{"id":4197,"date":"2026-09-02T12:23:33","date_gmt":"2026-09-02T15:23:33","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=4197"},"modified":"2026-09-02T12:25:53","modified_gmt":"2026-09-02T15:25:53","slug":"a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton\/","title":{"rendered":"\u201cA colonialidade \u00e9 um resqu\u00edcio estrutural do sistema colonial que permanece no tecido social, conceitual e ps\u00edquico de todos n\u00f3s\u201d. Entrevista com Viviane Bagiotto Botton"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Bagiotto Botton<\/strong>&nbsp;\u00e9 professora e pesquisadora na \u00e1rea de filosofia e literatura. Atualmente \u00e9 professora efetiva do Col\u00e9gio Pedro II do Rio de Janeiro. Possui doutorado em filosofia pela&nbsp;<strong>UNAM<\/strong>&nbsp;(Universidade Nacional Aut\u00f3noma do M\u00e9xico), desde 2016, tendo recebido men\u00e7\u00e3o honrosa pela tese defendida. Fez est\u00e1gio de doutorado nas Universidades Paris XII- Universit\u00e9 Paris-Est-Cret\u00e9il e na Paris I &#8211; Panth\u00e9on Sorbonne, em 2014. \u00c9 mestre em filosofia pela&nbsp;<strong>UFSM<\/strong>&nbsp;(Universidade Federal de Santa Maria) desde 2004, e se graduou em licenciatura em filosofia pela mesma institui\u00e7\u00e3o em 2001. Realizou p\u00f3s-doutorado em filosofia pela&nbsp;<strong>UERJ<\/strong>&nbsp;(Universidade do Estado do Rio de Janeiro), finalizado em 2020; e atualmente realiza um segundo doutorado na \u00e1rea de ci\u00eancia da literatura, pela&nbsp;<strong>UFRJ<\/strong>&nbsp;(Universidade Federal do Rio de Janeiro).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu tema de interesse s\u00e3o as quest\u00f5es ligadas ao corpo e a aus\u00eancia deste na filosofia. Em sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica surgiram algumas quest\u00f5es. Por que o corpo aparece apenas na fase moderna com&nbsp;<strong>Ren\u00e9<\/strong>&nbsp;<strong>Descartes<\/strong>&nbsp;em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 mente quando ele sempre esteve presente em todos os contextos? Para responder seus questionamentos escolheu&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/193-jornalismo-experimental\/668236-michel-foucault-a-engenharia-do-odio-social-artigo-de-alexandre-francisco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Michel Foucault<\/a>&nbsp;como principal referencial te\u00f3rico.&nbsp;<strong>Viviane<\/strong>&nbsp;<strong>Botton<\/strong>&nbsp;percebe que o corpo surge em v\u00e1rios per\u00edodos na obra de&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>, em um desses momentos disciplinando os corpos (<strong>Vigiar e Punir<\/strong>), no entanto a quest\u00e3o da sexualidade se mostra pontual sem que haja uma perspectiva de g\u00eanero na&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/576074-quarto-livro-da-historia-da-sexualidade-de-foucault-e-publicado-na-franca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hist\u00f3ria da sexualidade<\/a>&nbsp;e essa \u00e9 uma das cr\u00edticas feitas pela fil\u00f3sofa estadunidense&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/647016-judith-butler-filosofa-se-sacrificamos-uma-minoria-como-as-pessoas-trans-operamos-dentro-de-uma-logica-fascista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Judith Butler<\/a>&nbsp;ao trabalho de&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra refer\u00eancia te\u00f3rica de&nbsp;<strong>Viviane<\/strong>&nbsp;<strong>Botton<\/strong>&nbsp;\u00e9 a soci\u00f3loga argentina&nbsp;<strong>Mar\u00eda Lugones<\/strong>, feminista e pensadora decolonial. A obra de&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>&nbsp;passou a fazer sentido para Viviane quando a quest\u00e3o do corpo sob a perspectiva de&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>&nbsp;tratava da hist\u00f3ria da sexualidade, biopol\u00edtica e o corpo social. Permanecia uma lacuna, a territorialidade, mais especificamente a<strong>&nbsp;Am\u00e9rica<\/strong>&nbsp;<strong>Latina<\/strong>. O pensamento de&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>, tendo como recorte espacial a Europa poderia ser replicado integralmente na Am\u00e9rica Latina?&nbsp; Existiam lacunas quando se fazia uma leitura a partir da perspectiva do g\u00eanero.&nbsp;<strong>Viviane<\/strong>&nbsp;aponta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar corpos e sexualidade sem considerar a quest\u00e3o do territ\u00f3rio. A obra de&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>, em alguma medida responde esse questionamento, n\u00e3o apenas sob a perspectiva de&nbsp;<strong>Michel Foucault<\/strong>, ela chama para a discuss\u00e3o a colonialidade do poder, conceito que retira do soci\u00f3logo peruano&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579677-o-legado-de-anibal-quijano-para-o-pensamento-latino-americano-descolonizado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">An\u00edbal Quijano<\/a>.&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>&nbsp;aceita a tese de&nbsp;<strong>Quijano<\/strong>, mas pontua que \u00e9 necess\u00e1rio pensar que os corpos devem ser entendidos separadamente e considerados a partir territ\u00f3rios e contextos espec\u00edficos. Ou seja,&nbsp;<strong>Viviane<\/strong>&nbsp;aponta que a universalidade do pensamento \u00e9 um mito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa entrevista&nbsp;<strong>Viviane Botton<\/strong>&nbsp;traz alguns te\u00f3ricos para a discuss\u00e3o: a fil\u00f3sofa estadunidense&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/634871-a-natureza-deveria-ser-uma-reserva-de-pureza-de-inocencia-diversa-essencialmente-do-homem-entrevista-com-donna-haraway\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Donna Haraway<\/a>&nbsp;e o conceito de \u201csaber situado\u201d; o fil\u00f3sofo italiano&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/662015-armar-se-para-salvar-o-capitalismo-financeiro-artigo-de-maurizio-lazzarato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maurizio Lazzarato<\/a>&nbsp;e sua reflex\u00e3o sobre a d\u00edvida. Como popula\u00e7\u00f5es inteiras s\u00e3o marcadas pelo endividamento individual e coletivo;&nbsp;<strong>Gloria Anzald\u00faa<\/strong>, estudiosa da&nbsp;<strong>teoria cultural chicana<\/strong>, tratando de territ\u00f3rios e identidades. Apontando a fronteira como espa\u00e7o simult\u00e2neo de conflitos, hibridismo, desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<strong>Anzaldua<\/strong>&nbsp;destaca que na fronteira surgem as identidades flu\u00eddas e o pensamento mestizo \u00e9 reconhecido como fronteiri\u00e7o;&nbsp;<strong>Rosario Castellanos<\/strong>&nbsp;e as reflex\u00f5es sobre a subordina\u00e7\u00e3o feminina; Viviane traz ainda uma discuss\u00e3o interessante sobre as diferen\u00e7as te\u00f3ricas a respeito do debate interno do feminismo entre&nbsp;<strong>Mar\u00eda Lugones<\/strong>,&nbsp;<strong>Julieta<\/strong>&nbsp;<strong>Paredes<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane<\/strong>&nbsp;<strong>Botton<\/strong>&nbsp;demonstra muita erudi\u00e7\u00e3o, dom\u00ednio dos temas abordados, velocidade e pot\u00eancia em suas conclus\u00f5es, uma mente solar.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fil\u00f3sofa&nbsp;<strong>Viviane Bagiotto Botton<\/strong>, atrav\u00e9s de teleconfer\u00eancia, concedeu esta entrevista ao doutor em Hist\u00f3ria Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC\/UFRJ),&nbsp;<strong>Roberto<\/strong>&nbsp;<strong>Lima<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"eis-a-entrevista\" class=\"wp-block-heading\">Eis a entrevista.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Professora, h\u00e1 uma ambiguidade em pensamento situado que atravessa o debate brasileiro inteiro e que a senhora tem condi\u00e7\u00e3o de desfazer melhor do que quase ningu\u00e9m que trabalha com a fonte. Em Donna Haraway, que aparece na ep\u00edgrafe de sua tese de doutorado ao lado de Foucault e retorna no cap\u00edtulo final como&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/78-noticias\/575760-seriam-os-ciborgues-pos-capitalistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Manifesto Ciborgue<\/a>, o saber localizado \u00e9 uma tese sobre objetividade. A perspectiva parcial existe para escapar do truque divino de olhar de lugar nenhum e, por isso, exige mais presta\u00e7\u00e3o de contas, n\u00e3o menos. No uso corrente entre n\u00f3s, situado colou com lugar de fala, que \u00e9 outra coisa, uma categoria de autoriza\u00e7\u00e3o do discurso. As duas leituras produzem salas de aula opostas: na primeira, o aluno tem de justificar o que diz; na segunda, basta que diga de onde diz. Quando a senhora prop\u00f5e pensar a Am\u00e9rica Latina como pensamento situado, a senhora est\u00e1 afirmando uma objetividade mais forte ou a legitimidade do falante?