Arte e Política: espaço para abortar na 31a Bienal de São Paulo

Arte e Política: espaço para abortar na 31a Bienal de São Paulo

Por Nadja Dulci

No dia 06 de setembro estive em São Paulo para participar do processo de construção da obra “Espaço para abortar”, proposto pelo coletivo boliviano Mujeres Creando para a Bienal de Arte de São Paulo. O convite para participação desse momento foi feito a diversos coletivos, organizações e movimentos de mulheres brasileiras, para dar impulso para a reflexão e o debate sobre a questão do aborto no Brasil e na América Latina.

Tudo começou com uma procissão-performance pública e participativa contra a ditadura do patriarcado sobre o corpo da mulher. Em pauta, as implicações do aborto, da colonização do corpo feminino e o que poderia significar a decisão soberana, o livre-arbítrio e a liberdade de consciência na democracia hoje.

No pavilhão da Bienal de Arte de São Paulo, que fica no Parque Ibirapuera, muitas mulheres que optaram por não levar adiante uma gravidez indesejada foram convidadas por Maria Galindo e Esther Argollo, artistas bolivianas do Coletivo Mujeres Creando, a nos contarem, em primeira pessoa, sua experiência diante dessa decisão.

Éramos muitas mulheres e juntas erguemos, para fora do pavilhão e em direção ao parque, uma escultura de ferro de 12 metros de altura e sete de largura. De pernas abertas, vulva brilhante no alto e um círculo feito de um tecido vermelho fino e suave, transparente, no meio. Nele, um bordado cuidadoso onde se podia ler: Útero. Em torno da estrutura de metal havia outros seis Úteros como esse. Podíamos entrar, ficar e sair. Assim se constituía a instalação simbólica de um “Espaço para abortar”.

Os úteros são o espaço mais amoroso, o centro de poder de nossa criatividade, de força e vitalidade da mulher. Essa parte do nosso corpo, por ser tão poderosa, é motivo de tantas interdições patriarcais, sociais e morais por parte daqueles que gostariam de decidir sobre o que não lhes pertence e muito menos lhes diz respeito, o nosso corpo de mulher.

Saímos todas em marcha pelo Parque Ibirapuera, nós, muitas, erguendo a grande escultura que multiplicava de tamanho nossos corpos. E durante cerca de duas horas fomos convidadas por Esther e Maria a pousá-lo cuidadosamente na grama verde. E nesse momento, sentadas em torno da bela escultura, escutamos o depoimento de mulheres que decidiram interromper voluntariamente uma gestação.

Nos escutamos, estávamos juntas, nos abraçamos, estávamos emocionadas, nos acolhemos, estávamos fortes. E a cada história contada de dentro daquele tecido que balançava com o vento da tarde, nos emocionávamos ao constatar as opressões que a que foram submetidas pelo simples fato de decidirem sobre seu corpo.

Todas estas histórias podem ser escutadas, em fones de ouvido, pel@s visitantes que entrarem nos Úteros instalados no “Espaço para abortar” no térreo do pavilhão da Bienal até dia 07 de dezembro.

Além do apelo aos governos e igrejas de nosso continente, a obra de Mujeres Creando é um espaço para falar sobre aborto em primeira pessoa: como ele é vivenciado e o que significa em nossas vidas? Desdramatizar o discurso religioso oficial sobre o aborto, desafiar e instigar. E por isso é tão importante que o acesso a obra seja livre, inclusive a adolescentes pois pode servir ao esclarecimento e a desmistificação do tema na vida de jovens meninas e meninos.

Na frente da obra tem um totem de classificação indicativa de faixa etária e, no último dia 23, o Coletivo Mujeres Creando encaminhou um pedido de revisão desssa classificação, visto que a obra, em princípio, era de livre acesso. Em resposta ao comunicado, movimentos de mulheres de todo o país se levantaram para demonstrar sua indignação a censura da obra que atenta a sociedade e o poder público para a importância de políticas de saúde mais condizentes com as práticas sociais brasileiras. Essa obra é pela vida das mulheres.

 

Nadja Dulci é Atriz e ativista, mineira que vive em Brasília é consultora técnica no Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) e Colaboradora da Universidade Livre Feminista.

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