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Leopoldina Fortunati: ‘Operárias da casa e do sexo integram cadeia de produção capitalista’

Socióloga italiana diz que dupla jornada e trabalho não remunerado são centrais para compreender exploração capitalista

Leopoldina Fortunati

Leopoldina Fortunati | Crédito: Acervo pessoal

Publicado pela primeira vez em 1981, o livro “O arcano da reprodução – donas de casa, prostitutas, operários e capital”, da socióloga italiana Leopoldina Fortunati, ganha sua primeira tradução para o português pela editora Boitempo e recoloca no debate a relação entre trabalho doméstico, exploração e reprodução do capital. 

A partir das revoltas sociais dos anos 1970 que questionaram as divisões sexuais e raciais do trabalho, Fortunati propõe uma leitura da reprodução como parte central do funcionamento do capitalismo. Para a autora, o trabalho realizado pelas “operárias da casa” e pelas “operárias do sexo” integra o processo de produção de valor e não pode ser tratado como uma atividade externa ao sistema produtivo.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Fortunati afirma que o capital se beneficia do trabalho doméstico não remunerado e argumenta que a entrada das mulheres no mercado de trabalho ampliou a exploração por meio da dupla jornada. 

“O que as mulheres ganham é dupla jornada. Trabalham em casa e trabalham fora. Mas a parte terrível é que, como trabalhamos gratuitamente em casa, quando entramos no mercado de trabalho, somos muito fracas nas negociações e sempre ficamos em último lugar. Por isso ocupamos empregos humildes e mal pagos. Também porque sobre os ombros das mulheres recai a responsabilidade pelas crianças”, diz. 

Ao defender a redução da jornada global de trabalho, dentro e fora de casa, Fortunati critica a ideia de emancipação baseada apenas no emprego formal e afirma que o debate sobre trabalho reprodutivo continua central para compreender as formas atuais de exploração. “O resultado é a dupla jornada por um salário pequeno, modesto, que não permite independência econômica em relação aos homens. Essa é a tragédia. Nem mesmo quando trabalhamos fora de casa somos completamente independentes economicamente dos homens”, afirma. 

A socióloga também critica setores da esquerda que trataram a entrada das mulheres no mercado de trabalho como sinônimo de emancipação sem enfrentar a questão do trabalho doméstico. Para Fortunati, a ausência desse debate manteve as mulheres em posições precárias e reforçou a dependência econômica dentro das famílias

Leia a entrevista abaixo:

Brasil de Fato: Como o capital se beneficia dessa dualidade formal, em que a fábrica é o lugar onde o valor é criado enquanto o lar é representado como um espaço de “produção natural” de não valor?

Leopoldina Fortunati: Essa é uma nova contribuição do movimento feminista, em particular do feminismo marxista operaísta, porque Marx enxergava apenas uma esfera, a esfera da fábrica, onde mercadorias e bens são produzidos. Para ele, o sistema capitalista coincide, em linhas gerais, com essa esfera. Ele não resolveu a outra questão. Nossa ideia é que o sistema capitalista é composto por duas esferas diferentes. Uma é a fábrica e a outra é a casa. Mas a organização é bastante complexa porque, enquanto na fábrica a relação entre trabalhadores e capital é clara, muito clara e simples, na esfera da reprodução, para as mulheres, nada é simples, porque existe um padrão duplo, uma dimensão dupla. Há um plano formal em que parece que as mulheres produzem bens naturais, valores de uso para suas famílias, quando na realidade produzem valor para o capital. Para entender isso, também precisamos reconfigurar a relação entre homens e mulheres no sentido de que essa relação não é como aparenta ser. Na realidade, é uma relação entre homens, mulheres e capital. O capital é o convidado nessa relação, mas é o elemento que lucra com o trabalho das mulheres, porque os homens não lucram com o trabalho das mulheres. Eles usam o trabalho das mulheres apenas para sua sobrevivência.

