Corajosas como a onça e livres como um pássaro!

Corajosas como a onça e livres como um pássaro!

Escolho esta bela frase da companheira indígena Dona Lavínia, da Organização de Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR), para iniciar o relato sobre a experiência de estar longe e perto,a um só momento, e de como isto foi importante para mim.

Fórum das Mulheres Indígenas e Marcha das Mulheres Indígenas

Eu não estava lá! Mas estava Lá! Corajosas como a onça e livres como um pássaro, foi o que observei na força das mulheres indígenas em sua primeira Marcha nacional. Algo visível em cada foto, cada vídeo, cada relato que a mim chegava, reafirmando a coragem dessas mulheres. Impressionante constatar sua capacidade de organização, elas que vieram de tão longe, sendo de tantas etnias, com línguas diferentes, mas todas empenhadas na luta em defesa de seus territórios, seus corpos e seus espíritos. Transportaram a força ancestral para este momento. Mostraram enorme capacidade de resistência e de luta, e a reverência a todas que não estão mais nesta terra, mas tombaram defendendo seus territórios, seus saberes, suas vidas!

A todo momento minhas companheiras diziam: está muito lindo! Há muita energia circulando por aqui! Rivane, Guaraná, Maria Gavião, Lili, Angela, entre outras, me mandavam estes bilhetinhos no privado. Outras mandavam áudios e eu, me sentindo presente, em vários momentos chorei de emoção, como se estivesse lá, junto, recebendo diretamente a energia que essas mulheres traziam com seus cantos e suas danças. Eu me sentia lá!

Como bem disse Marinete Almeida Costa:“Esta Marcha é a união de vários povos para afirmar a luta e o fortalecimento de nossos povos. É muito emocionante, porque muitos familiares abandonaram seus povos para vir a esta Marcha, para lutar e mostrar a resistência de cada povo”.

Eu não estava lá! Mas estava Lá! Estavajuntinhade vocês acompanhando toda a movimentação. Estava juntinha, quando assisti a abertura, acompanhei as atividades e vi, de longe dos olhos mas de muito pertinho do coração, as ações que vocês realizaram. Ouvir os cantos, assistir as danças, ouvir as falas de vocês foi de um encanto, de uma força interior que vocês não podem imaginar. Obrigada a cada uma que enviou mensagens para o grupo da AMB indígena e no meu privado, contando como estava sendo este momento. Estava longe, mas estava perto.

As companheiras indígenas que também militam na AMB fortaleceram ainda mais esta aliança,tão importante para nós: Inara, Maria Gavião, Marinete, Merlanie, e mesmo as que não conseguiram chegar, contribuíram muito para isso. Não seremos as mesmas. Não serei a mesma.

Eu não estava lá! Mas estava Lá! Que lindo foi ver a AMB lançando, no Fórum das Mulheres Indígenas, a Campanha Nosso Corpo Nosso Território, e a emocionante fala da companheira Inara! Que lindo ver Verônica Ferreira compondo a mesa das organizações aliadas, junto com as militantes indígenas da AMB. Recebermensagens destas companheiras contando e nos permitindo acompanhar este Fórum,foi de uma riqueza imensa, e intensa!

Que lindo foi ver as imagens das mulheres indígenas chegando e ocupando o SESAI. Que estratégia fantástica. OCUPARAM e além disso forçaram a Ministra Rosa Weber, do STF, a recebê-las. Que ação impressionante. Como precisamos aprender com elas!

Eu não estava lá! Mas estava Lá! E a Marcha das Indígenas, companheiras?! Que coisa linda de ver e de vivenciar! Se eu, que estava longe, senti toda essa energia que aos poucos foi retroalimentando minha esperança de continuar na luta, imagino vocês, que lá estavam! As fotos e vídeos falam por si a respeito deste momento.

A Articulação de Mulheres Brasileiras estava lá! E eu, e nós todas, militantes desta articulação também estávamos lá! Concretizou-se nosso compromisso e reafirmou-se nossa aliança,feita solenemente na plenária da AMB (em maio de 2019) e na reunião nacional da Coletiva Antirracista e contra a Violação dos Direitos das Mulheres Indígenas, logo em seguida. Como disse Verônica Ferreira: “Com um passo à frente com o pé esquerdo, juntas, em nossa plenária de maio, firmamos o compromisso de fortalecer a luta das mulheres indígenas, dentro da AMB, e em aliança com suas organizações próprias nas suas lutas”. A construção coletiva sempre funciona e funcionou muito bem. O apoio, não só financeiro, mas principalmente político, foi fundamental e aprofundou esta aliança ainda mais. A Articulação de Mulheres realmente é diversa, mais não dispersa.

