A guerrilheira que amava, a flor que lutava

A guerrilheira que amava, a flor que lutava

O misto de rebeldia e encantamento gerado em quem conhece a história de uma militante morta na ditadura se transforma no livro“Soledad no Recife”, de Urariano Mota

Eduardo Sales de Lima –  jornal Brasil de Fato

A trajetória da militante de esquerda paraguaia e brasileira, Soledad Barrett Viedma, se confunde com a história recente do Brasil. Com ideais altruístas e extrema coragem, a bela guerrilheira foi delatada pelo próprio companheiro Daniel, conhecido depois como Cabo Anselmo. Ele aproximou-se da militante e passou a viver como seu companheiro. Soledad engravidou sem desconfiar de que estava sendo usada por um agente da repressão.

O fato trágico, de uma dupla traição – tanto ao amor de uma mulher como em relação à esquerda da época –, entretanto, sempre se sobrepôs à história da militância e da própria personalidade de “Sol”, como é conhecida.

Na tentativa de rememorar a história da militante paraguaia na capital pernambucana, e mostrá-la como uma pessoa de carne e osso, o escritor Urariano Mota, com um texto poético, instrumentalizado por testemunhos e confissões, lança “Soledad no Recife”, da editora Boitempo.

Revolucionária disciplinada, antes de chegar ao nordeste brasileiro, Soledad havia passado alguns anos em Cuba, entre o final dos anos 1960 e início dos 1970. O ex-marinheiro Anselmo, um agente duplo, que servia a ditadura militar, precisava se aproximar de alguém respeitável e com um histórico de militância impecável.

Soledad morre em 1973, junto a um grupo de militantes socialistas, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O episódio, resultado da delação de Cabo Anselmo, ficou conhecido como “O massacre da chácara São Bento”, e ocorreu na cidade de Paulista, pertencente à região metropolitana de Recife (PE).

De perto

“Como ela era, como ela é, o livro dirá”, afirmava Urariano em uma entrevista a Conceição Lemes, publicada no blog Vi o Mundo. Já ao Brasil de Fato, ele pontua: “ela era uma mulher belíssima, muito inteligente”. O autor lembra que Soledad veio de uma linhagem de lutadores sociais do Paraguai. “O pai foi um dos fundadores do PC paraguaio. O avô é o Rafael Barrett, um intelectual anarquista que o Brasil não conhece; ele é tido como um dos fundadores da literatura paraguaia”.

Urariano vai mais além. Ele revela que a grande chave para ter desenvolvido a obra sobre Soledad foi a ter escrito em primeira pessoa. Dessa forma se aproximou, e dessa forma se apaixonou. E escrever nesse formato, segundo o escritor, é um exercício muito difícil. “Esse narrador em primeira pessoa é apaixonado por Soledad; uma coisa é escrever num diário, outra é narrar em primeira pessoa e ter a verossimilhança de ser aquela pessoa, sem sê-la”, explica o escritor pernambucano.

“E se Soledad, no Recife, não era minha amiga, depois do livro ela é. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar no Recife da ditadura Médici”, conta o autor, que morou na capital pernambucana na mesma época em que Soledad.

O eu-literário de Urariano se apaixonou por Sol. Urariano também. “O diabo é que eu não sabia”, revela. E chega à conclusão de que “amor é uma coisa tão contagiante, que você fala do amor e se contamina e, de repente, você está amando”.

Ficção?

Curioso é que várias pessoas que já leram o livro imaginam que Soledad havia sido, de fato, sua namorada. A ficção virou fato. Urariano explica que seu livro não é um documentário sobre Soledad, mas um trabalho de ficção. Entretanto, pondera que o gênero não se apóia no vazio. Por isso, “para fazer esse trabalho, eu pesquisei e estudei”, revela.

Com uma ficção apoiada em tantos documentos, entrevistas e depoimentos, o próprio Urariano se confunde com o “eu-literário”, e, em dois momentos distintos do enredo, desnuda-se diante da força militante e feminina de Sol. O autor inicia a estória lembrando que “(…) diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar”. Mais ao final do livro, o narrador é tomado por um sentimento de rebeldia ao saber da tortura sofrida pela mulher. Descreve-a como a flor, que “não se rebela nem canta”, mas quando machucada, “nos desperta canção e rebeldia”.

Agora, após 36 anos, o misto de rebeldia e encantamento se transforma em livro. Quem a ama? O “eu-literário”? Urariano?

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