É como uma mediação entre o capital e as mulheres. Mas a verdadeira relação é entre mulheres e capital. O capital ganha muito dinheiro com o trabalho das mulheres. Muitos economistas calculam que o valor do trabalho doméstico no mundo em um ano gira em torno de 11 trilhões de dólares. E isso é calculado com base em um salário mínimo. Portanto, poderia ser muito mais.

A senhora menciona que, enquanto a produção migrou para a extração de mais-valia relativa, o lar permaneceu como um espaço de extração de “mais-valia absoluta”. O que essa transição significa para a extensão da jornada de trabalho das mulheres na sociedade contemporânea?

Sim. Nos anos 1970, podemos dizer que havia essencialmente uma produção de mais-valia absoluta dentro de casa porque o uso de tecnologias era muito limitado. Havia geladeiras elétricas, máquinas de lavar e outros aparelhos domésticos. Não sei exatamente como se chamam em inglês, máquinas domésticas.

Mas eles também eram muito simples. Em comparação com o investimento tecnológico que o capital fazia nas fábricas, por exemplo, era algo ridículo. Ainda assim, eram úteis para as mulheres porque ajudavam em certas tarefas. Mas agora temos uma dupla extração de valor, tanto em termos absolutos quanto relativos, porque agora, com o uso do celular, do smartphone e do computador em casa, produzimos valor relativo para o capital. Não apenas as mulheres, mas todos os membros da família.

Porque, ao usar redes sociais e plataformas digitais, nós entregamos nossos dados gratuitamente para essas empresas. Essas empresas vendem nossos dados e ganham muito dinheiro tanto com outras empresas quanto com alguns Estados. Isso é bastante perigoso. E o valor que produzimos é imenso, porque, se você observar a lista das empresas mais capitalizadas do mundo, verá que entre as dez primeiras há seis empresas digitais. Há a Meta, Amazon, Microsoft, Apple, Google e também empresas de inteligência artificial como a OpenAI. Portanto, a esfera da reprodução tornou-se duplamente produtiva porque continua produzindo e reproduzindo indivíduos, pessoas, mas ao mesmo tempo produz valor para essas empresas digitais.

Não apenas dados, mas também conteúdo produzido pelos usuários. O conteúdo produzido pelos usuários é muito importante para essas empresas porque revelamos muitas coisas. Elas aprendem muito com o que escrevemos. E escrevemos, claro, gratuitamente. Dedicamos muito tempo a isso sem receber pagamento.

A senhora descreve um movimento de “sovietização da política capitalista” a partir dos anos 1970. Como essa estratégia do capital, que promove a entrada das mulheres no mercado de trabalho sob o pretexto da emancipação, serve na realidade para intensificar a exploração por meio da dupla jornada?

Exatamente. Existe esse paradoxo de que o capital adotou estratégias de Lenin. A estratégia de Lenin também era limitada porque eles não tinham consciência do trabalho doméstico. Isso foi uma tragédia para a esquerda em muitos países, porque a proposta não vinha apenas do capital, mas também da esquerda. Aos homens era proposta a revolução. Na fábrica, a luta deveria seguir até acabar com a exploração.

Também havia presença nas lutas camponesas, como ocupações de terra na Itália, mas o núcleo principal estava ali. Para as mulheres, nunca foi proposta a revolução. No máximo, propunham a equiparação da exploração com os homens, porque emancipação significava sair de casa, conseguir um emprego e ser explorada como os homens. Esse seria o máximo a que uma mulher poderia aspirar. E sem nenhuma palavra sobre o trabalho doméstico, que era completamente ignorado.

Isso foi uma tragédia porque as mulheres sempre desempenharam um papel marginal nesse tipo de organização, um papel marginal nas lutas e nas próprias organizações. Toda a energia das mulheres, que é enorme, foi bloqueada, não desenvolvida para a luta, para a revolução ou para qualquer outra coisa.