Marcha das Margaridas

Foi intensa a movimentação que se construiu nos estados e nesta, a presença da AMB. Uma movimentação que acompanhamos através das listas de e-mailse do Zap, com as chamadas de Nilde Souza e Silvia Camurça para que contribuíssemos na campanha de arrecadação de fundos, nos cursos de preparação que ocorreram nos Estados, na construção do caderno de formação. Tudo isto já mostrava o quanto estávamos comprometidas com a Marcha das Margaridas de 2019. Afinal de contas, a AMB é parte da coordenação e parceira desta ação há muito tempo e vem, a cada ano, fortalecendo mais e mais esta aliança. Foi admirável ver as militantes e a coordenação da AMB se empenhando num trabalho que resultou numa presença visível da AMB, neste processo. Não dá pra esquecer o compromisso  das organizações feministas integrantes da AMB, como o SOS Corpo, o Cfemea e a Redeh,cujas equipes não mediram esforçospara tornar tudo isto realidade.

Fiquei acompanhando, através da lista de Zap “AMBnasMarchas” (que Mayra querida criou e à qual me adicionou), a alegria das companheiras que chegavam, vindas em caravanas que partiram dos diferentes estados. Eram muitas fotos e muita empolgação por parte de todas. E quem já estava lá, as companheiras da AMB Candanga e do Cfemea, a nos passar informações sobre logística.

A AMB realizou ações em parceria ao longo do dia 13 de agosto. Muitas de nós se juntaram às Indígenas e outras tantas às atividades do Pavilhão onde estavam as Margaridas. Pelas fotos,e alguns depoimentos, acompanhei a grandeza dos debates, das rodas de conversa. Estivemos com oMovimento Interestadual de Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu(MIQCB), na roda sobre sociobiodiversidade na Pan Amazônia. Estivemos no Painel sobre Violência. Pude perceber como a Roda de Conversa facilitada pela AMB sobre Fundamentalismo, a pedra no caminho da nossa liberdade e autonomia”foi importante para fortalecer a campanha contra os fundamentalismos. Estávamos aí também como Articulação Feminista Mercosul. Também estávamos junto com a Marcha Mundial de Mulheres (MMM) puxando a oficina “Corpo e Sexualidade”: pelas fotos deu pra ver como foi concorrida.

E que bonita ficou a Tenda do Autocuidado! Colorida, aconchegante e tão necessária para momentos como este. É muito bom ver como a estratégia do cuidado e autocuidado está realmente fazendo parte do nosso movimento e se espalhando como um fractal. Vou aqui repetir uma bela frase, com a qual comungo integralmente, colocada por Guacira no e-mail, citando a pantera negra Angela Davis: “Devemos incorporar o autocuidado coletivo como parte do nosso trabalho de ativistas. É muito perigoso não reconhecer que, enquanto lutamos, estamos tentando pressagiar o mundo por vir, e o mundo por vir deve ser aquele em que reconhecemos a coletividade, as conexões, as relações e a alegria e, se não começarmos a praticar o autocuidado coletivo agora, não há como imaginar, nem muito menos alcançar um tempo de liberdade”. Parabéns companheiras por esta iniciativa! As fotos e os depoimentos sobre esta tenda também causaram muita emoção.

Lançamento do Encontro Nacional Feminista

Este foi um momento espetacular. Pelos relatos, pelas fotos e pelo áudio que me passou Carmen Silva, deu para sentir sua importância para o movimento feminista brasileiro. Em menos de dois meses a equipe de militantes do Fórum de Mulheres de Pernambuco e companheiras da coordenação nacional da AMB, conseguiram articular mais de 40 movimentos para assinar a carta convocatória do encontro feminista. Foi uma força tarefa grande e, a meu ver, a estratégia de lançar na abertura oficial da Marcha das Margaridas foi acertada no sentido de firmar e fortalecer alianças na construção deste GRANDE encontro que vai abalar as estruturas desse País. Vamos mostrar e afirmar que “Feminismo é Revolução!”  O manifesto ficou potente,ao explicar o objetivo de estarmos nesta construção. Foi lindo ver Elisa Aníbal, a batucada do Fórum de Pernambuco e aquela quantidade de movimentos no palco, selando este compromisso. Mais uma vez a AMB sai buscando a construção coletivasem estar como protagonista, a exemplo do que foi a construção da Conferência das Mulheres Brasileiras, de 2002. Aquela conferência foi construída por dez movimentos. Hoje o momento é outro, e por enquanto esta construção envolve 40 movimentos. Eu não estava lá! Mas estava Lá! 

No dia 14 pela manhãfui acompanhando, através do grupo de Zap“AMBnaMarcha”, a agonia no momento da saída:- Onde se encontrar, em qual carro de som? – Onde está a batucada? – Como vamos nos encontrar? Eu,de longe, lendo as mensagens, tive vontade de meintrometer na conversa (rs rs). Estava tão engraçada aquela agonia!Militantes da AMB juntas, preocupadas em formar sua ala e mostrar a força feminista, mostrar o compromisso que nossa organização teve com esta Marcha. Fiquei atenta e preocupada. Será que vai dar certo? Será que todas vão se encontrar? E todas se encontraram. Nossa presença na Marcha esteve colorida, alegre e aguerrida em suas palavras de desordem. A batucada, como sempre, animando nossa ala. Inúmeros vídeos, fotos, depoimentos. Tudo muito forte. Todas as alas, todos os carros, a Marcha vista de cima. Um mar lilás de mulheres marchando, florindo Brasília! As indígenas se somando uma vez mais. Uma beleza esta aliança das Mulheres Indígenas com as Margaridas!  E no final de tudo, nossa companheira Liliane, do Movimento Ibiapabano de Mulheres (MIM), encerrou nossa participação com a fala: – “Quem vai vencer essa luta? O ódio ou o amor? E quem vai comandar essa luta? As mulheres aguerridas”!  É isso mesmo Lili, somos nós, as mulheres, que vamos comandar esta luta. Que já estamos comandando.