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Come\u00e7o respondendo e discordando da quest\u00e3o. N\u00e3o vejo ambiguidade entre saber situado, fala em perspectiva, e objetividade. Se esse \u00e9 um problema exposto pela intelectualidade brasileira e internacional, parece-me um pseudoproblema. N\u00e3o h\u00e1, a meu ver, uma quest\u00e3o de objetividade, ao menos n\u00e3o num sentido que oponha o situar-se ao objetivo, porque o falar situado continua sendo objetivo: n\u00e3o perdemos a objetividade ao falar situado. O que ocorre, e que se costuma atribuir a<strong>&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/593253-estamos-vivendo-tempos-extremamente-perigosos-entrevista-com-donna-haraway\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Donna Haraway<\/a><\/strong>&nbsp;como uma das primeiras a formular esse saber situado, \u00e9 que a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala, ou de saber situado, encerra a hipocrisia de que se fala de lugar nenhum. O que ela traz \u00e0 tona \u00e9 a impossibilidade dessa posi\u00e7\u00e3o, pois todos n\u00f3s falamos de algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que o aluno em sala de aula, ainda que fale situado, esteja dispensado de justificar o que argumenta. Ele fala do lugar onde est\u00e1, de sua classe social, de sua ra\u00e7a, de seu g\u00eanero, de seu pa\u00eds, e fala inclusive numa l\u00edngua que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, atravessada por sotaques e por express\u00f5es particulares. Tudo isso situa o falante e situa o saber produzido. A ideia de saber situado traz consigo a no\u00e7\u00e3o de que todo conhecimento parte de algum lugar, de um territ\u00f3rio do qual se origina. Uma coisa n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 outra, no sentido de que n\u00e3o a descredibiliza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento mais atual, o de afirmar que n\u00e3o existe saber universal nem fala de lugar nenhum, \u00e9 uma an\u00e1lise contempor\u00e2nea sobre o fato de estarmos sempre em algum lugar, sempre falando de algum lugar. A objetividade se mant\u00e9m nos argumentos, nos dados, no que a pessoa apresenta dentro de uma pesquisa, de uma entrevista, de uma investiga\u00e7\u00e3o, de um levantamento. E ainda assim, mesmo quando se apresenta uma pesquisa objetiva, seja de trabalho de conclus\u00e3o de curso, de mestrado ou de doutorado, onde supomos que se produz conhecimento, ela ser\u00e1 sempre resultado de uma escolha, e de uma escolha que tamb\u00e9m segue crit\u00e9rios de justifica\u00e7\u00e3o e de objetividade. \u00c9 como se diss\u00e9ssemos que o saber situado n\u00e3o se op\u00f5e a que continuemos buscando apresentar uma verdade, mas que essa verdade ser\u00e1 sempre trazida do ponto de vista de quem fala. Isso n\u00e3o neutraliza a ideia de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0&nbsp;<strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, dizer que o pensamento latino-americano \u00e9 situado j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcito quando falamos em \u201cpensamento latino-americano\u201d, porque j\u00e1 estamos geolocalizando esse pensamento. Ao diz\u00ea-lo, assumimos que ele \u00e9 daqui que n\u00e3o \u00e9 neutro e que n\u00e3o se esconde numa pseudoneutralidade imposs\u00edvel. Isso quebra um pouco a ideia de universalidade, ou de que existiria uma filosofia universal e uma filosofia latino-americana. Quando exigimos um nome, muitas vezes ligado ao territ\u00f3rio, muitas vezes ligado a quest\u00f5es conceituais, como filosofia feminista ou filosofia oriental, estamos justamente refor\u00e7ando que h\u00e1 um ponto de vista, que h\u00e1 uma perspectiva. O que se tenta fazer, ao falar em pensamento situado, \u00e9 localizar tamb\u00e9m aquele pensamento que foi \u201cvendido\u201d e difundido como universal. \u00c9 claro que todas as civiliza\u00e7\u00f5es pensam e pensar\u00e3o temas gerais, como o tempo, a hist\u00f3ria, a antiguidade, o antes e o futuro, temas que de certa forma atravessam todas as culturas e todas as perspectivas; mas, quando elaborados enquanto conhecimento, ser\u00e3o sempre expressos a partir da perspectiva de quem fala. Da\u00ed a ideia de lugar de fala e de saber situado. Ter consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio pensamento, do lugar de conhecimento ou da perspectiva epistemol\u00f3gica da qual se produz conhecimento \u00e9 um avan\u00e7o na pr\u00f3pria ideia de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando exigimos um nome, muitas vezes ligado ao territ\u00f3rio, muitas vezes ligado a quest\u00f5es conceituais, como filosofia feminista ou filosofia oriental, estamos justamente refor\u00e7ando que h\u00e1 um ponto de vista, que h\u00e1 uma perspectiva \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20Quando%20exigimos%20um%20nome,%20muitas%20vezes%20ligado%20ao%20territ%C3%B3rio,%20muitas%20vezes%20ligado%20a%20quest%C3%B5es%20conceituais,%20como%20filosofia%20feminista%20ou%20filosofia%20oriental,%20estamos%20justamente%20refor%C3%A7ando%20que%20h%C3%A1%20um%20ponto%20de%20vista,%20que%20h%C3%A1%20uma%20perspectiva%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando a senhora fala desse pensamento latino-americano situado e afirma que, ao nome\u00e1-lo, j\u00e1 se estabelece uma distin\u00e7\u00e3o, n\u00e3o consigo deixar de pensar na compara\u00e7\u00e3o entre esse pensamento e o do Norte Global. Seria um contraponto a isso? Poder\u00edamos pensar nessa possibilidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Sim, e inclusive na medida em que estabelecemos essas nomenclaturas, \u00e9 justamente para localizar a produ\u00e7\u00e3o do saber. Falar de&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/657437-o-sul-global-nao-e-um-ponto-no-mapa-mundial-e-uma-condicao-estrutural-de-dependencia-e-subordinacao-tecnologica-entrevista-especial-com-mardochee-ogecime\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sul Global<\/a>&nbsp;em contraposi\u00e7\u00e3o ao&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/632370-o-norte-global-se-sustenta-com-o-sofrimento-do-sul-a-america-lanca-a-europa-um-apelo-pela-cidadania-integral-de-um-planeta-que-esta-se-afogando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Norte Global<\/a>&nbsp;\u00e9 incluir essas diferen\u00e7as. \u00c9 nomear como n\u00e3o universal aquele pensamento que se dizia universal. O saber situado, como quando dizemos que o pensamento \u00e9 latino-americano, j\u00e1 nos coloca nesse lugar, atribuindo certa identidade \u00e0 Am\u00e9rica Latina e nomeando geolocalmente tamb\u00e9m o pensamento europeu. \u00c9 como desuniversalizar o que n\u00e3o \u00e9 universal, o que \u00e9 local.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/youtube.com\/watch?v=Mfio1ZVBoWQ%3Fsi%3DbYb2LFS6PSpu_w7Z\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A senhora entra numa turma de adolescentes que passaram as \u00faltimas horas dentro de um sistema que lhes atribui m\u00e9trica, ranking, visibilidade condicionada e economia da aten\u00e7\u00e3o, e vai falar com eles sobre colonialidade. A senhora j\u00e1 descreveu esse mecanismo em 2017, no cap\u00edtulo Algoritmos, d\u00edvida e empresariamento de si mesmo, publicado pela Editora UnB, trabalhando o empres\u00e1rio de si foucaultiano acoplado ao algoritmo. Se aquele diagn\u00f3stico est\u00e1 correto, e penso que est\u00e1, o dispositivo que produz aquela subjetividade disp\u00f5e de recursos incomparavelmente maiores que os do curr\u00edculo, e opera o dia inteiro. Pergunto: a aula de filosofia \u00e9 um contradispositivo capaz de disputar a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, ou \u00e9 aquilo que a senhora chamou, no artigo de 2017 sobre os MOOCs, de espa\u00e7o heterot\u00f3pico, um lugar outro que suspende a norma sem revog\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>O artigo sobre a d\u00edvida, publicado naquele livro, inspirou-se na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/3127-cesar-candiotto-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ideia foucaultiana de controle social<\/a>, de disciplina dos corpos. O texto tratava basicamente de como o algoritmo credibiliza os indiv\u00edduos diante do sistema financeiro. \u00c9 como se ele funcionasse como fiador do sujeito no mundo real, definindo o cr\u00e9dito que cada um de n\u00f3s tem. A pr\u00f3pria subjetividade se v\u00ea, ent\u00e3o, fundamentada nessa configura\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, naquilo que ela autoriza. O ensaio partiu da reflex\u00e3o que o fil\u00f3sofo italiano&nbsp;<strong>Maurizio Lazzarato<\/strong>&nbsp;faz sobre a d\u00edvida, e sobre como a subjetividade de na\u00e7\u00f5es e de popula\u00e7\u00f5es inteiras \u00e9 marcada pelo endividamento coletivo e individual. O capitalismo neoliberal molda a subjetividade pelas d\u00edvidas que contra\u00edmos ao longo da vida, sendo o algoritmo um dispositivo de controle social que produz sujeitos moldados pelas escolhas que fazem, que fazemos em nossas bolhas, nas redes sociais, e at\u00e9 nas redes acad\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A&nbsp;<strong>colonialidade<\/strong>, por sua vez, \u00e9 um resqu\u00edcio estrutural do sistema colonial que permanece no tecido social, conceitual e ps\u00edquico de todos n\u00f3s. Ao entrar numa sala de aula para discutir colonialidade com alunos imersos nesse sistema, \u00e9 preciso considerar que o algoritmo e a colonialidade permeiam igualmente as nossas estruturas. A aula de filosofia atua, sim, como&nbsp;<em>contradispositivo<\/em>, despertando a consci\u00eancia de que estamos nesse caldeir\u00e3o colonial e permitindo a reflex\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de outra topologia, de uma heterotopia. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conteudista: visa muito mais \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia cr\u00edtica, capaz de confrontar as estruturas coloniais presentes em nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O capitalismo neoliberal molda a subjetividade pelas d\u00edvidas que contra\u00edmos ao longo da vida, sendo o algoritmo um dispositivo de controle social que produz sujeitos moldados pelas escolhas que fazem, que fazemos em nossas bolhas, nas redes sociais, e at\u00e9 nas redes acad\u00eamicas \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20O%20capitalismo%20neoliberal%20molda%20a%20subjetividade%20pelas%20d%C3%ADvidas%20que%20contra%C3%ADmos%20ao%20longo%20da%20vida,%20sendo%20o%20algoritmo%20um%20dispositivo%20de%20controle%20social%20que%20produz%20sujeitos%20moldados%20pelas%20escolhas%20que%20fazem,%20que%20fazemos%20em%20nossas%20bolhas,%20nas%20redes%20sociais,%20e%20at%C3%A9%20nas%20redes%20acad%C3%AAmicas%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em Anzald\u00faa, a fronteira n\u00e3o \u00e9 figura de linguagem, \u00e9 uma linha patrulhada com mortos, descrita por ela como ferida aberta e escrita por algu\u00e9m que cresceu no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em fam\u00edlia que se deslocava entre fazendas como trabalhadores migrantes. Em sua tese de 2015, por outro lado, a senhora conclui o argumento sobre resist\u00eancia com a desterritorializa\u00e7\u00e3o e a reterritorializa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, com um aparato deleuze-guattariano, m\u00f3vel por constru\u00e7\u00e3o e aplic\u00e1vel a qualquer territ\u00f3rio. S\u00e3o duas opera\u00e7\u00f5es distintas: uma \u00e9 geopol\u00edtica e irrepet\u00edvel, a outra \u00e9 metodol\u00f3gica e transfer\u00edvel. Quando a fronteira migra do Rio Grande para uma sala de aula no Rio de Janeiro, a senhora est\u00e1 fazendo qual das duas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>O trabalho de&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/640233-mysterium-liberationis-queer-multiplicando-horizontes-teologicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gloria Anzald\u00faa<\/a>&nbsp;sobre a fronteira explora justamente o encontro de territ\u00f3rios e de identidades na fronteira do&nbsp;<strong>M\u00e9xico<\/strong>&nbsp;com os&nbsp;<strong>Estados<\/strong>&nbsp;<strong>Unidos<\/strong>. Ela a apresenta como lugar de conflito e de intenso hibridismo, onde a&nbsp;<strong>desterritorializa\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;e a&nbsp;<strong>reterritorializa\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;ocorrem o tempo todo. A fronteira, para ela, n\u00e3o \u00e9 apenas demarca\u00e7\u00e3o r\u00edgida, mas espa\u00e7o onde as coisas se misturam, transbordam e se unem, gerando uma&nbsp;<strong>mesti\u00e7agem<\/strong>. Quando trago o conceito de fronteira para a sala de aula, busco desfazer as divis\u00f5es r\u00edgidas e promover ali o encontro. Trata-se de uma desdemarca\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, que fomenta a constru\u00e7\u00e3o de identidades muito mais fluidas e reconhece o pensamento como&nbsp;<em>mestizo<\/em>, como pensamento fronteiri\u00e7o. O espa\u00e7o da sala de aula converte-se em fronteira de reflex\u00e3o sobre como as categorias coloniais podem ser desconstru\u00eddas para criar uma subjetividade expandida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os&nbsp;<strong>dispositivos disciplinares<\/strong>&nbsp;atuam na normaliza\u00e7\u00e3o dos corpos na sociedade, em sentido estritamente foucaultiano. Pensando na sala de aula, em uma turma com trinta alunos, por exemplo, a pr\u00f3pria diversidade interpessoal existente nesse espa\u00e7o, o fato de serem trinta universos distintos ali reunidos, ainda que cada um ocupe um mesmo lugar, dispostos em fileiras, e ainda que a escola e a sala de aula sejam democr\u00e1ticas e n\u00e3o discriminem individualmente cada estudante, faz desse ambiente um espa\u00e7o repleto de topologias diversas. \u00c9 um espa\u00e7o permeado de fronteiras. N\u00e3o se trata apenas de fronteiras identit\u00e1rias ou intersubjetivas: s\u00e3o fronteiras de ideias, de proje\u00e7\u00f5es, da imagina\u00e7\u00e3o e da hist\u00f3ria de cada indiv\u00edduo. Acredito que o papel do docente, tanto na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica quanto na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, consiste em permitir que esses encontros, o encontro fronteiri\u00e7o em si, se estabele\u00e7am, deixando-os fluir e refluir em todos os n\u00edveis. Nesse processo forma-se uma resist\u00eancia, compreendida tanto como rompimento quanto como manuten\u00e7\u00e3o, e que consolida esse ambiente fronteiri\u00e7o. Portanto, se utilizarmos uma met\u00e1fora para transpor a ideia de fronteira \u00e0 sala de aula, acredito que seja exatamente isso. A no\u00e7\u00e3o de fronteira aplica-se a qualquer situa\u00e7\u00e3o existencial marcada por disputas de poder e pelo encontro com o diverso. Como todo encontro pressup\u00f5e a alteridade, h\u00e1 sempre algum n\u00edvel de miscigena\u00e7\u00e3o ou&nbsp;<em>mestizagem nestes encontros.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro-me agora de que a pergunta mencionava a express\u00e3o utilizada pela pr\u00f3pria&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>, a \u201cferida aberta\u201d. Compreendo a fronteira como \u201cferida aberta\u201d justamente no sentido de que ela constitui o corte, a vala. Trata-se do limite entre dois pa\u00edses ou estados. No caso do&nbsp;<strong>Rio<\/strong>&nbsp;<strong>Bravo<\/strong>, \u00e9 o rio, a vala por onde corre a \u00e1gua, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma \u201cferida aberta\u201d porque exp\u00f5e o problema. N\u00e3o h\u00e1 oculta\u00e7\u00e3o nem cicatriza\u00e7\u00e3o: aquilo permanece vivo, evidenciando e purgando a ruptura, com a qual precisamos conviver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fronteira n\u00e3o \u00e9 apenas demarca\u00e7\u00e3o r\u00edgida, mas espa\u00e7o onde as coisas se misturam, transbordam e se unem, gerando uma mesti\u00e7agem \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20A%20fronteira%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20apenas%20demarca%C3%A7%C3%A3o%20r%C3%ADgida,%20mas%20espa%C3%A7o%20onde%20as%20coisas%20se%20misturam,%20transbordam%20e%20se%20unem,%20gerando%20uma%20mesti%C3%A7agem%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Algu\u00e9m poderia argumentar que o conceito de mestiza n\u00e3o entra em colis\u00e3o com o pensamento negro brasileiro, pois a mestiza de Anzald\u00faa nomeia uma consci\u00eancia e uma posi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma categoria racial, ao passo que Kabengele Munanga concebe a mesti\u00e7agem como elemento central da identidade brasileira, frequentemente utilizada para ocultar o racismo estrutural. Trata-se, portanto, de objetos distintos. O que a senhora prop\u00f5e constitui uma opera\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica: oferecer aos adolescentes a mesti\u00e7agem como espa\u00e7o de autorreconhecimento e de fortalecimento da identidade latino-americana. Contudo, um adolescente de treze anos numa escola no Rio de Janeiro n\u00e3o recebe uma consci\u00eancia filos\u00f3fica; ele recebe um termo que no Brasil j\u00e1 possui gram\u00e1tica institucionalizada, a gram\u00e1tica do censo e da categoria pardo. A tese de Munanga sustenta justamente que as minorias, que funcionam como maiorias silenciosas, n\u00e3o logram construir identidades pol\u00edticas mobilizadoras em virtude do ideal de branqueamento veiculado pela mesti\u00e7agem. Abdias do Nascimento foi ainda mais rigoroso nessa cr\u00edtica. A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 conceitual e operacional: o que impede que a sua aula, ao valorizar a mesti\u00e7agem, reintroduza o mesmo dispositivo descrito por Munanga?