As primeiras candangas

As primeiras candangas

Exposição no Museu Nacional dos Correios resgata imagens e relatos de moradoras na época da construção da capital. O cenário, com vestuário, utensílios e mobiliário, vai transportar o espectador para as décadas de 1950 e 1960.

» Amanda Maia Correio Braziliense

Publicação: 09/04/2013 04:00

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Foto de telefonista nos tempos da construção da capital federal: peças originais da década de 1960 serão expostas na mostra, que será aberta amanhã.

Algumas participaram do elegante baile de inauguração da capital, no Palácio do Planalto, em 21 de abril de 1960. Outras tiveram de se contentar com a poeira dos acampamentos e o improviso das casas de madeira. Das ricas esposas de importantes políticos às simples companheiras dos candangos anônimos, as primeiras mulheres a pisarem no Planalto Central tiveram um papel importante — e quase esquecido — na construção de Brasília. Para resgatar a saga dessas personagens, protagonistas silenciosas de um importante período histórico do país, a economista Tânia Fontenele organizou a exposição Memórias femininas da construção de Brasília, que será aberta amanhã, no Museu Nacional dos Correios.

O acervo inédito é composto de documentos históricos, cartas, objetos pessoais e imagens raras das primeiras edificações da cidade e das experiências vividas por mulheres adultas e crianças. Ao entrar na sala de exibição, o público voltará no tempo com o cenário de canteiro de obras e de barracos de madeira, que reproduzirão o modo de vida dos candangos.

Algumas peças originais da década de 1960, como utensílios, mobiliários e vestuários, tornam a cenografia ainda mais próxima da realidade. Destacam-se uma penteadeira, uma panela marmiteira, dois vestidos de Lia Sayão (filha do engenheiro Bernardo Sayão), um maiô, uma mesa de telefonista e uma radiola. Todos emprestados de acervos pessoais.

Recortes de jornais e revistas, propagandas, reportagens e estudos sobre a figura feminina tratarão de hábitos, interesses e costumes do grupo, até então minoria. As fotos, resgatadas com pioneiras, no Arquivo Público do DF e no Museu Vivo da Memória Candanga, serão projetadas na parede. Haverá ainda três encontros, chamados Chá de Memórias, em que algumas mulheres contarão histórias do período. A mesa-redonda ocorrerá às 17h e contará com a participação de 10 convidadas. O primeiro está marcado para 25 de abril.

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Cidade moderna
A curadora, Tânia Fontenele, explica que o projeto da exposição começou em 2010, logo após a conclusão do filme Poeira & batom no Planalto Central — 50 mulheres na construção de Brasília. O vídeo, produzido por ela, tem 58 minutos e traz entrevistas com 45 candangas. “Tenho orgulho de ter nascido aqui, peguei a fase idealista de Brasília. Meu pai chegou em 1958, do Nordeste, e logo trouxe minha mãe. Eles eram dois jovens, cheios de ideais, que vieram com a cara e a coragem. Como eles, tinham outros. Pessoas simples, despojadas, mas cheias de esperança e dispostas a lutar”, descreve.

Em 2010, as comemorações dos 50 anos de Brasília se aproximavam e a economista deu-se conta de que os homens — como Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Darcy Ribeiro e Athos Bulcão — estavam sempre no centro das discussões. Eles mereciam espaço, mas e as mulheres que chegaram em ônibus e caminhões lotados, carros e até em carroças? As figuras femininas citadas eram apenas Sarah e Julia Kubitschek, mulher e mãe do presidente Juscelino Kubitschek, respectivamente, ou as prostitutas.

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O livro, o filme e duas exposições não foram o bastante para Tânia. Ela ainda está convicta de que há mais histórias interessantes por aí. “Desde que comecei meu trabalho, seis mulheres que entrevistei morreram. Imagina se eu não tivesse registrado o depoimento delas? Estávamos perdendo uma memória oral muito importante. E tem senhoras que me procuram até hoje querendo ser entrevistadas”, acrescenta. Há um resgate a se fazer e Tânia pretende seguir com o trabalho. As candangas agradecem.Foi quando a especialista começou a pesquisar quem eram as personagens relegadas ao esquecimento. Tânia buscou histórias e começou pela própria memória. Ela recorda-se com detalhes da infância na capital. Era uma cidade considerada “supermoderna”, que priorizava a educação integral e possibilitava considerável liberdade. “Eu estudava na Escola Parque, tinha aulas de música, noções empresariais, artes industriais e agrárias. Ao mesmo tempo que havia um filho de ministro na sala, havia o filho de um trabalhador. O nível de solidariedade era maior, porque todos sofriam com a precariedade. E nós andávamos tranquilamente pela rua e de ônibus sozinhos”, ressalta.

Perfil

 (Roberto Stuckert Filho/PR - 23/3/11)

Brasiliense nata

Nascida e criada em Brasília, Tânia Fontenele (foto, com a presidente Dilma Rousseff), 51 anos, formou-se em economia e optou, na pós-graduação, por administração e psicologia social e do trabalho. A trajetória, marcada por questões de gênero e diversidade, levou-a à Argentina, onde estudou políticas públicas e de gênero, e a Londres, para pesquisas sobre poder e lideranças de mulheres. Tânia é autora do livro Mulheres no topo de carreira — Flexibilidade e resistência e da publicação Trabalho de mulher: mitos, ritos e transformações. A pesquisadora também dirigiu os documentários A corrida das 5.300 mulheres em Brasília (1985) e Poeira & batom no Planalto Central — 50 mulheres na construção de Brasília (2010). Atualmente, ela coordena o Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, presta consultorias, ministra cursos e desenvolve pesquisas.

Programe-se

Exposição Memórias femininas da construção de Brasília. De 10 de abril a 30 de junho, no Museu Nacional dos Correios (SCS, Quadra 4, Bloco A). Organização e curadoria de Tânia Fontenele. Visitação: de terça a sexta-feira, das 10 às 19h; e sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h. Entrada franca. Informações: 3426-1000.

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