{"id":4340,"date":"2026-10-13T08:45:11","date_gmt":"2026-10-13T11:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/?p=4340"},"modified":"2026-10-13T08:45:23","modified_gmt":"2026-10-13T11:45:23","slug":"carta-de-maputo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feminismo.org.br\/ULFA\/carta-de-maputo\/","title":{"rendered":"CARTA DE MAPUTO"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color has-link-color has-x-large-font-size wp-elements-1 wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PARA A PREVEN\u00c7\u00c3O E A ERRADICA\u00c7\u00c3O DO FEMINIC\u00cdDIO E DA VIOL\u00caNCIA SEXISTA E DE G\u00c9NERO, ADOPTADA NO F\u00d3RUM INTERNACIONAL \u00abPARA AL\u00c9M DO HOMIC\u00cdDIO, COMPREENDENDO O FEMINIC\u00cdDIO E A VIOL\u00caNCIA SEXISTA E DE G\u00c9NERO\u00bb<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol style=\"list-style-type:upper-roman\" class=\"wp-block-list\">\n<li>PRE\u00c2MBULO<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s, Mulheres, Raparigas, Homens e Rapazes Diversa\/os participantes do F\u00f3rum Internacional \u00abPara Al\u00e9m do Homic\u00eddio, Compreendendo o Feminic\u00eddio e a Viol\u00eancia Sexista e de G\u00e9nero\u00bb, reunidos em Maputo, em representa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, da Assembleia da Rep\u00fablica, do sistema de justi\u00e7a, da academia, de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, de movimentos feministas e juvenis, da comunica\u00e7\u00e3o social e de parceiros nacionais e internacionais;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Reconhecendo as conquistas de Mo\u00e7ambique na promo\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres e raparigas e preocupados com a persist\u00eancia da viol\u00eancia, das lacunas de protec\u00e7\u00e3o, da fragmenta\u00e7\u00e3o das respostas institucionais, da revitimiza\u00e7\u00e3o das mulheres e da impunidade;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Considerando que o Feminic\u00eddio, express\u00e3o extrema de rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder, pode ser precedido de amea\u00e7as, controlo coercivo, persegui\u00e7\u00e3o, agress\u00f5es e viol\u00eancia sexual, cujo reconhecimento e documenta\u00e7\u00e3o atempados permitem prevenir mortes e sustentar a justi\u00e7a;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Convictos de que a preven\u00e7\u00e3o, a justi\u00e7a e a repara\u00e7\u00e3o exigem leis adequadas, institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis, recursos p\u00fablicos, autonomia das mulheres e participa\u00e7\u00e3o efectiva das sobreviventes e comunidades;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adoptamos a presente Carta como posicionamento colectivo e instrumento de advocacia, nos seguintes termos:<\/p>\n\n\n\n<h1 id=\"parte-i-principios-e-direitos\" class=\"wp-block-heading\">PARTE I. PRINC\u00cdPIOS E DIREITOS<\/h1>\n\n\n\n<h2 id=\"artigo-1-\u00ba-vida-dignidade-e-igualdade\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 1.\u00ba Vida, dignidade e igualdade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas as mulheres e raparigas, na sua diversidade, t\u00eam direito \u00e0 vida, \u00e0 integridade, \u00e0 autonomia e ao exerc\u00edcio efectivo dos seus direitos, sem discrimina\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o, a depend\u00eancia econ\u00f3mica ou as rela\u00e7\u00f5es afectivas n\u00e3o justificam a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"artigo-2-\u00ba-centralidade-da-vitima-e-prevencao\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 2.\u00ba Centralidade da v\u00edtima e preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seguran\u00e7a, a privacidade e a vontade informada das v\u00edtimas e sobreviventes devem orientar as respostas. Desde o primeiro pedido de ajuda, devem ser asseguradas avalia\u00e7\u00e3o do risco, protec\u00e7\u00e3o e acompanhamento cont\u00ednuo, sem culpabiliza\u00e7\u00e3o nem revitimiza\u00e7\u00e3o. A\/Os filha\/os, demais dependentes e testemunhas devem igualmente ser protegidos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"artigo-3-\u00ba-justica-e-responsabilidade\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 3.\u00ba Justi\u00e7a e responsabilidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A investiga\u00e7\u00e3o e o julgamento devem considerar o contexto de viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, assegurar os direitos das v\u00edtimas e fam\u00edlias e respeitar e valorizar do depoimentos da vitima, sobrevivente e as garantias processuais. A responsabiliza\u00e7\u00e3o dos autores exige san\u00e7\u00f5es proporcionais e cumprimento efectivo das decis\u00f5es judiciais. As omiss\u00f5es institucionais que comprometam a protec\u00e7\u00e3o devem ser apuradas nos termos da lei.