Ivonio Barros Enfermeira angolana trilha os passos de mãe formada na USP Maria José Luacute Kapilango, filha de Judith Luacute, foi uma de vários novos estudantes vindos de Angola recebidos pela Escola de Enfermagem (EE) da USP em evento nessa terça-feira Publicado: 14/08/2025 às 18:59 Jornal da USP Texto: Diego Facundini* Maria José Luacute Kapilango conversa com colega em sala de aula da Escola de Enfermagem (EE) da USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens Entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, Judith Luacute esteve entre as primeiras enfermeiras angolanas a serem formadas pela Escola de Enfermagem (EE) da USP. Na época, um convênio com a Organização Mundial da Saúde (OMS) permitiu que um grupo de enfermeiros de nível médio de Angola viesse ao Brasil para estudar nas escolas de enfermagem da USP em São Paulo e Ribeirão Preto. Décadas depois, Maria José Luacute Kapilango, filha de Judith, segue os mesmos passos da mãe. Ela está entre os 21 estudantes de Angola que foram recepcionados pela EE-USP em evento realizado na terça-feira, 12 de agosto. Eles são estudantes de pós-graduação da EE, que chegaram a São Paulo por meio de um convênio entre os ministérios da Saúde do Brasil e de Angola. O convênio de cooperação tem o objetivo de fortalecer o sistema de saúde angolano. Esses bolsistas são trabalhadores da enfermagem em serviço e mantêm seus vínculos empregatícios em Angola. A ideia é que se especializem no Brasil e, posteriormente, retornem para o país de origem. “O Ministério da Saúde de Angola tem um estímulo do Banco Mundial para a capacitação e o treinamento dos seus profissionais de saúde”, contou a vice-diretora da EE, a professora Ana Luiza Vilela Borges. Segundo ela, o objetivo central está na mudança do modelo de atenção do sistema de saúde para, por exemplo, priorizar a atenção primária, por meio da capacitação e do treinamento. Hoje consultora da ministra da Saúde de Angola, Judith Luacute esteve diretamente envolvida nesse convênio. “Se nós hoje estamos aqui novamente na USP e Angola firmou esse convênio com o Brasil foi graças a ela, porque veio para cá, conversou com a USP e com os responsáveis, em Angola conversou com a ministra da Saúde e os seus parceiros, e vieram para cá para o ano passado para firmar o acordo”, afirmou a filha, Maria José. A recepção ocorreu no foyer da EE - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens As Luacutes Em 1989, Judith veio ao Brasil com um grupo de 20 pessoas. “Foram quatro ou cinco anos que elas ficaram aqui. A maioria voltou para Angola e abriu o Instituto Superior de Enfermagem [ISE, ligado à Universidade Agostinho Neto, hoje renomeado para Instituto Superior de Ciências de Saúde, ou ISCISA]. Foi ali que começaram a surgir os primeiros – lá em Angola falamos licenciados – graduados em enfermagem”, disse Maria. Sua mãe, porém, só retornou a Angola em 2005, quando percebeu que esses enfermeiros graduados não estavam inseridos no mercado de trabalho. “Ela criou uma organização social fazendo parceria com o maior hospital de Angola, que é o Hospital Josina Machel. Ela conversou com o diretor e começaram a contratar os primeiros enfermeiros graduados para trabalharem na assistência”, disse a pós-graduanda angolana. No caso da filha, a vinda ao Brasil aconteceu quando ainda era bem nova, em 1993. Maria, que hoje participa do Mestrado Profissional em Enfermagem na Atenção Primária em Saúde no Sistema Único de Saúde (MPAPS), fez faculdade de Enfermagem na Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban) e especialização na Universidade Nove de Julho (Uninove). Suas duas filhas nasceram aqui no País e ela trabalhou por 15 anos na rede municipal de saúde de São Paulo, até retornar para Angola em 2016. “Fiquei muito tempo vivendo fora e minha mãe estava lá. Eu sou filha única, sentia a falta dela, queria também dar o meu contributo”, contou Maria José. Lá, trabalha no Hospital Pediátrico de Luanda. Para ela, a expectativa para a nova estadia no Brasil é grande, “de sairmos daqui com novos conhecimentos para podermos fazer a diferença no nosso país”, disse. Em sua apresentação para os novos colegas, fez questão de afirmar: “Estou muito feliz e emocionada, porque aqui é onde começou a história da minha mãe, e colocar os meus pés aqui, para começar, é bastante emocionante.” Maria José Luacute Kapilango - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens Judith Luacute - Foto: Projeto Luacute -Atendimento Humanizado/Facebook Um sarau com bolo de fubá Poesia, cantos e danças marcaram a recepção organizada pelo projeto De Braços Abertos - Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens A recepção – que foi um show à parte – foi organizada pelo projeto De Braços Abertos: Acolhimento de estudantes imigrantes na perspectiva de gênero, raça e classe social. Contou com poesia e música apresentadas por estudantes angolanos da graduação, membros do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), do governo federal. Houve também uma roda de