Uma mulher inconfidente

Uma mulher inconfidente

Da maneira como a história do país nos é contada, raramente sabemos como foi a história das mulheres em momentos decisivos da historia política do nosso país.
Resgatar essas histórias é dar visibilidade à luta daquelas que lutaram com coragem por mudanças, numa sociedade ainda mais machista do que a que vivemos hoje.

Hoje, dia 21 de abril e dia de Tiradentes, considerado o heróí da Incofidência Mineira. O que pouca gente sabe e que no grupo de Tiradentes havia uma mulher: Hipólita Jacinta Teixeira de Melo.

Hipólita nasceu em 1748 em Prados, interior de Minas. Casou-se com Francisco Antônio de Oliveira Lopes, membro do grupo de Tiradentes.

No início, Hipólita ajudou na comunicação entre os inconfidentes, arriscando-se a distribuir cartas e comunicados. Mais tarde, com os principais líderes presos, ela tentou organizar uma articulação com militares mineiros para levar a revolução adiante.

Segundo a Revista Aventuras na História:

“Transformaram sua casa em ponto de encontro de outros descontentes. Ali compareciam os heróis da Inconfidência Mineira. Só não sabiam que, entre eles, um sobrinho por afinidade de Francisco Antônio, chamado Joaquim Silvério dos Reis, viria a ser um delator, um traidor, pois não lhe conheciam a falta de caráter”, diz o historiador Ronaldo Simões Coelho no livro Hipólita – A Mulher Inconfidente.

“Hipólita foi a única mulher que participou da Inconfidência”, disse à Revista o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do estudo “A Mulher na Inconfidência Mineira”, que disseca o período dos acontecimentos de 1789. Segundo ele, as informações do período são escassas, mas dois episódios comprovam a participação efetiva de Hipólita.

O primeiro é uma carta escrita a Francisco Antônio, em maio de 1789, alertando que o líder Tiradentes e o traidor Joaquim Silvério dos Reis encontravam-se presos no Rio de Janeiro por causa dos planos da revolução, delatados por Silvério dos Reis ao governo português. “Na carta, ela pediu para o marido agir com cautela, mas sem se furtar ou esquecer de que ele fazia parte de um grupo de revoltosos que lutavam por ideais de melhoria das condições de vida e trabalho em Minas Gerais”, diz Rodrigues.

Outro episódio importante que demonstra o envolvimento de Hipólita foi o fato de proibir o marido de entregar ao então governador de Minas, o Visconde de Barbacena, uma carta-denúncia delatando o movimento. A carta, que seria entregue pessoalmente por Francisco Antônio para tentar diminuir sua pena por participar da Conjuração Mineira, foi queimada por Hipólita, que também destruiu outros documentos que pudessem delatar os revolucionários. Mesmo assim, ela tentou de tudo para salvar o marido, preso e enviado ao Rio de Janeiro junto com os outros inconfidentes. Durante o processo, mandou confeccionar um cacho de bananas de ouro maciço, em tamanho natural, ofertado à rainha de Portugal, dona Maria I, para obter o perdão do cônjuge. A oferenda, porém, jamais chegou ao destino, pois foi interceptada pelo Visconde de Barbacena. Preso, Francisco Antônio e os outros conjurados foram degredados para a África, onde morreram. Tiradentes foi o único a receber a pena de morte, e Vitoriano, que era negro e alfaiate, foi açoitado.

Apesar de os autos da devassa registrarem apenas o julgamento e as penas dos integrantes masculinos da conjuração, Hipólita sofreu os efeitos da derrota dos inconfidentes. Durante anos, lutou para reaver os seus bens, confiscados pela Coroa. “Após a prisão dos inconfidentes e do início de repressão contra as famílias, Hipólita não escapou das punições impostas pela Coroa portuguesa”, diz Figueiredo Rodrigues. Acusada de participar do movimento, ela perdeu todos os bens. Inconformada, escreveu ao secretário do Ultramar, dom Rodrigo de Sousa Coutinho, em Lisboa, solicitando a restituição de boa parte do patrimônio sequestrado em Minas Gerais, alegando ser herança paterna.

“A estratégia deu certo, pois ela conseguiu recuperar a fazenda Ponta do Morro, onde morava, e alguns bens, como objetos de casa e de mineração, móveis e escravos”, diz o historiador Rodrigues.

“A luta pela posse dos seus bens mostra o quanto Hipólita era corajosa e quebra a imagem da sociedade patriarcal em que as mulheres eram submissas e se restringiam aos afazeres domésticos”, diz o historiador Elias Feitosa. “É possível, inclusive, que possa ter havido uma estratégia para a troca de mensagens sem provocar a desconfiança da Coroa. Quem iria suspeitar de uma mulher participando de uma revolução?”

Leia mais em A inconfidente de saias: a história da única mulher que participou da Inconfidência Mineira.

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