<\/p>\n\n\n\n<h1 id=\"parte-ii-medidas-de-prevencao-e-resposta\" class=\"wp-block-heading\">PARTE II. MEDIDAS DE PREVEN\u00c7\u00c3O E RESPOSTA<\/h1>\n\n\n\n<h2 id=\"capitulo-i-lei-e-administracao-da-justica\" class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo I. Lei e administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-4-\u00ba-reconhecimento-do-feminicidio\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 4.\u00ba Reconhecimento do Feminic\u00eddio<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defendemos uma lei aut\u00f3noma de preven\u00e7\u00e3o e combate ao Feminic\u00eddio, com reconhecimento do crime espec\u00edfico, defini\u00e7\u00e3o dos seus elementos e articula\u00e7\u00e3o com o C\u00f3digo Penal e a Lei n.\u00ba 29\/2009. A reforma deve abranger preven\u00e7\u00e3o, tentativas, protec\u00e7\u00e3o, responsabiliza\u00e7\u00e3o, repara\u00e7\u00e3o e financiamento, evitando lacunas e sobreposi\u00e7\u00f5es. A sua elabora\u00e7\u00e3o deve resultar de discuss\u00e3o t\u00e9cnica e p\u00fablica, com participa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, sobreviventes e profissionais dos servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-5-\u00ba-investigacao-e-prova\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 5.\u00ba Investiga\u00e7\u00e3o e prova<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devem ser adoptados protocolos comuns para investigar mortes violentas de mulheres, considerando a poss\u00edvel motiva\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero e reconstruindo o hist\u00f3rico de viol\u00eancia. A PRM, o Servi\u00e7o Nacional de Investiga\u00e7\u00e3o Criminal (SERNIC), o Minist\u00e9rio P\u00fablico, os tribunais, a sa\u00fade e a medicina legal devem dispor de forma\u00e7\u00e3o e meios para documentar den\u00fancias, realizar exames atempados e preservar provas desde o primeiro atendimento. Devem ser prevenidos o encobrimento, a intimida\u00e7\u00e3o de testemunhas e a destrui\u00e7\u00e3o de prova.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"capitulo-ii-proteccao-e-assistencia\" class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo II. Protec\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-6-\u00ba-medidas-de-proteccao\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 6.\u00ba Medidas de protec\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deve ser desenvolvido um protocolo nacional de avalia\u00e7\u00e3o do risco de viol\u00eancia Feminic\u00edda, associado a medidas urgentes e acess\u00edveis, incluindo afastamento do agressor, restri\u00e7\u00f5es de contacto e abrigo seguro. A resposta deve definir respons\u00e1veis, canais de urg\u00eancia, encaminhamento e acompanhamento entre pol\u00edcia, justi\u00e7a, sa\u00fade e ac\u00e7\u00e3o social. O risco deve ser reavaliado e considerado nas decis\u00f5es sobre medidas de coac\u00e7\u00e3o, respeitando as garantias legais.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-7-\u00ba-servicos-e-reparacao\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 7.\u00ba Servi\u00e7os e repara\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estado deve assegurar servi\u00e7os de refer\u00eancia e espa\u00e7os seguros nas prov\u00edncias e distritos, assist\u00eancia jur\u00eddica, cuidados de sa\u00fade, apoio psicossocial e protec\u00e7\u00e3o social \u00e0s sobreviventes, filhos e fam\u00edlias das v\u00edtimas. O acesso deve alcan\u00e7ar zonas perif\u00e9ricas, rurais e n\u00e3o depender da capacidade econ\u00f3mica. Programas de forma\u00e7\u00e3o e autonomia econ\u00f3mica devem ampliar as possibilidades de escolha das mulheres. Cada morte deve motivar a an\u00e1lise de den\u00fancias pr\u00e9vias, sinais de risco e falhas dos servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"capitulo-iii-conhecimento-e-transformacao-social\" class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo III. Conhecimento e transforma\u00e7\u00e3o social<\/h2>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-8-\u00ba-dados-e-conhecimento\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 8.\u00ba Dados e conhecimento<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devem ser harmonizados os registos e criado um mecanismo seguro de acompanhamento dos casos, da den\u00fancia \u00e0 decis\u00e3o judicial, com crit\u00e9rios comuns, acesso autorizado e protec\u00e7\u00e3o de dados pessoais. A publica\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de dados desagregados e o fortalecimento dos observat\u00f3rios devem permitir conhecer padr\u00f5es, identificar falhas e orientar preven\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o, or\u00e7amento e avalia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-9-\u00ba-educacao-e-participacao-comunitaria\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 9.