Jornalista/historiadora lança livro, em Brasília, sobre imprensa negra no século XIX

Jornalista/historiadora lança livro, em Brasília, sobre imprensa negra no século XIX

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Ao ressaltar momentos marcantes da imprensa negra oitocentista, o livro de Ana Flávia Magalhães Pinto debate as formas de resistência negra e contribui para o enfrentamento da discriminação racial no Brasil

 

imprensa-negraBrasília (Brasil) – Ao longo do século XIX, indivíduos e grupos negros letrados criaram espaços na imprensa para tratar dos assuntos que consideravam importantes e expor suas ideias sobre os rumos do país. Experiências cotidianas e variadas de enfrentamento do racismo, a criação de redes de sociabilidade e o uso de instrumentos legais para promover a cidadania foram registradas nas páginas de jornais assinados por “homens de cor” e dirigidos a eles.

No livro Imprensa negra no Brasil do século XIX (184 p., R$ 21,00), quinto volume da Coleção Consciência em Debate, da Selo Negro Edições, a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto resgata títulos da imprensa negra oitocentista publicados em cidades e períodos diferentes. Pioneira, a obra aborda a experiência da liberdade e da cidadania, destacando a utilização da imprensa como um instrumento de resistência negra em pleno sistema escravagista. O lançamento acontece no dia 14 de outubro, quinta-feira, das 19h às 22h, na Livraria Cultura de Brasília (Casa Park Shopping Center – SGCV – Sul – Lote 22 – Loja 4ª – Zona Industrial – Guará – DF).

Fruto do trabalho de homens negros livres, cuja cidadania era reconhecida pelas Constituições de 1824 e 1891, os periódicos denunciaram e combateram os entraves criados à garantia desse direito em variados espaços da sociedade da época – ainda organizada com base na escravidão de africanos e de seus descendentes. “Dirigidas a outros cidadãos, que teriam a mesma aparência dos redatores, aquelas palavras afirmavam talentos e virtudes e pretendiam contribuir para a solução de problemas enfrentados por aquelas pessoas”, conta a autora.

Resultado de pesquisa historiográfica para uma dissertação de mestrado defendida em 2006, a obra reúne oito títulos que, apesar dos intervalos, compreendem o período de setembro de 1833 a agosto de 1899. São eles: O Homem de Cor ou O Mulato, Brasileiro Pardo, O Cabrito e O Lafuente, do Rio de Janeiro (RJ), em 1833; O Homem: Realidade Constitucional ou Dissolução Social, de Recife (PE), em 1876; A Pátria – Órgão dos Homens de Cor, de São Paulo (SP), em 1889; O Exemplo, de Porto Alegre (RS), de 1892; e O Progresso – Órgão dos Homens de Cor, também de São Paulo (SP), em 1899.

Dividido em quatro capítulos, o livro apresenta um panorama dos jornais e revela a atuação de um razoável número de negros letrados capazes de gerar e absorver as ideias emitidas nos periódicos, além de disseminá-las entre os pares iletrados. O primeiro capítulo aborda o material dos pasquins negros publicados no Rio de Janeiro de 1833, no período regencial. Com base em dados sobre personalidades envolvidas na produção desses periódicos e da imprensa fluminense – como Francisco de Paula Brito e Maurício José de Lafuente –, mostra-se uma rede de solidariedade negra à qual interessavam a conservação de garantias individuais e a construção de uma voz coletiva direcionada ao fortalecimento do grupo.

Saindo da Corte Imperial, o estudo centra-se em Recife, onde se deu a publicação dos doze números do jornal O Homem nos primeiros meses de 1876. O segundo capítulo traz o exame da vasta argumentação do impresso acerca de assuntos de interesse da população negra local. “Além de ser o primeiro jornal negro de Pernambuco, O Homem é tido como primeiro periódico abolicionista daquela província”, revela a autora.

A democracia racial em nome do progresso da pátria é o tema do terceiro capítulo, que traz dois exemplares da imprensa negra paulista: os jornais A Pátria e o Progresso. No último capítulo, a autora fala sobre o primeiro jornal negro do Rio Grande do Sul, iniciado em 1892, destacando a multiplicidade das questões tratadas como alvo de grande interesse para a população negra gaúcha. “Nesses novos tempos de lutas contra o racismo, o livro fortalece a discussão de ações pela cidadania dos negros no Brasil”, conclui Flávia.

Consciência em Debate
A Coleção Consciência em Debate, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora dos movimentos sociais e da diáspora africana no Brasil e no mundo, tem como objetivo debater temas prementes da sociedade brasileira, tanto em relação ao movimento negro como no que concerne à população geral. Outros volumes: Relações raciais e desigualdade no Brasil • Políticas públicas e ações afirmativas • História da África e afro-brasileira • Literatura negro-brasileira.

A autora
Ana Flávia Magalhães Pinto nasceu em Planaltina, Distrito Federal, em 1979. Graduou-se em Comunicação Social/Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (2001), concluiu o mestrado em História pela Universidade de Brasília (2006) e atualmente é doutoranda também em História pela Universidade Estadual de Campinas, desenvolvendo pesquisa sobre experiências de intelectuais negros na imprensa brasileira do século XIX. É colunista do jornal Ìrohìn.

Mais informações: www.selonegro.com.br

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