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BRASIL: Uma das principais vozes da literatura afro-brasileira, Conceição Evaristo ministra aula na Universidade Estadual de Campinas

Evento será aberto ao público e terá transmissão online pela TV Unicamp

29 jul 2026Compartilhar

Autoria Fabio Gallacci

Edição de Imagem Paulo Cavalheri

Fotografia Antonio Scarpinetti Lúcio Camargo Rovena Rosa (Agência Brasil)

Escritora, linguista e pesquisadora, Conceição Evaristo é uma das principais vozes da literatura afro-brasileira contemporânea. Nascida em Belo Horizonte (MG), a autora construiu uma trajetória marcada pela valorização da memória, da ancestralidade e das experiências da população negra, especialmente das mulheres. No próximo dia 6, a partir das 18h, ela ministra uma aula aberta no Auditório da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) da Unicamp. O evento é aberto ao público e terá transmissão ao vivo pelo canal da TV Unicamp no Youtube.

A atividade tem apoio do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), do Projeto Afro Memória, além da própria Comvest, já que a aula especial integra as celebrações dos 40 anos do Vestibular da Universidade.

A presença de Conceição Evaristo – que integra a lista das leituras obrigatórias do Vestibular da Unicamp – é uma iniciativa que amplia o diálogo com intelectuais negros e dá continuidade à parceria com o Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa, formação e difusão sobre a temática racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Em 2023, essa parceria promoveu uma aula aberta com o grupo de rap Racionais MC’s, também autores de leitura obrigatória do Vestibular.

Além da aula aberta, Conceição participará de uma série de atividades. A programação inclui visita ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), onde serão discutidas possibilidades de cooperação técnica entre a Universidade e a Casa Escrevivência, instituição responsável pela preservação do acervo da autora no Rio de Janeiro. O objetivo é tratar sobre a organização, a restauração e a digitalização de acervos do trabalho desenvolvido pela Casa Escrevivência, responsável pela guarda do patrimônio documental da escritora. Também estão previstas visitas à Fazenda Roseira e à Casa de Cultura Tainã.

Pessoa preta com cabelo grisalho ondulado, usando blusa branca com detalhes em padrão geométrico e cardigan bege claro com furos decorativos, está com a mão direita levada ao rosto enquanto segura um objeto redondo avermelhado entre os dedos, em frente a um fundo branco com letras em tom ciano parcialmente visíveis.
A presença de Conceição Evaristo é uma iniciativa que amplia o diálogo com intelectuais negros (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Legado

Para o professor Aldair Rodrigues, do IFCH, a presença de Conceição Evaristo representa mais do que apenas uma aula pública. A proposta é trazer para a Universidade autores que contribuam diretamente para o debate acadêmico e deixem um legado institucional, fortalecendo parcerias em pesquisa, preservação de acervos e extensão universitária. “A importância da escritora também está relacionada ao reconhecimento crescente de sua obra como parte do cânone da literatura brasileira. Criadora do conceito de ‘escrevivência’, Conceição Evaristo é apontada como uma das principais intérpretes do Brasil contemporâneo, ao retratar, por meio da literatura, as desigualdades sociais, as experiências da população negra e a complexidade das relações humanas. Ela é muito estratégica porque escreve de uma forma acessível e sensível. As pessoas se conectam com sua obra, há uma capacidade de comunicação extraordinária”, ressalta o professor.

Ainda de acordo com Rodrigues, a produção da escritora amplia as possibilidades de compreensão da sociedade brasileira e contribui para incorporar novas perspectivas na produção do conhecimento. “A aproximação entre a instituição e a autora também dialoga com as políticas de ações afirmativas e com o processo de diversificação do ambiente universitário, aproximando a academia de públicos historicamente pouco representados. A atividade fortalece a extensão universitária ao abrir as portas da Unicamp para a comunidade”, acrescenta o professor do IFCH.

A inclusão de obras de Conceição Evaristo entre as leituras obrigatórias do Vestibular da Unicamp é vista por Rodrigues como um reconhecimento da relevância acadêmica e literária de sua produção. “A iniciativa reforça o papel da autora na literatura brasileira contemporânea e amplia sua presença no ambiente universitário, aproximando novos leitores de uma obra marcada pela sensibilidade, inovação na linguagem e reflexão sobre a realidade brasileira”, diz ele.