Tudo isso que vi e vivi, todo este sentir sem estar lá de corpo físico, mas estando lá com a energia, o espírito… e aqui me lembro das companheiras indígenas…tudo isso tem a ver com a oportunidade que me foi dada de estar nesse time (obrigada Guaraná e Cris por terem me convidado para compor esta equipe), mesmo sem ter a sabedoria das jovens companheiras quando o assunto são as redes sociais, contribuindo com a Comunicação Compartilhada Colaborativa da AMB, junto com muitas outras parceiras. Esta comunicação arrasou! Trabalhamos muito, quem estava longe (como eu, Cristina Lima, Manu, Luna) e as queridas que estavam perto, fazendo esta ponte conosco: Fran e Cris. Muito trabalho, muito trabalho… mas valeu super a pena. Conseguimos espalhar imagens e notícias para as redes no Brasil e para companheiras de outros países. Um grupo formado por companheiras de vários países reverberaram este material em suas redes de movimentos. Tivemos conosco a companheira da Articulação Feminista Marcosul (AFM), que também atuou nos compartilhamentos, assim como as do Foro Feminista, que ficaram seguindo nossas redes sociais e ampliando a divulgação. Os feedbacksrecebidos foram muitos positivos. E a Rádio ZAP, que grande acerto minha gente!e como era bom escutar e notar a diversidade dos sotaques… realmente estamos em muitos lugares. Toda a equipe de comunicação arrasou.

Esta experiência me fez ver que não necessariamente é preciso estar no espaço. Hoje, com as redes sociais, temos esta possibilidade de nos sentir juntas e foi assim que me senti. Não quero dizer com isso que não gostaria de estar lá PRESENCIALMENTE. Gostaria muito. Foi muito difícil não ir. Mas foi legal saber que desta vez não deu, mas esta oportunidade de contribuir recebendo as imagens e vídeos no meu privado, fazendo triagens, postando, me fez estar presente neste momento. Posso dizer que não fui, mas parece que fui. Contraditório né?

Houve momentos em que fiquei doidinha por receber tanto material lindo para triar, e não o fiz. Simplesmente enviei tudo para o grupo das redes na Marcha, deixando as companheiras louquinhas. Hoje ainda estamos na atividade… ao mesmo tempo,estão em curso duas estratégias de fortalecimento da luta feminista no Brasil: a plenária ampliada da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres pela Legalização do Aborto (que começou ontem logo após o encerramento da Marcha das Margaridas), e o Lançamento da Frente Parlamentar Feminista Antirracista, no Congresso Nacional. A AMB está na linha de frente dessas construções, em que com certeza alianças serão ainda mais fortalecidas. Alianças com as indígenas, com as mulheres rurais e com o movimento de mulheres negras! No contexto que estamos atravessando, a participação em ações como estas alimenta a alma! alimenta o corpo e o espírito! Como disse Rogéria Peixinho: “Os dias aqui no Fórum/Marcha das Mulheres Indígenas e Marcha das Margaridas me encheramde ânimo, energia, força, coragem e esperança que dias melhores virão, pois as mulheres estão na luta e não deixarão de lutar…foi uma grande demonstração de força das mulheres brasileiras, foi um belo recado. Tenho certeza que cada uma de nós volta mais forte”.

Eu não estava lá, mas é este o sentimento que tenho no meu coração. Estou reenergizada! E como dizem as companheiras de Altamira, numa frase que ganhou o mundo: “As mulheres são como águas, crescem quando se juntam!”

Minhas amigas e companheiras de luta, companheiras que estão juntinhas caminhando em busca da utopia, em busca de “transformar o mundo pelo feminismo”, tive vontade de relatar para vocês esta minha experiência de Não estar lá, estando lá!, junto com vocês. Foi incrível. Obrigada pelas mensagens carinhosas que recebi nestes dias!

Estar neste movimento só tem me fortalecido a cada dia, e olha completo 25 anos nesta luta com vocês! Muitas saíram, outras permanecem e muitas estão chegando. Como diz a musiquinha de Domingas: “A AMB não é minha só, ela é de todas nós… para a AMB crescer, juntamos mãos com mãos, formamos uma roda pela transformação!”

E vamos chegar lá!

Analba Brazão Teixeira

15 de agosto de 2019

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