tradicionais\u201d e \u201csempre preocupado em buscar novas formas do saber\u201d. Onde est\u00e1 essa preocupa\u00e7\u00e3o em seu artigo? Onde est\u00e1 a abertura ao novo, ao diferente, ao que desafia suas categorias pr\u00e9vias?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h3 id=\"viii-o-espectro-eletromagnetico-da-ignorancia\" class=\"wp-block-heading\"><strong>VIII. O ESPECTRO ELETROMAGN\u00c9TICO DA IGNOR\u00c2NCIA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Termino com uma provoca\u00e7\u00e3o \u2013 se Yamashita realmente acredita que a universidade deve ser um espa\u00e7o exclusivo de um tipo de saber, que ele mesmo se pergunte por que passa tanto tempo tentando demonstrar a superioridade de um sobre o outro. Quem est\u00e1 seguro de sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa passar o tempo todo provando que o outro \u00e9 inferior ou est\u00e1 errado.&nbsp;A inseguran\u00e7a do professor \u00e9 o que h\u00e1 de mais cient\u00edfico em seu artigo e, tamb\u00e9m o que h\u00e1 de mais pat\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Unind n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 ci\u00eancia. \u00c9 uma amea\u00e7a, sim, \u00e0 ci\u00eancia&nbsp;<em>como ela \u00e9 praticada<\/em>&nbsp;\u2013 branca, masculina, europeia em sua forma, embora tropical em sua geografia. E essa amea\u00e7a \u00e9 salutar. Porque a universidade que n\u00e3o se questiona, que n\u00e3o se abre, que n\u00e3o se reinventa, est\u00e1 condenada \u00e0 irrelev\u00e2ncia. A f\u00edsica de poucos corpos que Yamashita estuda com tanto afinco \u00e9 fascinante. Mas de que adianta compreender as for\u00e7as efetivas entre tr\u00eas corpos se n\u00e3o se compreende as for\u00e7as que atuam entre corpos sociais? De que adianta desvendar estados de Efimov se se \u00e9 cego aos estados de exclus\u00e3o que operam diante de seus olhos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como f\u00edsico formado pela mesma UNESP que hoje abriga o professor Yamashita, sinto uma vergonha particular. N\u00e3o apenas pela qualidade do texto, que faria qualquer orientando de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica corar, mas pelo que ele revela sobre o estado de nossa forma\u00e7\u00e3o. A f\u00edsica que n\u00e3o se pergunta sobre sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, sobre seus pr\u00f3prios silenciamentos, sobre seus pr\u00f3prios privil\u00e9gios, \u00e9 uma f\u00edsica que se conformou em ser cega e surda para o mundo. E uma f\u00edsica surda para o mundo \u00e9 uma f\u00edsica que, mais cedo ou mais tarde, deixar\u00e1 de ser ouvida. Yamashita deu sua cotovelada. Mas, como todo golpe desferido de lado, ele esqueceu de olhar para o pr\u00f3prio flanco. O flanco, professor, \u00e9 o mundo que o senhor escolheu n\u00e3o ver.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL.&nbsp;<strong>Lei n\u00ba 15.418, de 28 de maio de 2026<\/strong>. Disp\u00f5e sobre a cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal Ind\u00edgena (Unind). Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, Bras\u00edlia, 2026. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2023-2026\/2026\/lei\/l15418.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2023-2026\/2026\/lei\/l15418.htm<\/a>. Acesso em: 16 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<strong>Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de F\u00edsica<\/strong>. Bras\u00edlia: MEC\/CNE, 2004. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/cne\/pdf\/normas-classificadas-por-assunto\/diretrizes-curriculares-cursos-de-graduacao\/ces1304.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/cne\/pdf\/normas-classificadas-por-assunto\/diretrizes-curriculares-cursos-de-graduacao\/ces1304.pdf<\/a>. Acesso em: 16 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREIRE, Paulo. Carta de Paulo Freire aos professores.&nbsp;<em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 15, n. 42, p. 259-268, maio\/ago. 2001. DOI: 10.1590\/s0103-40142001000200013. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ea\/a\/QvgY7SD7XHW9gbW54RKWHcL\/?format=pdf&amp;lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/ea\/a\/QvgY7SD7XHW9gbW54RKWHcL\/?format=pdf&amp;lang=pt<\/a>. Acesso em: 16 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Rafael Gon\u00e7alves.&nbsp;<strong>Entre silenciamentos e apagamentos: ecos do estudo da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena nos cursos de F\u00edsica da UNESP<\/strong>. 2024. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o para a Ci\u00eancia) \u2013 Faculdade de Ci\u00eancias, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SENADO FEDERAL.&nbsp;<strong>Repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e inclus\u00e3o: entenda a cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal Ind\u00edgena<\/strong>. Infomaterias, Bras\u00edlia, jun. 2026. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/infomaterias\/2026\/06\/entenda-a-criacao-da-universidade-federal-indigena\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/infomaterias\/2026\/06\/entenda-a-criacao-da-universidade-federal-indigena<\/a>. Acesso em: 16 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">YAMASHITA, Marcelo Takeshi.&nbsp;<strong>A distor\u00e7\u00e3o do conceito de universidade<\/strong>. Revista Quest\u00e3o de Ci\u00eancia, 15 jun. 2026. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.revistaquestaodeciencia.com.br\/artigo\/2026\/06\/15\/distorcao-do-conecito-de-universidade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.revistaquestaodeciencia.com.br\/artigo\/2026\/06\/15\/distorcao-do-conecito-de-universidade<\/a>. Acesso em: 16 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Com anacronismo euroc\u00eantrico, reproduz a exclus\u00e3o e o apagamento dos saberes tradicionais. E a pr\u00f3pria Ci\u00eancia que diz defender derruba sua tese Descoloniza\u00e7\u00f5es Por&nbsp;Rafael Guerra de Oliveira Publicado 22\/07\/2026 \u00e0s 17:07 &#8211; OutrasPalavras I. 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