dança e um bolo de fubá com goiabada, além da exibição de um documentário do artista angolano Paulo Chavonga, que compareceu para discutir a obra e pintar um quadro. O projeto de inclusão e pertencimento tem uma equipe composta de graduandos e foi criado pela professora Nayara Gonçalves Barbosa. “A gente trabalha com a detecção de necessidades de ensino, aprendizagem, adaptação e vivência no Brasil, e também promove uma troca intercultural, em que eles apresentam elementos da cultura deles e compartilham. A gente faz uma internacionalização em casa”, descreveu Nayara. “A gente dá a voz para eles, para poderem mostrar um pouco da cultura deles para a gente também”, complementou Maria Eduarda Alves, estudante de Ciências Sociais e bolsista do projeto. Maria Eduarda Alves - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens Os estudantes de Angola tiveram contato com a culinária brasileira - Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens No foyer da EE, com vista ao jardim, os 21 novos estudantes se aglomeraram em frente a um tecido samakaka (tradicional de Angola) estendido pela janela. A placa de papelão que o sobrepunha dava as boas vindas a todos. Antes de tudo, entoaram o Hino de Angola: “Honramos o passado e a nossa história,” diz a letra, “construindo no trabalho um homem novo”. Depois, a música Angola (País Novo), do músico Matias Damásio. Assumiu o microfone Daniela João Baltazar, angolana e estudante de Relações Internacionais. Em voz plena e emocionada, ela declamou o poema Deus da Terra, de autoria de um amigo, sobre a atual situação política pela qual passa Angola. O país vive em estado de guerra civil após uma leva de protestos contrários ao aumento dos preços dos combustíveis. Mais de 50 pessoas já foram mortas por consequência da repressão policial do governo do presidente João Lourenço. “A gente ainda tem a fé de que, pela educação, a gente vai melhorar o nosso país, e é por essa mesma educação que a gente hoje está aqui”, disse, ao fim do poema, Dorcas Wadiwa, estudante angolana da EE que conduziu as apresentações. “Porque somos jovens, a maior parte de nós, que deixamos a nossa terra-mãe, deixamos a nossa pátria, a nossa Angola querida, para estar aqui para lutar por um futuro melhor. É nessa Angola que nós acreditamos”, acrescentou. O estudante de Engenharia Miguel Kalawaku cantou uma música de Toto ST, Luzingo Malembe, que significa “Vida calma”. Seguido dele, Cármen Pambassangue, técnica de enfermagem, recitou o poema Havemos de Voltar, escrito pelo primeiro presidente de Angola após a independência, Agostinho Neto. “Eu ainda creio, espero e acredito que voltaremos a uma Angola melhor, em uma Angola linda, livre de todo estigma e problemas que temos atualmente”, disse. Trazendo a troca cultural ao paladar, a nutricionista Juliane Palma trouxe um bolo de fubá com goiabada, um alimento afetivo para muitos brasileiros, e fez uma apresentação sobre o milho na cultura culinária brasileira. Houve uma pausa para o bolo e para a confraternização. Por último, Daniela declamou outro poema – Justiça Social –, Miguel cantou outra canção – My Life is in Your Hands, de Kirk Franklin – e, afinal, todo o ambiente desembocou em uma grande dança. Sonhos exilados Paulo Chavonga tem produções nos eixos da pintura, da poesia e do cinema - Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens O artista plástico, poeta e cineasta angolano Paulo Chavonga esteve presente durante toda a recepção, pintando o retrato de uma vendedora ambulante de Angola. Chavonga vive há oito anos no Brasil e lançou, em 2023, o documentário Sonhos Exilados, no qual acompanha a trajetória de imigrantes africanos que trabalham nas ruas de São Paulo, majoritariamente no Centro, na região conhecida como Pequena África. De acordo com o autor, “é um compromisso comigo mesmo ou com essas pessoas ao meu entorno, enquanto imigrante africano também, de perceber, apesar dos diversos motivos que nos trazem aqui, quanto que a gente tem em comum. De as pessoas nos colocarem num grupo só, apesar da gente vir de diferentes lugares e com motivos diferentes. Problematizo o imaginário brasileiro sobre a gente africana aqui em São Paulo e no Brasil”. O filme foi exibido para os novos estudantes, seguido de um debate com Chavonga. Por fim, todos os recém-chegados tiveram a chance de apresentar-se uns aos outros. *Estagiário sob orientação de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto Leia mais + USP ministra curso sobre literaturas africanas para professores do ensino básico USP integra formação de médicos angolanos com foco na atenção primária à saúde USP e Angola assinam acordo para qualificação de profissionais da saúde fonte: https://jornal.usp.br/diversidade/enfermeira-angolana-trilha-os-passos-de-mae-formada-na-usp/ Artigo anterior: Sílvia Lutucuta, ministra da Saúde de Angola, destaca cobertura universal da saúde como forte compromisso do Executivo Anterior Próximo artigo: Mulheres são a maioria, "mas ainda fazem parte do grupo marginalizado em Angola" Próximo