Pessoa preta usando óculos de armação escura, camisa de linho bege com mangas dobradas, relógio preto no pulso esquerdo, mão esquerda no bolso, em pé contra fundo cinza neutro.
O pós-doutorando no IFCH Paulo César Ramos: narrativas pouco representadas na literatura nacional

Olhos d’Água

Sociólogo, pós-doutorando no IFCH, pesquisador do Afro-Cebrap e um dos coordenadores do projeto Afro Memória, além de ser um dos responsáveis pela vinda de Conceição Evaristo a Campinas, Paulo César Ramos reforça que a presença da escritora amplia o reconhecimento de narrativas historicamente pouco representadas na literatura nacional. Para ele, a obra da escritora oferece uma perspectiva alternativa sobre a história e a experiência social brasileira ao colocar no centro personagens e vivências que durante muito tempo permaneceram à margem. “É sobre lembrar, esquecer e ficcionalizar experiências humanas. São histórias que a literatura brasileira nem sempre contou”, confirma.

Ramos lembra que esse olhar está presente em obras como Olhos d’ÁguaBecos da Memória e Canção para ninar menino grande, que contribuíram para consolidar o nome de Conceição Evaristo.

Ramos aproveita a presença da escritora para destacar o impacto das ações afirmativas na transformação do perfil das universidades brasileiras. Segundo ele, instituições historicamente associadas à formação das elites passaram a incorporar estudantes e pesquisadores de diferentes origens, ampliando também as perspectivas presentes na produção de conhecimento – exatamente o papel da escritora na literatura e na academia.

Antirracista

Diretor da Comvest da Unicamp, o professor José Alves de Freitas Neto celebra a chance de absorver a experiência e o conhecimento da escritora. “A presença de Conceição Evaristo nas comemorações dos 40 anos da Comvest é um marco para a Unicamp. Autora de Olhos d’Água, obra da lista de leituras obrigatórias do Vestibular, ela representa o compromisso da Comissão com uma formação mais crítica, plural e antirracista. Sua obra amplia o olhar dos estudantes sobre as experiências de grupos historicamente marginalizados e integra uma lista que valoriza a diversidade de narrativas, ao lado de autores como Carolina Maria de Jesus e Racionais MC’s. Recebê-la na Universidade torna essa celebração ainda mais significativa”, afirma.

Pessoa branca usando óculos de armação cinza com detalhes verdes e camisa preta com botões, posicionada de perfil à direita, com expressão de fala, em ambiente de sala com quadro branco ao fundo, prateleiras bege e cabo preto visível à esquerda.
Os professores Aldair Rodrigues (à esquerda) e José Alves (à direita): autora integra a lista das leituras obrigatórias do Vestibular da Unicamp

Escritora desenvolveu sólida carreira acadêmica

Criada em uma família numerosa e de poucos recursos, na antiga comunidade do Pendura Saia, na periferia de Belo Horizonte (MG), Conceição Evaristo teve na mãe, Joana Josefina Evaristo, uma importante incentivadora da leitura e da escrita. Ainda jovem, conciliou os estudos com o trabalho como empregada doméstica. Em 1971, concluiu o curso normal e, dois anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério por meio de concurso público.

Em 1987, ingressou no curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formando-se em 1990. Ela também desenvolveu uma sólida trajetória acadêmica. Cursou mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), concluído em 1996, e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), concluído em 2011. Ao longo da carreira, lecionou e ministrou cursos em diferentes instituições de ensino superior brasileiras e estrangeiras.

Escrevivência

Um dos principais conceitos associados à produção intelectual da autora é a Escrevivência, termo criado pela escritora a partir da união das palavras “escrita” e “vivência”. A ideia relaciona literatura, memória e experiência coletiva, especialmente a partir das vivências de mulheres negras e da população negra e periférica.

Foto de capa:

Pessoa negra de cabelos grisalhos usando blusa bege com padrão de pontos brancos, posicionada de perfil à direita, apontando com a mão esquerda para fotografias em preto e branco penduradas na parede, com fundo branco e detalhes em laranja e amarelo visíveis ao fundo.
Além da aula aberta, Conceição Evaristo participará de uma série de atividades na Unicamp (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

fonte: https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/07/29/uma-das-principais-vozes-da-literatura-afro-brasileira-conceicao-evaristo-ministra-aula-na-universidade/

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