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Inicialmente, devo ressaltar que concordo com&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/624961-antropologo-kabengele-munanga-reconhece-avancos-mas-alerta-racismo-e-um-monstro-complexo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kabengele Munanga<\/a>. \u00c9 imperativo reconhecer o problema pr\u00e1tico e concreto representado pelo ideal de&nbsp;<strong>branqueamento na sociedade brasileira<\/strong>. Sob essa \u00f3tica, a concep\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>mestizagem<\/em>&nbsp;de&nbsp;<strong>Gloria<\/strong>&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;pode, inclusive, atuar de forma colaborativa com esse ideal. Existe uma diverg\u00eancia expressiva entre a no\u00e7\u00e3o de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6709-o-moderno-pactuou-com-o-atraso-e-a-civilidade-pactuou-com-a-cordialidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cmesti\u00e7agem cordial\u201d<\/a>, formulada por&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/588187-a-desconstrucao-do-ideario-dos-intelectuais-gilberto-freyre-e-sergio-buarque-de-holanda-uma-a-contestacao-a-tese-do-sociologo-jesse-souza-sobre-desigualdade-social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gilberto Freyre<\/a>&nbsp;e seus seguidores, que tende a apagar as viol\u00eancias da coloniza\u00e7\u00e3o como se tudo tivesse ocorrido de maneira harmoniosa, desconsiderando as opress\u00f5es de toda ordem e a g\u00eanese da popula\u00e7\u00e3o brasileira assentada no estupro de mulheres negras, e o debate contempor\u00e2neo dos estudos decoloniais. Que cordialidade \u00e9 essa? Quando recorremos a uma perspectiva positiva da mesti\u00e7agem, veiculada por uma autora estadunidense, ainda que chicana e de fronteira, para ressignificar o conceito, enfrentamos um problema incontorn\u00e1vel, que exige an\u00e1lise rigorosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/\/media\/pdf\/IHUOnlineEdicao498.pdf<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para contextualizar&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;adequadamente, \u00e9 preciso recordar que sua formula\u00e7\u00e3o da&nbsp;<em>mestizagem<\/em>&nbsp;se inspira no conceito de&nbsp;<strong>Jos\u00e9<\/strong>&nbsp;<strong>Vasconcelos<\/strong>, fil\u00f3sofo mexicano que publica esse livro na d\u00e9cada de 1920. Ele prop\u00f4s a utopia da&nbsp;<em><strong>Raza<\/strong>&nbsp;<strong>C\u00f3smica<\/strong><\/em>, segundo a qual a converg\u00eancia entre brancos, ind\u00edgenas e negros na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica<\/strong>&nbsp;<strong>Latina<\/strong>&nbsp;geraria a humanidade do futuro. Embora, em sentido biol\u00f3gico, isso estivesse distante do eugenismo radical de alguns pensadores brasileiros que o antecederam, a ideia do ser mesti\u00e7o como porvir positivo da humanidade, como evolu\u00e7\u00e3o resultante desse encontro, disseminou-se no horizonte latino-americano de express\u00e3o hisp\u00e2nica. A Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, onde realizei meu doutorado, tem como lema \u201c<em>Por mi raza hablar\u00e1 el esp\u00edritu<\/em>\u201d, que afirma que o esp\u00edrito da humanidade se manifestar\u00e1 por meio de nossa ra\u00e7a mesti\u00e7a latino-americana. Esse ide\u00e1rio permanece muito vivo nesse contexto, embora o Brasil tenha trilhado trajet\u00f3ria singular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;realiza, a partir dessa proposta ut\u00f3pica de Vasconcelos, \u00e9 sua transposi\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o migrante e descendente de migrantes, os&nbsp;<em>dreamers<\/em>&nbsp;nos Estados Unidos, essa popula\u00e7\u00e3o de fronteira, buscando positivar a ideia de mistura. A quest\u00e3o crucial levantada pela cita\u00e7\u00e3o de&nbsp;<strong>Munanga<\/strong>, contudo, refere-se ao risco de que essa mesti\u00e7agem oblitere a viol\u00eancia e a dor inerentes ao processo. \u00c9 exatamente a\u00ed que reside a distin\u00e7\u00e3o fundamental da mesti\u00e7agem e da fronteira em&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>: ao incorporar a no\u00e7\u00e3o de \u201cferida aberta\u201d, refere-se a uma mesti\u00e7agem que n\u00e3o oculta a diferen\u00e7a, mas a exibe. Esse \u00e9 o nexo conceitual necess\u00e1rio para compreender a exposi\u00e7\u00e3o do corte em vez de sua cicatriza\u00e7\u00e3o. No que tange \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica em sala de aula no Brasil, o desafio reside em ressignificar a mesti\u00e7agem n\u00e3o como ponto de fus\u00e3o harmoniosa, mas como exposi\u00e7\u00e3o da ferida\/fronteira. Desse modo, a teoria de&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;viabiliza a reconstru\u00e7\u00e3o de identidades m\u00faltiplas e n\u00e3o fixas, uma vez que a fronteira possui essa volatilidade: \u00e9 ambiente de disputa, n\u00e3o cordial, de reelabora\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desafio reside em ressignificar a mesti\u00e7agem n\u00e3o como ponto de fus\u00e3o harmoniosa, mas como exposi\u00e7\u00e3o da ferida\/fronteira \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20O%20desafio%20reside%20em%20ressignificar%20a%20mesti%C3%A7agem%20n%C3%A3o%20como%20ponto%20de%20fus%C3%A3o%20harmoniosa,%20mas%20como%20exposi%C3%A7%C3%A3o%20da%20ferida\/fronteira%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Portanto, a mesti\u00e7agem, mesmo concebida como valor, entraria em conflito com o ideal de branqueamento? Seria nesse sentido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Exatamente. Compreendo que o conceito de&nbsp;<em>mestiza<\/em>, inspirado em&nbsp;<strong>Vasconcelos<\/strong>&nbsp;e reelaborado por&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>, se interpretado de forma equivocada, poderia refor\u00e7ar o ideal de branqueamento, ao negar a pr\u00f3pria ideia de uma ra\u00e7a negra ou outra, tendo sempre o branqueamento como pano de fundo. No entanto, uma leitura aprofundada da autora revela um combate frontal a esse ideal. A&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/630637-mesticagem-identidade-e-liberdade-de-antonio-riserio-prefacio-de-roberto-mangabeira-unger\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mesti\u00e7agem<\/a>&nbsp;em sua obra constitui precisamente a recusa do branqueamento, configurando-se como mistura e reelabora\u00e7\u00e3o permanente. Por essa raz\u00e3o, ao utilizarmos as refer\u00eancias de&nbsp;<strong>Gloria<\/strong>&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;e das pensadoras chicanas, preservamos a grafia original em espanhol,&nbsp;<strong><em>mestiza<\/em><\/strong>, conferindo-lhe estatuto de conceito pol\u00edtico, e n\u00e3o apenas po\u00e9tico ou textual, o que a distingue da mesti\u00e7agem como \u00e9 grafada em l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A senhora possui doutorado em filosofia e cursa um segundo doutorado em ci\u00eancia da literatura. Isso n\u00e3o me parece mero detalhe curricular, mas escolha metodol\u00f3gica deliberada, que ilumina debates recorrentes entre os leitores. Arrisco afirmar que essa pista est\u00e1 inscrita no pr\u00f3prio objeto de estudo. Como a senhora demonstrou em seu artigo de 2018 na revista Hist\u00f3ria, Quest\u00f5es e Debates, Rosario Castellanos formulou suas reflex\u00f5es sobre a subordina\u00e7\u00e3o feminina em um ensaio de 1973 e, dois anos depois, as transp\u00f4s para a mat\u00e9ria art\u00edstica sob a forma da ironia e da caricatura. Ela enunciou a mesma quest\u00e3o duas vezes, sendo a segunda sob o registro da farsa. Anzald\u00faa operou de modo similar por outro caminho, escrevendo uma obra que transita simultaneamente entre poesia, ensaio e autobiografia. Minha pergunta diz respeito \u00e0 natureza desse deslocamento: o que a literatura realiza que a filosofia n\u00e3o alcan\u00e7a com esse mesmo material?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Trata-se de uma quest\u00e3o densa, que toca na fronteira el\u00e1stica entre filosofia e literatura, amplamente debatida por grandes pensadores. Especificamente no tocante a&nbsp;<strong>Rosario<\/strong>&nbsp;<strong>Castellanos<\/strong>, objeto de minha tese em Ci\u00eancia da Literatura, ela n\u00e3o repetiu simplesmente o que dissera, pois a enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre singular, nunca dizemos o mesmo. Castellanos aborda problem\u00e1ticas filos\u00f3ficas no registro ensa\u00edstico e, posteriormente, as reelabora na dramaturgia e na poesia. Essa op\u00e7\u00e3o pelo dizer filos\u00f3fico, teatral ou po\u00e9tico decorre da escolha da autora e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, da classifica\u00e7\u00e3o efetuada pelo leitor. Um questionamento filos\u00f3fico fundamental \u00e9: por que insistimos em compartimentar a obra em caixas r\u00edgidas? Ademais, emerge uma interpela\u00e7\u00e3o feminista pertinente: por que as mulheres escritoras s\u00e3o frequentemente rotuladas como literatas ou poetisas, enquanto os fil\u00f3sofos can\u00f4nicos, como&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/602204-120-anos-da-morte-de-nietzsche-o-profeta-da-morte-de-deus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nietzsche<\/a>, que escrevia em aforismos, n\u00e3o recebem a alcunha de poetas? H\u00e1 evidente vi\u00e9s pol\u00edtico nessas classifica\u00e7\u00f5es, que acabam determinando quem edita e quem l\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retornando \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o sobre o que a literatura expressa que a filosofia n\u00e3o atinge, entramos na dimens\u00e3o intr\u00ednseca da arte. A literatura alcan\u00e7a um patamar de resson\u00e2ncia que nenhuma explica\u00e7\u00e3o estritamente racional consegue atingir. Vale a m\u00e1xima de que, ao lermos um poema, lemos a n\u00f3s mesmos. O poeta enuncia o que sente e pode inclusive mentir sobre o que deveras sente. Seja diante da tela, da poesia, da pe\u00e7a teatral ou do romance, a arte estabelece uma conex\u00e3o inter-humana que o texto acad\u00eamico e explicativo n\u00e3o consegue reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A sua resposta evoca aquela m\u00e1xima: a arte existe porque a vida n\u00e3o basta. Seria nessa dire\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Certamente. Sem desmerecer o rigor da filosofia, afinal sou professora da \u00e1rea, a arte possui uma dimens\u00e3o que transcende a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O t\u00edtulo de sua tese em andamento na UFRJ j\u00e1 constitui uma tese em si: O feminino de Rosario Castellanos e o feminismo das chicanas na cr\u00edtica \u00e0 objetifica\u00e7\u00e3o da mulher: a produ\u00e7\u00e3o da sujeita&nbsp;<em>mestiza<\/em>&nbsp;em fronteira. O elemento que me desperta interesse \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o indicada pela preposi\u00e7\u00e3o com crase. Castellanos n\u00e3o se resume \u00e0 autora analisada academicamente: ela dirigiu o teatro do Centro Coordenador sob os ausp\u00edcios do Instituto Nacional Indigenista e, em 1971, assumiu o cargo de embaixadora do M\u00e9xico em Israel, onde veio a falecer em 1974. A cr\u00edtica \u00e0 abje\u00e7\u00e3o feminina foi enunciada, portanto, a partir do interior do aparato indigenista do Estado mexicano, por uma herdeira de propriet\u00e1rios de terras. Vale notar que sua narrativa alterna perspectivas entre os cap\u00edtulos, como se reconhecesse a impossibilidade de falar a partir de um \u00fanico lugar. A passagem anunciada em seu t\u00edtulo configura continuidade, herdando a mestiza os impasses de Castellanos, ou representa uma ruptura? E, em caso de ruptura, o que exatamente \u00e9 rompido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Considero que toda heran\u00e7a constitui, em alguma medida, uma ruptura.&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>&nbsp;argumentava que a hist\u00f3ria \u00e9 tecida por rupturas, e que a continuidade hist\u00f3rica resulta da colagem desses espa\u00e7os rompidos. A continuidade organiza nossos discursos, mas \u00e9 a ruptura que faz o fen\u00f4meno emergir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retornando a&nbsp;<strong>Rosario Castellanos<\/strong>, ela foi uma intelectual engajada, feminista e ativista de seu tempo. Seu legado para as escritoras mexicanas valorizou a figura da mulher intelectual e encontrou eco entre as chicanas nos Estados Unidos. H\u00e1, decerto, uma heran\u00e7a, mas de car\u00e1ter disruptivo. O prop\u00f3sito da tese \u00e9 examinar a cr\u00edtica de&nbsp;<strong>Castellanos<\/strong>&nbsp;no horizonte mexicano e rastre\u00e1-la na produ\u00e7\u00e3o das chicanas, especialmente em&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>. A&nbsp;<em>mestiza<\/em>&nbsp;herda os dilemas expostos por&nbsp;<strong>Castellanos<\/strong>&nbsp;porque a estrutura social contempor\u00e2nea perpetua os nexos da colonialidade e do patriarcado. O modelo colonizador instituiu uma opress\u00e3o de g\u00eanero e um machismo estrutural profundo, traduzido na alarmante viol\u00eancia contra a mulher. Falar em continuidade constitui, portanto, uma escolha narrativa para encontrar e costurar as matrizes de opress\u00e3o identificadas por Castellanos e reelaboradas pelas pensadoras chicanas diante dessas rupturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H\u00e1 uma tens\u00e3o constitutiva no campo do feminismo decolonial atual que gostaria de ver debatida publicamente. A senhora ministrou na escola As Pensadoras aulas dedicadas a Mar\u00eda Lugones e a Julieta Paredes. Lugones sustenta que o g\u00eanero constitui imposi\u00e7\u00e3o colonial; Paredes, feminista aymara, contesta essa tese, argumentando que a colonialidade de g\u00eanero de Lugones desconsidera a centralidade que o g\u00eanero j\u00e1 possu\u00eda nas sociedades patriarcais ind\u00edgenas antes da chegada dos europeus. Ambas as teses n\u00e3o podem ser simultaneamente verdadeiras, e esse desdobramento incide diretamente sobre a sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Em artigo publicado em 2017 em peri\u00f3dico de ecopol\u00edtica, a senhora descreve os muxes das comunidades zapotecas como integrantes de um terceiro g\u00eanero, caracterizando seu espa\u00e7o como heterodoxo mediante o recurso a categorias foucaultianas e \u00e0 pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Caso Lugones esteja correta, tal descri\u00e7\u00e3o torna-se invi\u00e1vel. Caso Paredes esteja correta, a descri\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas o fen\u00f4meno descrito configuraria tamb\u00e9m um patriarcado ancestral, e n\u00e3o mera diversidade. Qual \u00e9 o seu posicionamento efetivo diante dessa diverg\u00eancia? E de que maneira essa escolha repercute em seu artigo sobre os muxes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>A pergunta agrupa diversas quest\u00f5es complexas. Tentarei elucidar algumas diferen\u00e7as te\u00f3ricas entre&nbsp;<strong>Mar\u00eda Lugones<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Julieta<\/strong>&nbsp;<strong>Paredes<\/strong>, que dizem respeito a um debate interno ao feminismo. \u00c9 fundamental explicitar essas diverg\u00eancias, como fa\u00e7o em minhas aulas, pois toda teoria \u00e9 situada e pol\u00edtica. Seria vi\u00e1vel conciliar ambas as vis\u00f5es mediante bons malabarismos conceituais, mas o cerne da quest\u00e3o \u00e9 outro.&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>&nbsp;fundamenta-se na obra&nbsp;<strong>A Inven\u00e7\u00e3o das Mulheres<\/strong>, de&nbsp;<strong>Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed<\/strong>, para sustentar que o&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/634770-somos-todos-responsaveis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">patriarcado<\/a>&nbsp;surge na&nbsp;<strong>Am\u00e9rica<\/strong>&nbsp;<strong>Latina<\/strong>&nbsp;apenas com a coloniza\u00e7\u00e3o, sendo um modelo de domina\u00e7\u00e3o trazido pelo colonizador europeu. Contudo, as teses de&nbsp;<strong>Oy\u011bw\u00f9m\u00ed<\/strong>&nbsp;sofreram contesta\u00e7\u00f5es severas de antrop\u00f3logas e historiadoras, que apontam evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas de hierarquias de g\u00eanero tanto em&nbsp;<strong>sociedades africanas<\/strong>&nbsp;antigas quanto latino-americanas. Al\u00e9m disso, criticou-se o fato de&nbsp;<strong>Oy\u011bw\u00f9m\u00ed<\/strong>&nbsp;ter derivado a inexist\u00eancia de um certo \u201cpatriarcado\u201d na cultura iorub\u00e1 exclusivamente da aus\u00eancia de terminologias de hierarquia de g\u00eanero naquele sistema lingu\u00edstico, premissa aceita por&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>, fil\u00f3sofa que reflete sobre as estruturas da linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Julieta Paredes<\/strong>, por sua vez, filia-se a uma tradi\u00e7\u00e3o vinculada ao ativismo e \u00e0 milit\u00e2ncia, amparada em dados antropol\u00f3gicos, e afirma que as sociedades pr\u00e9-coloniais j\u00e1 abrigavam hierarquia e opress\u00e3o sobre as mulheres. No entanto, tratava-se de um sistema distinto do patriarcado branco e capitalista do colonizador, visto que n\u00e3o havia estrutura capitalista pr\u00e9-colombiana. Para Paredes, capitalismo e patriarcado coproduzem-se. O que vigorava anteriormente, segundo ela,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/657824-gaza-e-um-ponto-de-virada-na-historia-uma-mudanca-de-era-e-a-esquerda-so-olha-para-tras-entrevista-com-laura-rita-segato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rita Segato<\/a>&nbsp;e outras pesquisadoras, era um patriarcado de baixa intensidade. Existe, portanto, diverg\u00eancia te\u00f3rica real entre&nbsp;<strong>Lugones<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Paredes<\/strong>. O ponto de converg\u00eancia entre ambas reside na premissa de que a opress\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 atravessada pelas dimens\u00f5es de ra\u00e7a e de classe.