O que as mulheres ganham é dupla jornada. Trabalham em casa e trabalham fora. Mas a parte terrível é que, como trabalhamos gratuitamente em casa, quando entramos no mercado de trabalho somos muito fracas nas negociações e sempre ficamos em último lugar. Por isso ocupamos empregos humildes e mal pagos. Também porque sobre os ombros das mulheres recai a responsabilidade pelas crianças.

Se um casal trabalha e uma criança fica doente, quem fica em casa? A mãe. Isso torna as mulheres trabalhadoras muito frágeis porque elas não têm mobilidade. Precisam estar sempre organizando o que acontece dentro de casa. O resultado é a dupla jornada por um salário pequeno, modesto, que não permite independência econômica em relação aos homens. Essa é a tragédia. Nem mesmo quando trabalhamos fora de casa somos completamente independentes economicamente dos homens.

Por isso é tão importante a campanha internacional que lançamos em Paris no ano passado para exigir remuneração pelo trabalho doméstico. Precisamos ser pagas. Queremos ser pagas. Merecemos ser pagas como qualquer outro trabalhador.

No contexto brasileiro atual, discute-se o fim da escala 6×1. Como sua tese sobre a “redução da jornada global de trabalho”, doméstica e extra doméstica, contribui para o debate de que reduzir o tempo na fábrica ou no comércio é insuficiente sem um ataque simultâneo à organização capitalista do trabalho dentro do lar?

As duas coisas estão profundamente relacionadas porque, se observarmos a luta dos trabalhadores nas fábricas, ela sempre girou em torno do salário, de ganhar mais e trabalhar menos, porque nossa tentativa é nos libertarmos do trabalho capitalista organizado dessa forma. A luta das mulheres vai na mesma direção. Precisamos de dinheiro também para reduzir o trabalho doméstico.

Não basta calcular apenas as horas trabalhadas fora de casa, mas considerar o cenário completo. As horas que trabalhamos fora e aquelas que nos esperam quando voltamos para casa. Trabalhamos muito mais do que seis dias por semana se calcularmos também o trabalho doméstico. Precisamos parar isso porque se trata de uma questão de saúde. Da possibilidade de ter uma vida mais saudável, mais leve, mas também de cuidar de nossos filhos, de nossos pais idosos e de nós mesmas de outra maneira.

Se trabalharmos seis dias por semana, quem cuidará das crianças, dos pais ou de nós mesmas? É uma tragédia. Nossas casas ficam vazias o dia inteiro, com crianças sozinhas. Isso não é bom. É terrível.

Muitas correntes defendem a socialização total da reprodução pelo Estado, mas, se entendi corretamente, a senhora argumenta que isso seria uma “ilusão”. Se o Estado assumisse o papel hoje reservado ao trabalho doméstico individual, poderíamos acabar com uma “fábrica-creche” e com o controle total da vida das pessoas pelo Estado?

Precisamos de dinheiro porque, com dinheiro, temos a possibilidade de decidir por nós mesmas como reduzir o trabalho doméstico. Devemos explorar muitas dimensões, mas os serviços sociais, como creches ou casas para idosos, hoje não são uma boa solução porque, quando o trabalho doméstico é socializado, a lógica da fábrica é introduzida nos hospitais, nas creches e nas casas.

É uma lógica terrível aplicada aos seres humanos. Existe uma padronização do trabalho. Você é um número. Não é o filho querido de sua mãe. É apenas uma entre muitas crianças que precisam de cuidado. Os trabalhadores não são obrigados a amar seus filhos. Além disso, há cada vez menos investimento estatal nesses serviços sociais.

As enfermeiras trabalham sempre em número insuficiente e são mal remuneradas. Três enfermeiras precisam ocupar seis funções inexistentes. Tudo isso significa que a qualidade da reprodução nos serviços sociais é muito baixa. Precisamos, antes de tudo, de dinheiro.