\u00ba Educa\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A informa\u00e7\u00e3o sobre direitos, sinais de risco, den\u00fancia e servi\u00e7os deve chegar \u00e0s fam\u00edlias, escolas, universidades e zonas rurais, em l\u00ednguas nacionais e formatos acess\u00edveis. A educa\u00e7\u00e3o para a igualdade deve ser adequada \u00e0 idade. O trabalho com homens, rapazes, lideran\u00e7as e matronas deve transformar ensinamentos discriminat\u00f3rios, preservando aspectos positivos dos ritos de inicia\u00e7\u00e3o. A interven\u00e7\u00e3o com agressores deve prevenir reincid\u00eancias sem substituir a responsabiliza\u00e7\u00e3o nem comprometer a seguran\u00e7a das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"artigo-10-comunicacao-e-mobilizacao\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 10. Comunica\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria cultural e criativa e as plataformas digitais devem informar com rigor, preservar a dignidade e a mem\u00f3ria das v\u00edtimas e divulgar os servi\u00e7os dispon\u00edveis. Campanhas, marchas e espa\u00e7os de di\u00e1logo com sobreviventes, assegurando consentimento e seguran\u00e7a, devem sustentar a mobiliza\u00e7\u00e3o, promover rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas e combater o ass\u00e9dio no ensino, no trabalho e nos espa\u00e7os p\u00fablicos e digitais.<\/p>\n\n\n\n<h1 id=\"parte-iii-execucao-e-acompanhamento\" class=\"wp-block-heading\">PARTE III. EXECU\u00c7\u00c3O E ACOMPANHAMENTO<\/h1>\n\n\n\n<h2 id=\"artigo-11-incidencia-colectiva\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 11. Incid\u00eancia colectiva<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As organiza\u00e7\u00f5es aderentes ao Levante Nacional Contra o Feminic\u00eddio e VBG, constituir\u00e3o um grupo de coordena\u00e7\u00e3o nacional, regionais, provinciais, distritais, comunit\u00e1rios, com pontos focais, tarefas e calend\u00e1rio, articulado com movimentos e observat\u00f3rios existentes. O grupo promover\u00e1 consultas, consolidar\u00e1 propostas legislativas e uma agenda comum e mobilizar\u00e1 apoios, com o envolvimento da Assembleia da Rep\u00fablica, Terceira Comiss\u00e3o, Gabinete da Mulher Parlamentar, o Governo, o sistema de justi\u00e7a, a academia e ligas femininas dos partidos pol\u00edticos, as comunidades, com participa\u00e7\u00e3o efectiva das mulheres, mulheres jovens, raparigas e sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"artigo-12-responsabilidades-e-seguimento\" class=\"wp-block-heading\">Artigo 12. Responsabilidades e seguimento<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao Governo cabe financiar e coordenar pol\u00edticas e servi\u00e7os; \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica, promover a reforma e fiscalizar a sua aplica\u00e7\u00e3o; \u00e0 justi\u00e7a, sa\u00fade e ac\u00e7\u00e3o social, assegurar resposta articulada e competente. A sociedade civil, academia, movimentos, comunica\u00e7\u00e3o social e parceiros apoiar\u00e3o sobreviventes, produzir\u00e3o conhecimento e acompanhar\u00e3o os compromissos. Os planos indicar\u00e3o respons\u00e1veis, prazos, recursos e indicadores, com balan\u00e7os semestrais p\u00fablicos que incorporem a experi\u00eancia das mulheres atendidas.<\/p>\n\n\n\n<h1 id=\"disposicao-final\" class=\"wp-block-heading\">DISPOSI\u00c7\u00c3O FINAL<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presente Carta exprime o compromisso das pessoas e organiza\u00e7\u00f5es subscritoras de prevenir antes da morte, proteger sem demora, investigar com rigor, responsabilizar com justi\u00e7a e reparar com dignidade. A sua execu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 revista periodicamente \u00e0 luz dos resultados, das desafios identificados e da seguran\u00e7a efectiva das mulheres e raparigas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maputo, 18 de Setembro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_4340\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"4340\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" version=\"1.0\" viewBox=\"0 0 502 315\" preserveAspectRatio=\"xMidYMid meet\"><g transform=\"translate(0,332) scale(0.1,-0.1)\" fill=\"\" stroke=\"none\"><path d=\"M2394 3279 l-29 -30 -3 -207 c-2 -182 0 -211 15 -242 39 -76 157 -76 196 0 15 31 17 60 15 243 l-3 209 -33 29 c-26 23 -41 29 -80 29 -41 0 -53 -5 -78 -31z\"\/><path d=\"M3085 3251 c-45 -19 -58 -50 -96 -229 -47 -217 -49 -260 -13 -295 52 -53 146 -42 177 20 16 31 87 366 87 410 0 70 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