&nbsp;<strong>Paredes<\/strong>&nbsp;observa que homens racializados e empobrecidos situam-se, na escala de opress\u00e3o, muito mais pr\u00f3ximos das mulheres negras, racializadas e empobrecidas, do que delas se encontra a mulher branca. Ambas compartilham, assim, de uma perspectiva interseccional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu estudo buscou evidenciar uma estrutura social inspirada nessa tradi\u00e7\u00e3o ancestral zapoteca, ainda que os muxes contempor\u00e2neos incorporem pr\u00e1ticas ligadas ao travestismo ou \u00e0 transexualidade, como as modifica\u00e7\u00f5es corporais cir\u00fargicas e uso de horm\u00f4nios \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20Meu%20estudo%20buscou%20evidenciar%20uma%20estrutura%20social%20inspirada%20nessa%20tradi%C3%A7%C3%A3o%20ancestral%20zapoteca,%20ainda%20que%20os%20muxes%20contempor%C3%A2neos%20incorporem%20pr%C3%A1ticas%20ligadas%20ao%20travestismo%20ou%20%C3%A0%20transexualidade,%20como%20as%20modifica%C3%A7%C3%B5es%20corporais%20cir%C3%BArgicas%20e%20uso%20de%20horm%C3%B4nios%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao artigo sobre os&nbsp;<em>muxes<\/em>, trata-se de uma identidade transg\u00eanero ou intersexo n\u00e3o dicot\u00f4mica, localizada na regi\u00e3o do istmo de Tehuantepec e presente entre o povo zapoteca. Observamos ali um modelo social de tr\u00eas g\u00eaneros, no qual o&nbsp;<em>muxe<\/em>&nbsp;constitui um g\u00eanero perif\u00e9rico em rela\u00e7\u00e3o ao homem e \u00e0 mulher. Meu estudo buscou evidenciar uma estrutura social inspirada nessa&nbsp;<strong>tradi\u00e7\u00e3o ancestral zapoteca<\/strong>, ainda que os&nbsp;<em>muxes<\/em>&nbsp;contempor\u00e2neos incorporem pr\u00e1ticas ligadas ao travestismo ou \u00e0 transexualidade, como as modifica\u00e7\u00f5es corporais cir\u00fargicas e uso de horm\u00f4nios. O exemplo dos&nbsp;<em>muxes&nbsp;<\/em>demonstra a viabilidade de exist\u00eancias situadas fora do esquema bin\u00e1rio e heteronormativo, expressando uma configura\u00e7\u00e3o social n\u00e3o bin\u00e1ria com ra\u00edzes pr\u00e9-coloniais. N\u00e3o se trata de filiar o fen\u00f4meno estritamente a Lugones ou a Paredes, mas de reconhecer a express\u00e3o de possibilidades dissidentes em rela\u00e7\u00e3o ao binarismo estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Professora, permita-me uma provoca\u00e7\u00e3o. Uma vez que a senhora se declara tribut\u00e1ria do pensamento foucaultiano, gostaria que discorresse sobre como ele influenciou sua vis\u00e3o de mundo e a elabora\u00e7\u00e3o de suas pesquisas. Fique inteiramente \u00e0 vontade para abordar Foucault.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong><strong>Foucault<\/strong>&#8230; Sou suspeita para falar. Ele integra a constela\u00e7\u00e3o da filosofia francesa contempor\u00e2nea dos anos 1960 e 1970, marcado pelos desdobramentos de Maio de 68, mas rompe com essa tradi\u00e7\u00e3o de maneira profunda e amb\u00edgua. Por mais que permanecesse na universidade e escrevesse para essa intelectualidade, sua escrita exercia forte inc\u00f4modo. Ele nos legou a ideia de uma caixa de ferramentas conceitual. O aspecto mais marcante em minha trajet\u00f3ria, inclusive para pensar tem\u00e1ticas latino-americanas sem transformar o pensador franc\u00eas em chave de leitura absoluta, foi a exig\u00eancia de historicidade, fortemente devedora do estruturalismo. Trata-se de examinar as estruturas subjacentes \u00e0 sociedade e aos processos de linguagem, compreendendo que a hist\u00f3ria se constitui por rupturas. Embora Foucault n\u00e3o formule uma&nbsp;<strong>teoria do pensamento situado<\/strong>, sua caixa de ferramentas permite cortar anacronismos e apreender que a continuidade do tempo se forma justamente pelas rupturas de estrutura e de linguagem que sustentam os nossos discursos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/youtube.com\/watch?v=K4TAEp4K6QY%3Fsi%3DzVxf7Z8hG1KSNLBj\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando a senhora menciona o tempo, a que temporalidade se refere exatamente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>S\u00e3o duas dimens\u00f5es temporais distintas: o&nbsp;<strong>tempo cronol\u00f3gico<\/strong>, que corresponde ao calend\u00e1rio, aos meses, aos anos e aos segundos que vivenciamos, e o&nbsp;<strong>tempo<\/strong>&nbsp;<strong>hist\u00f3rico<\/strong>, este balizado por rupturas. Cada \u00e9poca hist\u00f3rica possui seus temas sens\u00edveis; discutir feminismo na&nbsp;<strong>Gr\u00e9cia<\/strong>&nbsp;<strong>Antiga<\/strong>, por exemplo, configuraria anacronismo, pois tal conceito sequer existia naquele horizonte. O tema do feminismo \u00e9 sens\u00edvel ao nosso tempo presente. Trata-se, portanto, do tempo hist\u00f3rico, do tempo da humanidade, o que n\u00e3o se op\u00f5e ao tempo de nossa vida. Tomemos o exemplo dos algoritmos: \u00e9 uma quest\u00e3o do nosso presente, ligada ao sistema operacional que interconecta nossas atividades on-line. Essa manifesta\u00e7\u00e3o da subjetividade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel neste tempo espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tema do feminismo \u00e9 sens\u00edvel ao nosso tempo presente. Trata-se, portanto, do tempo hist\u00f3rico, do tempo da humanidade, o que n\u00e3o se op\u00f5e ao tempo de nossa vida \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20O%20tema%20do%20feminismo%20%C3%A9%20sens%C3%ADvel%20ao%20nosso%20tempo%20presente.%20Trata-se,%20portanto,%20do%20tempo%20hist%C3%B3rico,%20do%20tempo%20da%20humanidade,%20o%20que%20n%C3%A3o%20se%20op%C3%B5e%20ao%20tempo%20de%20nossa%20vida%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em sua tese de 2015, a senhora empreende uma reconstru\u00e7\u00e3o minuciosa do corpo em Foucault, cuja arquitetura te\u00f3rica \u00e9 integralmente franco-anglo-americana: Foucault, Butler, Haraway,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/40931-um-bem-precioso-entrevista-com-beatriz-preciado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Preciado<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Deleuze<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/78-noticias\/613379-a-manifestacao-do-desejo-constitui-o-limite-externo-absoluto-do-capitalismo-entrevista-com-jun-fujita-hirose\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Guattari<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/160-cepat\/619034-achille-mbembe-e-o-escancaramento-dos-mundos-de-morte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mbembe<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/634536-existe-um-contrato-da-democracia-com-a-desigualdade-entrevista-com-ann-stoler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Stoler<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/623042-bruno-latour-1947-2022-o-primeiro-%20profeta-do-novo-regime-climatico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Latour<\/a>. Em 2022, a senhora apresentou o racismo como paradigma da biopol\u00edtica e o giro mbembiano como releitura da alteridade p\u00f3s-colonial, aderindo a uma cr\u00edtica cujo teor postula que a biopol\u00edtica foi concebida sem as plantations e sem a col\u00f4nia, falhando em alcan\u00e7ar o que Mbembe denomina necropol\u00edtica. Pergunto sobre a hist\u00f3ria da circula\u00e7\u00e3o intelectual: o Foucault daquela tese sobrevive ao giro mbembiano como m\u00e9todo, isto \u00e9, como caixa de ferramentas operativa, ou passou a figurar como objeto da cr\u00edtica que a senhora atualmente endossa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013<\/strong>&nbsp;Sobrevive. Absolutamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A senhora investigou o diagn\u00f3stico de histeria no Brasil, rastreando a iconografia da Salp\u00eatri\u00e8re de Paris at\u00e9 o Hospital Nacional de Alienados do Rio de Janeiro, no \u00e2mbito de uma psiquiatria nacional incipiente que emerge concomitante \u00e0 Rep\u00fablica. Trata-se de uma aplica\u00e7\u00e3o da colonialidade do saber mediante arquivos do empirismo brasileiro, um aparato diagn\u00f3stico europeu transplantado para operar sobre corpos locais. Formulo duas indaga\u00e7\u00f5es. Primeiro: por que esse trabalho n\u00e3o \u00e9 apresentado nos termos de uma demonstra\u00e7\u00e3o cabal daquilo que falta a grande parte da literatura decolonial brasileira? Segundo: no cap\u00edtulo 2 da referida tese, aborda-se a histeria como corpo de luta. Se o argumento central postula que o antidisciplinar j\u00e1 \u00e9 gerado pelo pr\u00f3prio diagn\u00f3stico, a no\u00e7\u00e3o de histeria constitui figura de resist\u00eancia ou a captura mais perfeita dos sujeitos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>A tese de que a manifesta\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica constitui uma forma de resist\u00eancia ao aparato m\u00e9dico-neurol\u00f3gico, ou neuropsiqui\u00e1trico, europeu, especialmente o da Salp\u00eatri\u00e8re, \u00e9 genuinamente foucaultiana. Extraio essa premissa dos cursos de Foucault. Trata-se de uma formula\u00e7\u00e3o que posteriormente foi retomada por outros pesquisadores. Um exemplo \u00e9 o estudo de&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/568830-as-imagens-nao-sao-apenas-coisas-para-representar-entrevista-com-georges-didi-huberman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Didi-Huberman<\/a>&nbsp;sobre a&nbsp;<strong>histeria<\/strong>&nbsp;e sobre a presen\u00e7a das hist\u00e9ricas nas aulas de anatomia e de psiquiatria do doutor&nbsp;<strong>Charcot<\/strong>, ambiente frequentado pelo pr\u00f3prio Freud, no qual argumenta que tal presen\u00e7a alterou o paradigma est\u00e9tico e configurou a sensibilidade de uma \u00e9poca. A perspectiva de Foucault enxerga na histeria uma forma de resist\u00eancia das mulheres ao diagn\u00f3stico m\u00e9dico e \u00e0 tutela psiqui\u00e1trica masculina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tema integrou meu p\u00f3s-doutorado na UERJ, voltado \u00e0 epistemologia do conhecimento psiqui\u00e1trico sobre os corpos femininos. Analisei como o diagn\u00f3stico europeu de histeria foi instrumentalizado no Brasil, cruzando-o com o esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia nacional. Embora a pesquisa tenha permanecido no plano te\u00f3rico, sem esgotar a incurs\u00e3o exaustiva nos arquivos em raz\u00e3o do t\u00e9rmino do prazo, ela evidencia que a histeria no Brasil n\u00e3o se reduziu a uma imita\u00e7\u00e3o passiva do modelo europeu. Havia