A senhora afirma que seu ensaio busca sistematizar a reprodução “a partir e para além das categorias marxianas”. Por que foi necessário romper com a visão ortodoxa marxista-leninista que classificava o trabalho doméstico como “improdutivo” para compreender a exploração das mulheres?

Isso foi muito importante porque, como feministas, éramos marxistas e nos posicionávamos dentro da história da luta de classes, não no vazio. Quando o movimento feminista começou a existir, havia na Itália o Partido Comunista, grupos da esquerda radical e o movimento estudantil. Havia um contexto político muito complexo e precisávamos lidar com isso.

Nos anos 1970, muitas feministas pensavam que a solução era romper com toda tradição, inclusive a marxista, porque ela estava comprometida com o poder contra as mulheres. Na Itália, Carla Lonzi escreveu “Vamos cuspir em Hegel”. Mas cuspir em Hegel, cuspir em Marx… qual seria a alternativa?

A alternativa foi que, no movimento feminista, em muitos lugares do mundo, as mulheres não falaram seriamente sobre trabalho. Falavam sobre sexualidade, violência contra as mulheres, aborto, temas importantes, mas precisávamos falar de trabalho. Do trabalho doméstico, da luta em torno dele, de elaborar uma estratégia.

Claro que precisávamos ir além de Marx porque Marx não enxergou a esfera da reprodução. Mas o fato de ele não ter visto isso não significa que devemos jogá-lo no lixo. Utilizamos todos os instrumentos que eram úteis para nós e revolucionamos completamente o discurso marxiano. Mas por que ignorar Marx? Não se pode ignorar as tradições. É preciso lidar com elas de maneira autônoma, desenvolvendo seu próprio ponto de vista.

Quais são os principais argumentos teóricos para sustentar a afirmação de que a “trabalhadora sexual” e a “dona de casa” estão integradas ao processo geral de reprodução do capital?

Precisamos produzir reflexão também entre as feministas porque nem todas concordam com nossa análise sobre prostituição. Muitas defendem a abolição da prostituição. O que tentamos fazer foi ouvir a luta das mulheres trabalhadoras sexuais e aprender com elas o que estavam fazendo e contestando.

Partimos não de uma perspectiva moral, mas da compreensão de outras mulheres que eram nossas irmãs como quaisquer outras. O ponto mais importante que aprendemos com elas é que prostituição é trabalho, como qualquer outro trabalho. Se retirarmos esse véu moral, precisamos analisar a prostituição, hoje chamada de trabalho sexual, como um trabalho capitalista organizado de determinada forma pelo capital.

Isso representou um grande terremoto nos anos 1970 porque o Partido Comunista e todas as forças políticas não queriam ter qualquer relação com a prostituição.

Nós dissemos que elas eram como nós porque fazemos algo em casa e elas fazem algo em casa ou na rua, mas é a mesma coisa. É trabalho para a reprodução dos seres humanos e da força de trabalho. Esse foi um salto cultural muito grande. Muitas trabalhadoras sexuais me procuraram porque consideraram esse livro extremamente importante. Foi um livro que devolveu a elas uma posição política, reconhecendo-as como sujeitos políticos.

Existe alguma questão que eu não perguntei e que a senhora considera importante comentar?

Para atualizar a discussão sobre reprodução, precisamos articular uma posição das mulheres contra a guerra, recusando qualquer adesão a políticas de guerra. Na Itália, temos hoje um governo de direita liderado por Giorgia Meloni, que aceitou a proposta de Donald Trump de destinar 5% do produto interno à defesa.

Mas sabemos que “defesa” é uma situação muito perigosa porque facilmente se transforma em ataque. Não queremos isso. A guerra é o ataque mais terrível contra as mulheres e contra o trabalho delas, aquilo que produzem, seres humanos.

Editado por: Thaís Ferraz

fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/05/28/leopoldina-fortunati-operarias-da-casa-e-do-sexo-integram-cadeia-de-producao-capitalista/

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