m\u00e9dicos psiquiatras brasileiros, como&nbsp;<strong>Juliano<\/strong>&nbsp;<strong>Moreira<\/strong>, que era negro, engajados em edificar uma psiquiatria nacional que, conquanto tribut\u00e1ria de bases euroc\u00eantricas, buscava tensionar e romper com a tutela estrita dos saberes da Europa. Desse modo, o diagn\u00f3stico de histeria no contexto brasileiro n\u00e3o pode ser enquadrado unicamente como mero reflexo colonial, pois os meandros hist\u00f3ricos e arquiv\u00edsticos revelam inst\u00e2ncias de reconfigura\u00e7\u00e3o local. Por isso a hist\u00f3ria ancorada em arquivos e em m\u00e9todo rigoroso \u00e9 t\u00e3o crucial: ela evita reducionismos que tratam qualquer fen\u00f4meno perif\u00e9rico como simples decalque de teorias centrais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E a senhora mant\u00e9m hoje a express\u00e3o corpos de luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Sustento tal express\u00e3o, pois esses corpos atuam como inst\u00e2ncias de disputa frente aos aparatos normativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em sua tese de 2015, a senhora reconstr\u00f3i a resposta foucaultiana \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o sobre se o corpo precede a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, obtendo uma resposta negativa. A senhora acompanha Foucault na den\u00fancia da confiss\u00e3o como t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o da verdade sobre si, dedicando parte expressiva do cap\u00edtulo 2 a demonstrar como o dizer verdadeiro sobre si se consolidou como base de um sistema normativo. Contudo, Anzald\u00faa opera no sentido diametralmente oposto ao postular a autohistoria te\u00f3rica e a narrativa em primeira pessoa da experi\u00eancia corporal como matriz de conhecimento. Trata-se de uma confiss\u00e3o elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de saber. Questiono: como conciliar o cap\u00edtulo 2 com essa epistemologia da narrativa de si? Qual opera\u00e7\u00e3o distingue a confiss\u00e3o regida pelo poder da autohistoria te\u00f3rica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Trata-se de mais uma indaga\u00e7\u00e3o de elevada densidade te\u00f3rica. Primeiramente, reconhe\u00e7o que meus trabalhos anteriores comportam ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 natural em qualquer percurso acad\u00eamico. H\u00e1 uma vertente em minha trajet\u00f3ria marcada pelo esfor\u00e7o de conferir coer\u00eancia interna \u00e0s leituras, embora os objetos de estudo e as matrizes te\u00f3ricas se metamorfoseiem. Se h\u00e1 diverg\u00eancia entre a tese de 2015 e as formula\u00e7\u00f5es anteriores e atuais, n\u00e3o me frustro com isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, \u00e9 preciso distinguir a&nbsp;<strong>cr\u00edtica foucaultiana \u00e0 confiss\u00e3o<\/strong>, situada no horizonte da cr\u00edtica ao sujeito iluminista, dotado de uma verdade interior a ser desvendada, da proposta de autohistoria em&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>. Para Foucault, a confiss\u00e3o moderna, herdeira da tradi\u00e7\u00e3o pastoral e crist\u00e3 constitui um dispositivo de sujei\u00e7\u00e3o no qual o indiv\u00edduo se produz ao revelar suas \u201cverdades\u201d profundas a uma autoridade interpretativa, seja o padre, seja o psicanalista. Anzald\u00faa, por sua vez, ao recorrer \u00e0 autohistoria e \u00e0 narrativa encarnada, n\u00e3o busca a confiss\u00e3o no sentido de submiss\u00e3o a uma inst\u00e2ncia confessional: trata-se de assumir o protagonismo da enuncia\u00e7\u00e3o. Para uma mulher chicana, ind\u00edgena e subalternizada, narrar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 confessar perante um tribunal m\u00e9dico ou religioso, mas recusar a condi\u00e7\u00e3o de objeto de estudo de intelectuais acad\u00eamicos hegem\u00f4nicos, tomando para si o direito de falar a partir de seu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel, mas mudan\u00e7a de registro pol\u00edtico e epistemol\u00f3gico ao assumir o lugar de primeira pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Foucault, a confiss\u00e3o moderna, herdeira da tradi\u00e7\u00e3o pastoral e crist\u00e3 constitui um dispositivo de sujei\u00e7\u00e3o no qual o indiv\u00edduo se produz ao revelar suas \u201cverdades\u201d profundas a uma autoridade interpretativa, seja o padre, seja o psicanalista \u2013 Viviane Botton<a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20Para%20Foucault,%20a%20confiss%C3%A3o%20moderna,%20herdeira%20da%20tradi%C3%A7%C3%A3o%20pastoral%20e%20crist%C3%A3%20constitui%20um%20dispositivo%20de%20sujei%C3%A7%C3%A3o%20no%20qual%20o%20indiv%C3%ADduo%20se%20produz%20ao%20revelar%20suas%20%E2%80%9Cverdades%E2%80%9D%20profundas%20a%20uma%20autoridade%20interpretativa,%20seja%20o%20padre,%20seja%20o%20psicanalista%20%E2%80%93%20Viviane%20Botton%20%20https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton+via+%40_ihu\">&nbsp;Tweet.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Permita-me uma conex\u00e3o complementar. Enquanto Freud postula que o indiv\u00edduo recalca sua sexualidade, Foucault argumenta que o poder hipertrofia a necessidade de falar incessantemente sobre o sexo. Como a senhora articula essa tens\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>Minha tend\u00eancia \u00e9 concordar com&nbsp;<strong>Foucault<\/strong>, embora reconhe\u00e7a a pot\u00eancia da psican\u00e1lise. A cr\u00edtica foucaultiana aponta que a confiss\u00e3o institucionalizada gerou uma prolifera\u00e7\u00e3o discursiva sobre o sexo, subordinando o sujeito a inst\u00e2ncias de valida\u00e7\u00e3o terap\u00eautica e pastoral em alguma medida. A autohistoria de&nbsp;<strong>Anzald\u00faa<\/strong>&nbsp;opera como recusa dessa subordina\u00e7\u00e3o, afirmando a soberania da voz pr\u00f3pria e autonomia sobre sua pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Chego a \u00faltima quest\u00e3o, que remonta aos prim\u00f3rdios de sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica. N\u00e3o se trata de preciosismo erudito. N\u00e3o postulo que Anzald\u00faa seja kantiana, o que seria anacr\u00f4nico, mas indago sobre a exig\u00eancia formulada em sua disserta\u00e7\u00e3o de 2004, e que permanece v\u00e1lida: o que um signo necessita possuir em sua base para fundar conhecimento, em vez de circular de modo vazio? Sua resposta de ent\u00e3o foi que a manipula\u00e7\u00e3o de signos s\u00f3 atesta conhecimento quando fundamentada em estruturas ostensivas subjacentes, isto \u00e9, quando h\u00e1 suporte emp\u00edrico ou material demonstr\u00e1vel. Atualmente, a senhora emprega o conceito de Spanglish como express\u00e3o lingu\u00edstica do pensamento h\u00edbrido. Pergunto: qual substrato alicer\u00e7a o Spanglish? Tratando-se da fronteira material e do corpo migrante, o que ocorre quando esse signo \u00e9 ensinado a quem n\u00e3o vivenciou tal fronteira, por exemplo em salas de aula no Rio Grande do Sul ou na Tijuca? O signo mant\u00e9m seu poder construtivo ou esvazia-se em mera circula\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viviane Botton \u2013&nbsp;<\/strong>S\u00e3o coisas muito diferentes. Em minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, sobre a filosofia da matem\u00e1tica em&nbsp;<strong>Kant<\/strong>, analisei como o fil\u00f3sofo de&nbsp;<strong>K\u00f6nigsberg<\/strong>&nbsp;exigia que os conceitos matem\u00e1ticos encontrassem efetividade na intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da geometria. Transpondo essa exig\u00eancia para o debate contempor\u00e2neo, o&nbsp;<em>Spanglish<\/em>&nbsp;n\u00e3o constitui signo abstrato vazio: ele \u00e9 a pr\u00f3pria materialidade viva da fronteira. O&nbsp;<em>Spanglish<\/em>&nbsp;n\u00e3o traduz a ferida aberta; ele \u00e9 a ferida aberta em ato, enquanto enuncia\u00e7\u00e3o. Quando ensinado em contextos distantes da ideia de fronteira geogr\u00e1fica, sua circula\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica convoca o estudante a reconhecer encontros e conflitos de tradu\u00e7\u00e3o, assim como fraturas culturais inerentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas, de poder, de perspectivas, que funcionar\u00e3o como ferramentas cr\u00edticas de desestabiliza\u00e7\u00e3o, inclusive dos monolinguismos hegem\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"leia-mais\" class=\"wp-block-heading\">Leia mais<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/670158-foucault-fez-um-uso-moderno-de-nietzsche-frente-as-leituras-reacionarias-atuais-entrevista-com-edgardo-castro\">\u201cFoucault fez um uso moderno de Nietzsche frente \u00e0s leituras reacion\u00e1rias atuais\u201d. Entrevista com Edgardo Castro<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/193-jornalismo-experimental\/668236-michel-foucault-a-engenharia-do-odio-social-artigo-de-alexandre-francisco\">Michel Foucault: a engenharia do \u00f3dio social. Artigo de Alexandre Francisco<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/667597-michel-foucault-no-seu-centenario-artigo-de-jose-crisostomo-de-souza\">Michel Foucault no seu centen\u00e1rio. Artigo de Jos\u00e9 Cris\u00f3stomo de Souza<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/620946-o-poder-os-valores-morais-e-o-intelectual-entrevista-com-michel-foucault\">O poder, os valores morais e o intelectual. Entrevista com Michel Foucault<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/620560-continuidades-e-rupturas-de-um-jovem-foucault-entrevista-com-edgardo-castro\">Continuidades e rupturas de um jovem Foucault. Entrevista com Edgardo Castro<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/668404-as-confissoes-da-carne-o-arquivo-vivo-de-foucault-e-a-genealogia-do-desejo-artigo-de-marcia-rosane-junges\">As confiss\u00f5es da carne: o arquivo vivo de Foucault e a genealogia do desejo. Artigo de M\u00e1rcia Rosane Junges<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/666134-judith-butler-genero-poder-e-feminismo-na-era-da-internet\">G\u00eanero, poder e feminismo na era da internet. Entrevista com Judith Butler<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/656847-sim-ao-mercado-nao-ao-patriarcado-um-retrato-do-feminismo-de-direita-entrevista-com-melina-vazquez-e-carolina-spataro\">Sim ao mercado, n\u00e3o ao patriarcado? Um retrato do feminismo de direita. Entrevista com Melina V\u00e1zquez e Carolina Spataro<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/667239-crise-climatica-e-decolonialidade-a-importancia-da-praxis-dos-comunicadores-indigenas-no-sul-global\">Crise clim\u00e1tica e decolonialidade: a import\u00e2ncia da pr\u00e1xis dos comunicadores ind\u00edgenas no Sul Global<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/647057-ailton-krenak-nao-temos-de-fazer-critica-decolonial-e-sim-contracolonial\">Ailton Krenak: \u2018\u2018N\u00e3o temos de fazer cr\u00edtica decolonial, e sim, contracolonial\u2019\u2019<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/643844-nao-existe-filosofia-universal-artigo-de-ulrike-sallandt\">N\u00e3o existe filosofia universal. A filosofia e a teologia decolonial de Enrique Dussel. Artigo de Ulrike Sallandt<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/643109-decolonialidade-o-desafio-do-pensamento-outro-artigo-de-uribam-xavier\">Decolonialidade: o desafio do pensamento outro. Artigo de Uribam Xavier<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/664085-o-sul-global-paga-o-preco-pela-guerra-de-trump-no-ira-artigo-de-uriel-araujo\">O Sul Global paga o pre\u00e7o pela guerra de Trump no Ir\u00e3. Artigo de Uriel Araujo<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/662557-lula-diz-que-sul-global-pode-mudar-a-logica-economica-do-mundo\">Lula diz que Sul Global pode mudar a l\u00f3gica econ\u00f4mica do mundo<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/662413-o-imperio-contra-ataca-o-discurso-de-rubio-em-munique-e-a-recolonizacao-do-sul-global\">O Imp\u00e9rio contra-ataca: O discurso de Rubio em Munique e a recoloniza\u00e7\u00e3o do Sul Global<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/669411-o-poder-desnudo-e-a-instabilidade-permanente-artigo-de-raul-zibechi\">O poder desnudo e a instabilidade permanente. Artigo de Ra\u00fal Zibechi<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/667699-a-america-latina-na-estrategia-imperial-artigo-de-raul-zibechi\">A Am\u00e9rica Latina na estrat\u00e9gia imperial. Artigo de Ra\u00fal Zibechi<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/666685-de-invasores-a-invadidos-artigo-de-raul-zibechi\">\u201cDe invasores a invadidos\u201d. Artigo de Ra\u00fal Zibechi<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/664448-os-povos-e-as-guerras-artigo-de-raul-zibechi\">Os povos e as guerras. Artigo de Ra\u00fal Zibechi<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/669523-com-ameacas-e-mencao-a-maduro-eua-resgatam-doutrina-monroe-e-miram-controle-da-america-latina\">Com amea\u00e7as e men\u00e7\u00e3o a Maduro, EUA resgatam Doutrina Monroe e miram controle da Am\u00e9rica Latina<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/667236-peter-thiel-na-argentina-levanta-temor-de-vigilancia-estatal\">Peter Thiel na Argentina levanta temor de vigil\u00e2ncia estatal<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/663559-uso-da-ia-para-vigilancia-e-guerra-leva-a-demissao-de-alto-quadro-da-openai\">Uso da IA para vigil\u00e2ncia e guerra leva a demiss\u00e3o de alto quadro da OpenAI<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/634871-a-natureza-deveria-ser-uma-reserva-de-pureza-de-inocencia-diversa-essencialmente-do-homem-entrevista-com-donna-haraway\">\u201cA natureza deveria ser uma reserva de pureza, de inoc\u00eancia, diversa essencialmente do homem\u201d. Entrevista com Donna Haraway<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/612843-tudo-esta-conectado-a-algo-o-programa-teorico-e-politico-de-donna-haraway-entrevista-especial-com-fernando-silva-e-silva\">Tudo est\u00e1 conectado a algo: o programa te\u00f3rico e pol\u00edtico de Donna Haraway. Entrevista especial com Fernando Silva e Silva<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/596501-tornei-me-feminista-gracas-a-ficcao-cientifica-entrevista-com-donna-haraway\">\u201cTornei-me feminista gra\u00e7as \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d. Entrevista com Donna Haraway<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/599590-donna-haraway-nao-tem-respostas-mas-ajuda-a-pensar\">Donna Haraway n\u00e3o tem respostas (mas ajuda a pensar)<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579682-a-revolucao-das-ciencias-sociais-por-anibal-quijano-entrevista-com-cesar-baldi-fernanda-bragato-e-nelson-maldonado-torres\">A revolu\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais por An\u00edbal Quijano. Entrevista com C\u00e9sar Baldi, Fernanda Bragato e Nelson Maldonado-Torres<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579677-o-legado-de-anibal-quijano-para-o-pensamento-latino-americano-descolonizado\">O legado de An\u00edbal Quijano para o pensamento latino-americano descolonizado<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">fonte: <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton\">https:\/\/ihu.unisinos.br\/670169-a-colonialidade-e-um-resquicio-estrutural-do-sistema-colonial-que-permanece-no-tecido-social-conceitual-e-psiquico-de-todos-nos-entrevista-com-viviane-bagiotto-botton<\/a><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_4197\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"4197\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 70 -86 122 -155 94z\"\/><path d=\"M1751 3234 c-13 -9 -29 -31 -37 -50 -12 -29 -10 -49 21 -204 19 -94 39 -189 45 -210 14 -50 54 -80 110 -80 34 0 48 6 76 34 21 21 34 44 34 59 0 14 -18 113 -40 219 -37 178 -43 195 -70 221 -36 32 -101 37 -139 11z\"\/><path d=\"M1163 3073 c-36 -7 -73 -59 -73 -102 0 -56 133 -378 171 -413 34 -32 83 -37 129 -13 70 36 67 87 -16 290 -86 209 -89 214 -129 231 -35 14 -42 15 -82 7z\"\/><path d=\"M3689 3066 c-15 -9 -33 -30 -42 -48 -48 -103 -147 -355 -147 -375 0 -98 131 -148 192 -74 13 15 57 108 97 206 80 196 84 226 37 273 -30 30 -99 39 -137 18z\"\/><path d=\"M583 2784 c-38 -19 -67 -74 -58 -113 9 -42 211 -354 242 -373 16 -10 45 -18 66 -18 51 0 107 52 107 100 0 39 -1 41 -124 234 -80 126 -108 162 -133 173 -41 17 -61 16 -100 -3z\"\/><path d=\"M4250 2784 c-14 -9 -74 -91 -133 -183 -95 -150 -107 -173 -107 -213 0 -55 33 -94 87 -104 67 -13 90 8 211 198 130 202 137 225 78 284 -27 27 -42 34 -72 34 -22 0 -50 -8 -64 -16z\"\/><path d=\"M2275 2693 c-553 -48 -1095 -270 -1585 -649 -135 -104 -459 -423 -483 -476 -23 -49 -22 -139 2 -186 73 -142 361 -457 571 -626 285 -228 642 -407 990 -497 242 -63 336 -73 660 -74 310 0 370 5 595 52 535 111 1045 392 1455 803 122 121 250 273 275 326 19 41 19 137 0 174 -41 79 -309 363 -465 492 -447 370 -946 591 -1479 653 -113 14 -422 18 -536 8z m395 -428 c171 -34 330 -124 456 -258 112 -119 167 -219 211 -378 27 -96 24 -300 -5 -401 -72 -255 -236 -447 -474 -557 -132 -62 -201 -76 -368 -76 -167 0 -236 14 -368 76 -213 98 -373 271 -451 485 -162 444 86 934 547 1084 153 49 292 57 452 25z m909 -232 c222 -123 408 -262 593 -441 76 -74 138 -139 138 -144 0 -16 -233 -242 -330 -319 -155 -123 -309 -223 -461 -299 l-81 -41 32 46 c18 26 49 83 70 128 143 306 141 649 -6 957 -25 52 -61 116 -79 142 l-34 47 45 -20 c26 -10 76 -36 113 -56z m-2057 25 c-40 -58 -105 -190 -130 -263 -110 -324 -59 -707 132 -981 25 -35 42 -64 37 -64 -19 0 -241 119 -326 174 -188 122 -406 314 -532 468 l-58 71 108 103 c185 178 428 349 672 473 66 33 121 60 123 61 2 0 -10 -19 -26 -42z\"\/><path d=\"M2375 1950 c-198 -44 -350 -190 -395 -379 -18 -76 -8 -221 19 -290 114 -284 457 -406 731 -260 98 52 188 154 231 260 27 69 37 214 19 290 -38 163 -166 304 -326 360 -67 23 -215 33 -279 19z\"\/><\/g><\/svg><\/i> <img decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" src=\"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 \/><\/p><div class=\"pvc_clear\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viviane Bagiotto Botton&nbsp;\u00e9 professora e pesquisadora na \u00e1rea de filosofia e literatura. Atualmente \u00e9 professora efetiva do Col\u00e9gio Pedro II do Rio de Janeiro. Possui doutorado em filosofia pela&nbsp;UNAM&nbsp;(Universidade Nacional Aut\u00f3noma do M\u00e9xico), desde 2016, tendo recebido men\u00e7\u00e3o honrosa pela tese defendida. 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